Início > Recuerdos > O gol da tua vida

O gol da tua vida

A Copa Africana de Nações tem, para seus contestantes, uma importância difícil de compreender com olhos acostumados às gramas dos dois principais continentes do futebol. Não se trata do trituramento mecânico de selecionados que, no fim, coroa os mesmos campeões de sempre sobre os mesmos adversários de sempre, como na Copa América. Tampouco é o caso da megalomania ressentida que se vê na Eurocopa, a quase certeza de se disputar o que há de melhor na Terra, abaixo da Copa do Mundo, mesmo que contra a potente Letônia. A CAN é grande, sim, mas por comportar os berros de um continente sem voz.
*
Que se esqueça o colonialismo, o racismo, os navios negreiros, as fronteiras mal traçadas, que até causaram o episódio do ônibus metralhado de Togo, as guerras fratricidas, a pobreza e a fome – e como esquecer tudo isso? –, e mesmo assim é possível escrever um texto sobre o ostracismo da maior parte da África e seu sofrimento. Que se cerquem ainda mais as possibilidades do texto, que saiamos apenas com argumentos futebolísticos e ainda encontraremos gargantas roucas incapazes de se fazer ecoar além dos mares. Na Confederação Africana de Futebol, a organização continental com mais filiados no globo, 55 países lutam por míseras cinco vagas na Copa do Mundo.
*
Na África, descobre-se que o torneio mundialista sofre de DIVERTICULITE e usa uma peneira para degustar seus representantes – ficam os grãos, passa o sumo. O supra-sumo. Quiçá seja por esse motivo que a CAN é a competição continental mais frequente do planeta, disputada de dois em dois anos, mantendo os sonhos nos dias de remanso. A enorme concorrência existente dentro do futebol de lá fica mais explícita neste 2010: como de costume, por falta de espaço no calendário, as Eliminatórias à Copa do Mundo davam também ingresso na Copa Africana – na última fase qualificatória, os vinte times sobreviventes eram divididos em cinco quadrangulares, passando ao mundial o vencedor de cada chave e, ao continental, os três primeiros dos grupos.
*
Ocorre que os resultados decretaram que o anfitrião de um torneio não disputasse o outro, e vice-versa. A África do Sul, sede do mundial, não entrou na CAN – o que leva à imediata conclusão de que passaria longe da Copa do Mundo, também, fosse ela jogada em qualquer outro país. Talvez o RICO inglês de Joel Santana não tenha ajudado a entender por que diabos seu time estava metido naquelas Eliminatórias. Em contrapartida, Angola, que recebe o certame regional, foi incapaz de garantir vaga no torneio da FIFA. Em verdade, nenhuma das duas atingiu sequer a última fase das Eliminatórias.
*
Se as emoções daquelas memoráveis vitórias sobre vigentes campeões do mundo (europeus e sul-americanos) são possíveis apenas aos ELEITOS que saem do continente, é preciso dar aos demais uma gota do néctar da loucura em solo africano mesmo. Criada em 1957, a CAN já tem mais edições disputadas que a Copa do Mundo. Depois de variar suas temporadas de realização no início, adotou seu atual formato bienal em anos pares a partir de 1968. Assim, abre espaço para que seleções raquíticas como a das Ilhas Maurício (belo nome) tenham ilusões, nem que seja com três derrotas em três jogos, de estar peleando por uma taça. E permite que potências regionais vitimadas pelo funil das Eliminatórias criem dinastias.
*
O Egito, por exemplo. O Egito é o atual bicampeão da Copa Africana, o maior galardonado do torneio continental, com seis taças, e no entanto só disputou duas Copas do Mundo na história – uma no tempo dos FARAÓS, em 1934, e outra no também já distante 1990. Gana é outro caso clássico. Nos anos sessenta, não havia quem parasse os ganeses antes da decisão: num feito ainda não igualado, chegaram a quatro finais consecutivas da CAN, conquistando o título em 1963 e 1965, e sendo vices em 1968 e 1970. Ganharam o apelido de “Brasil da África”, empilharam depois disso mais duas taças e um vice, mas seguiram VIRGENS em competições fora do continente até 2006, quando jogaram sua primeira Copa do Mundo.

*
Eu estava em Paris (inicia o parágrafo assim só para se exibir) quando se decidiu a Copa Africana de 2008. Como toda a França, Paris é ocupada por inúmeros africanos, o que escandaliza e desagrada profundamente os franceses em sua rotina de baguetes e Le Monde. Ainda há mais vinhos, queijos e greves do que africanos na França e, a julgar pela INCLINAÇÃO gaulesa por uma bebedeira e uma grevezinha (às vezes, as duas juntas), isso deve seguir assim, mas a presença dos egressos do continente ao sul é real qual os paralelepípedos do Quartier Latin. Africanos – negros ou magrebinos. Muitos deles dedicados ao comércio, às pequenas MERCEARIAS de alimentos-bebidas-e-tudo-um-pouco.
*
Na noite do 10 de fevereiro de dois anos atrás, essas lojinhas estavam de portas cerradas. E os africanos, sumidos, vendo o jogo. Boa parte deles sem ser egípcia ou camaronesa, os dois times envolvidos na final. Apenas amantes do futebol. Do seu futebol. E da sua copa. Esta que faz os gritos de gol saírem mais fortes, puxando pelo esôfago um pouco das glândulas, das veias e do espírito, numa espécie de comunhão inconsciente para fundir tudo, sacar do corpo e depositar no solo, tentando fecundá-lo e perpetuar-se para as próximas gerações. Porque o gol é o princípio da vitória. E a vitória levará ao título. Mas há aquelas vezes, as raras vezes, em que a vitória e o título são dispensáveis e o gol, só ele, é a improbabilidade feita real, a imagem que colará na retina e acompanhará o torcedor pelas rondas insones até o fim dos seus dias.
*
O jogo de Luanda, ontem, entre Angola e Mali, o jogo que abriu a Copa Africana de 2010, teve desses momentos. Angola chegou a estar vencendo por 4 a 0. Quando o goleiro Carlos, o único branco em campo, falhou num escanteio aos 79 minutos e proporcionou aos malineses seu gol, veio na memória uma remontada improvável ocorrida noutra CAN – em 1998, numa decisão de terceiro lugar, Burkina Faso batia a República Democrática do Congo por 4 a 1 até os 86 minutos, e cedeu o empate. A exemplo dos angolanos, estava em casa. Mali tinha mais tempo, mas precisava de mais gols que os congoleses. Ainda assim, logrou-os. 4 a 1 aos 79, 4 a 2 aos 88, 4 a 3 aos 90+2, e o inolvidável: aos 90+4 minutos, 4 a 4.
*
Mali, uma seleção de raras felicidades, sem participações na Copa do Mundo, também não é das mais prodigiosas no torneio continental. Sua única final africana disputada – e perdida – data de 1972, época em que a maioria dos presentes ontem provavelmente nem tinha noção do que era o futebol. Havia, no Estádio 11 de Novembro de Luanda, uma imensa massa branca, recheada de torcedores do Mali. Essa parte da cancha ficou vazia quando do quarto gol angolano. Penso nesses torcedores que abandonaram e, já fora do estádio, tomaram conhecimento da reação do seu time. No misto de alegria e ódio que sentiram. Só comparável em intensidade à decepção do povo angolano, a raiva daqueles malineses era dirigida contra si mesmos e sua pouca fé. Perderam o maior momento que o futebol poderia proporcionar às suas vidas.
*
Maurício Brum (fotos: AP)
Anúncios
  1. 12/01/2010 às 21:29

    Oi Maurício
    Eu quero desejar-lhes boa sorte neste novo projeto.

    Acredito que o blog é ótimo, e certamente vocês terão um leitor frequente aqui na Argentina. Eu gosto de seus textos desde que conheci o Futebesteirol lá no 2007.

    Parabéns pela nova creação!

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: