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De meretrizes e matadores

Sentado na poltrona dois, atrás do motorista, tinha uma visão ampla da estrada que era vencida pelo ônibus. Observou primeiro uma silhueta trêmula, sumida no horizonte. A cada instante, ela se aproximava e se definia mais. Era uma moça linda. Caminhando pela beira da estrada, na entrada da cidade, parecendo atrair mais olhares para si a cada passo, mesmo que nos arredores houvesse pouco mais que mato e uns bolichos. Ele fez do assento uma metáfora da sua genitália e colocou-o na vertical. Queria ver melhor. Acordou o amigo que ia ao lado e apontou a beldade.
*
– É uma puta – respondeu o outro, ainda bocejando.
*
Fechou a cara e mandou o companheiro se calar. Maldito herege. Obviamente estava raivoso por ter sido tirado do sono que lhe fazia babar em profusão e resolveu descontar em quem motivara aquele despertar súbito. O ônibus, mais rápido que a menina, alcançou-a e ultrapassou-a. Ele agora assistia à caminhada dela com riqueza de detalhes. Passos macios, glúteos firmes. Metaforicamente, já babava mais que o amigo fizera nas três horas de viagem que passou dormindo. A simetria das formas estabelecida pelos céus materializada no corpo de uma mulher e o outro destruía toda a magia do vislumbre numa frase. Numa palavra.
*
Como assim, uma puta? Enfiou a questão na cabeça. Rodoviárias que ficam no centro das cidades têm esse mal, o de apresentar o destino e permitir que se pense sobre ele antes de descer do ônibus. Quinze minutos é o que se leva para chegar à rodoviária de Ijuí, desde uma entrada da cidade. Os filósofos gregos teriam descoberto todas as chaves do universo se passassem quinze minutos dentro dos ônibus que chegam a Ijuí. Ele, que não era nenhum Platão, foi iluminado por uma epifânica mudança de concepções. Metido num canto do Noroeste do Rio Grande do Sul, pôs-se a refletir sobre a moça da estrada como um ateniense.

Que tipo de mulher sairia numa hora daquelas, a tarde findando, com a maquiagem exagerada, os cabelos negros apelativamente soltos e, por Deus, exibindo AQUELE decote? Todo o corpo de Vênus empinado e equilibrado sobre gigantescos saltos vermelhos. Mesmo que não se prostituísse, só poderia ser uma caçadora de homens. Das que levam os incautos aos devaneios mais proibidos e, depois de devorar suas carcaças na alcova, os pisoteiam e abandonam para que não reste uma partícula de dignidade. Tudo automático, sem sentimento. De um jeito ou de outro, uma puta.
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Não ficou satisfeito com a conclusão parida naquele interminável e insuportável ingresso na cidade. Acreditava ainda haver espaço para as paixões no seu miocárdio empedernido pela rotina estafante. Morria pouco a pouco cada vez que levava um golpe desses. Como o ônibus passasse ao lado do estádio local e ele visse os refletores acesos, tomou a decisão: não procuraria o hotel onde deveria pernoitar antes de seguir viagem. Iria à cancha. Havia jogo, e ele viveria uma noite de torcedor, emocionado como na infância. Nada dessas desilusões de adulto.

Estava decidido: se afogaria nas emoções da torcida desconhecida. Correu, literalmente, do terminal para o estádio. Subiu as gerais com vinte e cinco minutos de enfrentamento passados. Não sabia disso. Sequer imaginava quem estava em campo ou por que competição se disputava a partida. Estava na cidade de cruzada. Mas, pelas cores do estádio e da maior parte dos presentes, sabia que seu time era o vermelho e branco. Espremidos num canto da mesma geral, mas também infiltrados noutros setores, os alviverdes deviam ser os visitantes.
*
Gostava de tirar afirmações do ar com seus longos dedos, como se puxasse com delicadeza os cabelos do oxigênio, e foi construindo o cenário de acordo com as frases soltas ao léu por quem estava ao redor. O time da casa, o seu, o vermelho e branco, não podia estar empatando aquele jogo. Era da primeira divisão, havia contratado bons jogadores, e no entanto sofria contra os adversários, que, pelo comentado, eram do segundo escalão. Tratava-se de um amistoso de pré-temporada. O quinto do seu time, ouviu de um rádio qualquer. E não existia um conjunto de equipe, uma tática definida ou um entrosamento invejável – isso ele não precisou escutar de ninguém para assumir como fato.
Disposto a sofrer como um aficionado de muitos anos daqueles vermelhos e brancos, colocou-se a roer as unhas e a xingar nervoso os atletas que, embora não sofressem muito perigo, poderiam até sair derrotados num descuido. Viu como um verde e branco pisoteou as costas dum alvirrubro, como os encontrões se sucederam num tango violento e psicodélico, como o árbitro expulsou um jogador de cada lado e viu que aquilo era bom. Deixou-se abraçar pela fumaça dos sinalizadores e, à distância, baixinho, começou a repetir os gritos da torcida organizada local. Quem se importava que estivesse 1 a 1? Nós somos da elite, vocês não, e dê-lhe “ão, ão, ão, segunda divisão”.
*
Então olhou para o lado e viu ela. Deslumbrante naqueles degraus, como deslumbrante estivera naquele acostamento. Sem a maquiagem exagerada, sem o decote aberto até o umbigo, sem o salto alto. Nem os cabelos estavam soltos. Mas era ela. Tinha que ser. As medidas dela eram iguais a antes; a convulsão dos pensamentos impuros dele, também. Ainda que não encontrasse uma explicação plausível, só podia ser ela. Olhou nos seus olhos pela primeira vez. E não encontrou a destruidora de corações. Havia ternura naqueles azuis, naquela dupla de infinitos a propor toda a série de doçuras que o mundo pode oferecer.
*
“QUE FENÔMENO ESSE GURI! QUE FENÔMENO ESSE GURI!”
*
Despertou daquela visão rara como se tivesse levado uma pedrada no meio da testa. Catatônico, um senhor gritava junto ao alambrado. Como o faziam todos os vermelhos e brancos. Ele se virou rápido, procurando o campo, a tempo de captar o que acontecia. Abraçavam-se, os jogadores alvirrubros. Chiquinho acabara de fazer 2 a 1 para o São Luiz sobre o Panambi, seu segundo gol de falta no jogo – um fenômeno. Os gols de falta de Chiquinho, os dois olhos ternos a criar esperança na torcida são-luizense, a salvação de uma equipe que ainda não mostrou poder coletivo.
*
Comemorou o gol, torcedor que era, mas logo procurou sua musa. Olhou a geral de cima a baixo e só encontrou desalento. Ela não estava mais lá. Zagueiros ingênuos que fazem faltas na entrada da área e amores surgidos na primeira troca de olhares não são coisas para durar.
*
Maurício Brum
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  1. Ranieri
    20/01/2010 às 08:42

    parabéns pelo site, textos sensacionais, encontrei hoje, por intermédio de um amigo
    é de ijuí?
    já fui diversas vezes lá acompanhar a querida SER nos clássicos do noroeste, hehehe
    abraço

    • 22/01/2010 às 15:26

      Gloriosos clássicos noroestinos. Nosso QG é em Santa Maria, mas eu sou de Ijuí e sempre dou um jeito escapar para acompanhar o São Luiz.

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