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¿Hasta dónde llega la locura?

Seria aquela bola que nunca entrou? Seria o escanteio cobrado curto no último instante do jogo, quando até o goleiro estava na área adversária esperando um cruzamento? Seria a cobrança de falta que se estrelou no poste e não beijou as redes por questão de centímetros? Seria o craque do time que pediu pra bater o pênalti na final do campeonato e mandou pra fora? Ou seria simplesmente um passe não dado, uma ordem do treinador não cumprida, um átimo de desatenção que pôs tudo a perder, para um lado, e a ganhar, para o outro?
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De que matéria são feitos esses momentos? Dos litros de sangue bombeados pelos  corações dos torcedores a cada passada dos seus heróis no campo? Do metal do alambrado, retorcido por mãos suadas a cada tiro que sai com desvio? Do etéreo dos gols que não foram e nem serão? Das ondas sonoras que evocam as mães dos árbitros ao menor erro dos apitadores? Do papel que engrossa as contas de atletas milionários mas também garante a subsistência de um jogador a quem a vida não deu chances?
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O que faz a história de um jogo de futebol? O cartaz da partida pendurado nos portões do estádio? As camisas, centenárias ou criadas há poucos anos, defendidas sobre a relva? As patadas, carrinhos, cotoveladas e todo o repertório dos defensores que não querem a bola? Ou o drible de quem sabe tratar bem a esfera? A torcida numerosa que esgota os bilhetes dois dias antes de o apito inicial ser dado? O torcedor solitário que, mesmo com seu time rebaixado, vai ocupar um degrau da arquibancada sob sol numa infernal tarde de dezembro? O arqueiro, tentando se manter na corda quase invisível sobre a qual há glória mas ao mínimo descuido arrebenta e lhe derruba no chão espinhento da derrota?
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Quem sabe definir tudo isso? Os cronistas em suas análises mais ou menos rebuscadas nos papéis do dia seguinte? Os comentaristas e a gana do instantâneo? Os repórteres e a visão da altura do campo? Os próprios atores, mesmo os que não são capazes de articular duas frases inteligíveis e, de cada três palavras, duas são “com certeza”? O torcedor que vai na geral nos dias de chuva, de sol, e até nos de entrada franca para as cadeiras? Os ditos professores, muitos dos quais sem títulos, formação ou noção da diferença dum 2-3-5 para um 4-4-2?
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O futebol é amor? É violência? Beleza? Sangue? O futebol é dinheiro e nada mais? É tecnologia? Camisas que não absorvem suor? Jogadores que não querem suar? O futebol é a raça interminável dos que mal sabem chutar um balão? A sabedoria infinita dos deuses da camisa dez? O lançamento de cinquenta metros ao pé do companheiro? A furada em bola na pequena área do inimigo, aos quarenta e nove do segundo tempo de um zero a zero? A camisa encharcada? A camisa repleta de patrocínios? O barro dum campinho uruguaio? Ou a grama irritantemente sempre verde dum parque inglês?
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Como explicar o encanto do futebol, o gozo quase divino dum gol e o poder revigorador de existências de uma copa conquistada? Talvez pela loucura. Talvez pelo fato de o futebol não ser coisa alguma do que os estudiosos e os especialistas dizem. O futebol não é o jogo bonito. Não é o jogo da força. Tampouco o da técnica, da tática, dos negócios bilionários, dos estádios monumentais ou dos potreiros interioranos. O futebol é, sim, a final de Copa do Mundo que soa desimportante frente ao primeiro jogo sobre uma quadra de terra, no qual as goleiras são dois tocos, mas onde você é o Pelé, o Maradona, o Francescoli. Ou o Ghiggia, dependendo da situação.
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O futebol é grande demais para ser real, para envolver apenas a vida e a morte. O futebol é a eternidade iminente de um lance, a qualquer momento de qualquer partida, que pode alterar todas as coisas do mundo. É a aspiração do terceiro goleiro que nem no banco fica, mas da arquibancada imagina o dia em que defenderá um pênalti naquela mesma cancha e sairá aclamado. É o olho afoito e curioso do menino que sobe pela primeira vez as escadarias do estádio local, e em pensamentos tenta prever o que se passará ali na frente. É o torcedor de cinquenta anos que nunca viu o clube ganhar uma taça importante, e vai a praticamente todos os jogos, porque parte da sua história está ali – e porque uma única vitória compensa a dureza dos dias e lhe crava na face um sorriso.
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O futebol é o que se quer que ele seja. É o vento a avivar os braseiros da emoção de cada um. O pretexto dos povos de todos os cantos para passarem horas discutindo, planejando, analisando, escrevendo, gritando, jogando, brigando, amando, sonhando. Fazem tanto, e fazem mais, porque são viciados nesse álcool esportivo ao qual só cabe um gerúndio: desde que surgiu, o futebol gasta seus dias ilusionando.
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Maurício Brum (foto: Iuri Müller) – Saímos daqui.
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  1. rafael botafoguense
    19/01/2010 às 19:32

    pow,que coisa foda!

  1. 10/01/2010 às 20:12

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