… e uma rapadura, por favor

(Crônica vencedora do 24º SET Universitário promovido pela PUCRS em 2011. Os textos da categoria eram limitados a 2.800 caracteres)

O freio do ônibus ao lado pareceu estourar seus tímpanos e ali teve a certeza de que tudo estava perdido e a cultura ocidental se dirigia para a desintegração. Ou que sua dor de cabeça estava no nível que sempre chega às quartas-feiras, pontual e inescapável, porque é o dia em que vai ao trabalho mais cedo e volta mais tarde, os dois extremos com o sol fugido do céu, e aquela era uma quarta escura em que até a lua evitava aparecer, no eclipse mais estúpido possível.

Sempre tivera a impressão de que paracetamol se assemelhava a panaceia não apenas por sílabas e sonoridade parecidas – para ele, era mesmo a cura de todos os males. Descobriu que a nitroglicerina, em certas doses, é usada para induzir enxaquecas, e não restaram dúvidas de que há uma ligação entre impressões ingênuas e substâncias. Se a nitroglicerina podia ser usada para explodir rochedos e cabeças, o paracetamol era mesmo uma panaceia e seu nome nada tinha de químico, estando mais para um anagrama mal feito.

A paz custava 99 centavos naquela farmácia. Lembrou-se de um conto que lera, achava que de autoria de um argentino chamado Isidoro Blaisten, em que um homem meio desenganado comprava um objeto que não era revelado no texto. Ansioso para abri-lo, acabava atropelado na hora em que começava a arrancar a fita adesiva do embrulho. Morria agarrado ao pacote e no fim do conto a médica legista abria a caixa, comentando desolada, sem descrever o que havia dentro: “veja a que coisas se apegam os seres humanos”.

Ele nunca soube exatamente o que o homem da ficção carregava, mas sabia que se aquele ônibus, ao invés de deixá-lo surdo, o tivesse esmagado contra o asfalto como o Mercedes verde-musgo fizera com o personagem do conto, certamente diriam sobre ele algo parecido, tão apegado que estava à sua sacola de panaceia.

De repente, aconteceu. O silêncio o atropelou. Não durou mais que vinte segundos. Logo que entrou na rua vicinal, em pleno centro da cidade, os ruídos sumiram. Cercado de concreto, se sentiu mais calmo do que no ponto mais bucólico que conhecia. Agora, nem som de mato havia. Apenas seus passos e os das cinco pessoas da rua na noite tranquila entre majestosos edifícios envelhecidos pela pintura descascada.

Então lembrou que na porta de casa, já há alguns dias, o tapete que diz “bem-vindo” não está mais virado para o lado que dizem ser o certo. As boas vindas não são para eventuais visitantes, mas para quem sai do apartamento. O mundo anda difícil – ao menos o primeiro passo fora do lar precisa ser acompanhado de uma frase de ânimo. “Bem-vindo – ao mundo”, parece dizer o tapete, que se cala quando ele volta para casa.

Desta vez, antes de voltar, para num mercado e compra algo doce. Vai cair bem a esperança do açúcar quando a dor de cabeça passar.

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Labaredas do porão

Cerca de três horas dentro de um ônibus separam Natal de Campina Grande, no agreste paraibano. Duzentos e tantos quilômetros são quase nada para afastar a torcida do Campinense, que tem compromisso na capital potiguar pela segunda rodada da Série C. Garoa no fim da tarde dominical. Pelas frestas do Machadão, despontam muitas camisas listradas em vermelho e negro. Os verdes do Alecrim, time da casa, também se fazem notar. Aficionados locais e visitantes cruzam os pórticos indistintamente. Lá dentro, nada separa campinenses e alecrinenses. A divisão é meramente convencional: apesar de não haver isolamento, os visitantes se apinham à direita das cabines de imprensa. “Nos jogos em que conhecemos a torcida, não é preciso fazer separação”, afirma um policial. (ilusiona un poquito más)

O silêncio dos quero-queros

Há duas situações específicas que provam, num campo de futebol, de qual matéria é constituído um sujeito. Não se trata do pênalti no último lance do segundo tempo, do olho do atacante vidrado no globo ocular do arqueiro e da perna que não se sustenta rija por saber que dará o golpe decisivo nos rumos do dia. Qualquer drama é grande demais para ser a definição do sabor de uma vida – ninguém tem tantas epopeias ou tragédias que superem as horas absolutamente comuns. A existência é revestida de acontecimentos bem sutis que moldam o indivíduo. Um homem só sabe a qualidade do metal que puseram em sua forja diante de um zagueiro sanguinário que desliza num carrinho antropofágico – ou frente aos ferrões de um quero-quero. (ilusiona un poquito más)

Tristes versos de Natal

O Estádio Machadão, em Natal, é um iluminado disco de concreto que parece ter saído das páginas de um álbum de ufologia para pousar no meio da capital dos potiguares. A definição é certamente menos interessante que a escolhida em 1972 pelo então governador do Rio Grande do Norte, José Cortêz Pereira, quando da inauguração da cancha: um “Poema de Concreto”. Mas, numa sexta-feira em que o América confronta o Bragantino por uma esquecida rodada da Série B, os gigantescos degraus vazios soam muito mais alienígenas que poéticos na noite do Nordeste. (ilusiona un poquito más)

Quatro (mil, anos)

22/07/2010 9 comentários
Toríbio Herculano tem um nome bom demais para ser real, ainda mais se ostentar no sobrenome alguma coisa como, digamos, Cachoeiro. Toríbio Herculano Cachoeiro, se existisse, seria torcedor do Grêmio, teria uns dezoito ou dezenove anos e manteria uma carteirinha de sócio do clube. Carteirinha do plano que não há mais, aquele que garantia entradas gratuitas no estádio até o fim dos dias, e para o qual era preciso pagar uma joia – no tempo em que era jóia, com acento. Toríbio viu o valor da mensalidade dobrar desde que entrou nos quadros sociais do clube, ouviu os boatos de que perderá seus direitos na futura Arena, mas, por não possuir responsabilidades muitas e manter algum ânimo de ajudar o Grêmio, continuou firme. Exibia até com algum orgulho a data da matrícula: dezessete de agosto de 2006, um dia depois de o Inter ganhar a Libertadores da América – “não me mixei”. (ilusiona un poquito más)

“A Seleção Espanhola foi um ponto de união de todo o país”

Desde domingo, os espanhóis tocam o céu. Mas só se interessam por uma estrela: a que simboliza o título mundial. Por conta das defesas de Iker Casillas, da artilharia de David Villa, do gol do agora imortal Andrés Iniesta, da maestria de Xavi Hernández no centro, da segurança de Carles Puyol na defesa… ou das profecias do “pulpo” Paul no Aquário de Oberhausen. Não importa a que exatamente se deveu a vitória, como tampouco importam os clichês tão repetidos pela imprensa brasileira de que o título espanhol representou o triunfo do futebol bonito e etcétera. O momento em que a taça foi erguida o mais alto possível para que todos pudessem ver que a frase tão sonhada – “A Espanha é campeã do mundo” – era enfim real transcende o futebol: a crise econômica e o desemprego foram esquecidos por alguns dias, e até o povo das regiões separatistas esteve ao lado da Seleção como nunca antes. Por todo o país, 86% dos televisores estiveram ligados na transmissão do jogo contra a Holanda e, após o apito final, mais de 25 milhões de espanhóis tomaram as ruas em celebração. A realidade volta a se impor conforme os dias mundialistas vão se quedando no passado, mas na Espanha ainda se flutua entre as nuvens. Com o suporte de Iuri Müller e Yuri Medeiros, conversei na sexta-feira com Roberto Palomar, redator-chefe do Diário Marca de Madrid, o maior periódico esportivo da Espanha. A entrevista que se segue é um relato desde o paraíso proporcionado pelo título mundial.  (Todas as imagens que ilustram a postagem são reproduções das páginas do Marca de segunda-feira, 12 de julho de 2010, dia seguinte à conquista do planeta)

Libertad, o con gloria morir

07/07/2010 1 comentário
O caminhar apressado sobre o concreto da 18 de Julio ecoa por entre as ruas vicinais quase vazias. É ruidoso porque não reflete o simples bater do sapato no chão, mas vem acompanhado de cornetas, bumbos e evocações. Um ouvido mais apurado captaria o escorreito chiado do pavilhão oriental balançando ao vento. Restam instantes para o início da partida. Ainda há névoa em Montevidéu quando José Artigas, sobre seu cavalo de bronze, mira o fundo dos olhos de cada um dos milhares de uruguaios reunidos diante de si. Entre o libertador e o povo, uma transmissão desde a longínqua África do Sul oferece a visão de novos heróis. (ilusiona un poquito más)