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Não te dedico grandes ilusões, Interzito

As duas primeiras ilusões de coberturas têm, como cidades de remetente, Santa Maria e Ijuí. Porque as ilusões sempre destituiram o elemento intransponível das fronteiras, de modo que o acontecimento dado em uma cancha do Centro ou do Noroeste do Rio Grande terá uma dimensão universal. Aquele carrinho selvagem vai gerar a mesma reação em Melo, no Uruguai, ou no Kiribati, no fim do mundo. Assim é o futebol, definido com entusiasmo naquele texto de abertura. Nada mais justo, então, de buscar os primeiros ingredientes no pátio de casa: seja a Baixada Melancólica de todos os domingos ou no 19 de Outubro, que só carece da mesma melancolia no nome da cancha, mesmo.
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Na mesma tarde-noite em que São Luiz e Panambi se confrontaram e pisotearam os resquícios de terra vermelha provenientes de Cruz Alta, o Inter-SM recebeu no Presidente Vargas um rival dos mais famigerados. Lembro de mais confrontos do rubro santa-mariense diante do Avenida do que contra o Riograndense, com o qual o coloradinho faz o derby de todas as horas. E o Avenida sempre foi tratado como um quadro que apanha sempre e inevitavelmente, por mim. Mas essa ideia não representa de forma justa a história do confronto, já que o time de Santa Cruz andou até impedindo o acesso do Inter ao patamar elitista do futebol riograndense, isso creio que em 2000. Foi simplesmente fixado na memória como um saco de pancadas. E assim ficará.

Nada disso ocorreria na quinta-feira, no entanto. Porque era um amistoso singelo, dos quais nem se espera a pancadaria típica dos entreveros interioranos que não irão a tribunal, pelo simples e único motivo de não fazerem parte de qualquer espécie de competição. Se trouxesse o Bagé, como era de costume, ou ainda o Cerro Porteño, como se ilusionou, a virilidade se tornaria imperiosa dentro das quatro linhas. Mas Bebeto Rosa queria um pouco de amostra futebolística – não é mais Segundona, parece que na Série A é preciso trocar uns passes para vencer alguém – antes do início da competição, no próximo sábado, em Caxias do Sul, contra o quadro grená daquela região.
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A preparação do Interzito para o certame foi, é certo, oscilante. O início de tudo foi a desordem de um clube que não havia definido nem o seu presidente – isso enquanto alguns clubes já anunciavam reforços com o poder de desiquilibrar um campeonato, como é o caso de Chiquinho e o seu São Luiz, por exemplo. A insensatez eleitoral do Inter-SM tardou tanto que o pessimismo se adonava das almas dos torcedores, já calejadas pelos muitos anos de queimaduras no inferno cumpridor da Segundona. Eleito Marineu Ziani, a expedição por contratações foi frutífera, até. Adentraram na Baixada nomes como os de Gauchinho (artilheiro da Libertadores de 1999 pelo Cerro Porteño, clube pelo qual marcou ESSE golazo), Djair – o levemente violento, ex-Grêmio – e de Victor Hugo, ex-Veranópolis.

E o desempenho nos amistosos agradava. Contra equipes amadoras, as vitórias de sempre, com momentos em que o rapaz da várzea, o atendente da quitanda, derruba o profissional bem pago com uma gambeta de chorar. Mas o Inter-SM ganhava, assim como ganhou do própro Avenida no Estádio dos Eucaliptos, como é o do seu rival. Em Santa Maria, na quinta-feira, teria o seu último teste do tipo: ao menos não há qualquer outro amistoso marcado. De modo que um bom público rumou às arquibancadas de sempre, e ali não puderam se esticar. Apenas o pavilhão e o trecho destinado a torcida visitante esteve liberado, como tem sido nos últimos amistosos – contenção de gastos, dizem (?).
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Era a ilusão primária do torcedor, que no sentimento mais fundo queria mesmo era enxergar um Interzito com buen fútbol. Tropeçou outra vez no desejo. Viu apenas noventa minutos passarem com trechos sonolentos e um ou outro mergulho mais audacioso em direção ao gol – o Inter-SM abriu o 1-0 com Ewerton, ainda na primeira etapa, ele que é o único meia armador do plantel. Mas o tempo passava e a noite se acomodava no janeiro que tem calor – e o natural, o inescapável poente, trouxe a desgraça da partida. Os refletores desfalcados da Baixada não deram conta e Interzito e Avenida duelaram à meia-luz. Os de Santa Cruz igualaram tudo no primeiro movimento da segunda etapa, e depois tudo ficou assim.
No auge do breu, nas derradeiras voltas do último período, meia dúzia de empurrões emprestaram seriedade a uma partida que não foi séria: poucas conclusões puderam ser tecidas do último amistoso da pré-temporada. Descobri, apesar de desconcentrado que estava, pois manejava a minha ainda selvagem Nikon, que o tradicional esquema 3-5-2 de Bebeto Rosa deverá ser criticado uma vez mais, que o lateral-direito não é dos mais corajosos (o que ainda não representa muito), e que o Avenida, provocativo a ponto de anunciar um time misto, tem mais a oferecer – não que tenha realizado uma partida muito superior, me baseio pelas poucas iniciativas melhor organizadas e pelos bons nomes que rabiscavam a prancheta inexistente de Hélio Vieira (que cara chato, reclamar no intervalo de um amistoso em que pouco ocorria é o fim da apelação). Enfim, terminei a partida sem grandes ilusões e fotografando o ocaso – porque no campo faltava luz.
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Iuri Müller
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  1. neco
    12/01/2010 às 00:44

    BOA SORTE GURIZADA, PARABÉNS BLOG ESTÁ MUI BUENO

  1. 14/01/2010 às 00:19

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