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Eu vi o Rolo Compressor nascer

Numa manhã de sete décadas atrás, um jovem nascido em São Pedro do Sul pisou no gramado do Estádio dos Eucaliptos, em Porto Alegre. Saído do interior para estudar na capital, fascinou-se com a cena daqueles atletas que trajavam vermelho e se empenhavam para aprimorar suas técnicas – e cobiçar uma vaga na primeira equipe. O recém-profissionalizado Sport Club Internacional era, como hoje, uma alternativa interessante para os meninos cuja qualidade permitia idealizar sucesso com a pelota nos pés.
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“Todo mundo corria pra lá”, conta um deles, hoje nonagenário, reconstruindo a época com facilidade. Mas, nos princípios do futebol pago, nem todos os que corriam para lá eram exatamente assalariados do clube – João Crescêncio, o garoto de São Pedro, foi um dos que o Colorado encostou em outro emprego para que se sustentasse na capital enquanto defendia as cores alvirrubras. Ele teve um lugar na polícia. Outros ganhavam espaço no comércio e nos serviços da cidade ou, na falta de coisa melhor, recebiam do Inter alguns vales para adquirir leite, pão, carne e outros alimentos.
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A convergência de tantos moços desportistas para os Eucaliptos daria uma guinada na história do Inter. Nos primeiros vinte anos do Campeonato Gaúcho, criado em 1919, o clube ganhara o título apenas duas vezes – o mesmo número de conquistas que o Guarany de Bagé já ostentava, e três a menos que o arquirrival Grêmio. Nos anos 40, os colorados experimentariam o sabor de oito taças em dez temporadas, sendo a abertura desse domínio um inédito hexacampeonato entre 1940 e 1945. E com massacres de seis gols para cima sendo praticamente uma regra não escrita das decisões – na final de 1942, por exemplo, o Inter aplicou 10 a 2 no Floriano de Novo Hamburgo no primeiro jogo (e 14 a 3 no agregado).
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Era o Rolo Compressor esmagando cada um que se arriscasse a aparecer entre os encarnados e o almejado troféu. Aquele time é, hoje, um episódio atrelado ao imaginário do futebol gaúcho de tal modo que parece ter estado ali desde sempre. Quando João Crescêncio chegou, porém, inexistiam nomes de craques inscritos no mármore destinado aos campeões – sequer a primeira temporada de glórias do período havia ocorrido para levar metais à sala de troféus do clube.
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Para comprovar, Crescêncio puxa o artefato mais raro da sua coleção. A Carteira de Identidade não é o documento emitido pela Secretaria de Segurança Pública, aquele necessário para tantas coisas e que aponta a sua data de nascimento – o dia de Natal de 1918 –, mas uma relíquia que até o próprio clube já desejou e pediu doação para o museu do Beira-Rio: a identificação como “socio athleta” do Sport Club Internacional, válida para a temporada de 1940. Embora o primeiro título da série date daquele mesmo ano, o Rolo só passaria a ser admitido como fato irrecorrível por volta de 1942.
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Com a força dos vinte e poucos anos, o jovem de São Pedro assistiu à evolução da equipe de dentro do clube. Compartilhou os campos de treinamento com nomes que hoje figuram entre lauréis e ocupam várias seleções coloradas de todos os tempos. Para Crescêncio, foram reais os jogadores que agora são alçados ao Olimpo pela metade alvirrubra do Rio Grande – e nem por isso menos dignos da legenda que se construiu em torno deles.
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Sem poder concorrer com a qualidade dos futebolistas que desembarcavam nos Eucaliptos, fez valer a condição de athleta estampada na identidade. Disputou diversos esportes amadores pelo Inter. Esteve na Corrida de São Silvestre, em São Paulo, num tempo em que quem ia não o fazia para se exibir às câmeras da Globo, mas para competir a sério. No entanto, os esportes coletivos sempre atraíram sua maior paixão, e foi no basquete que mais vezes fardou pelo Inter. Enfrentou certames regionais e se classificou para um torneio nacional no Rio de Janeiro, de onde voltou vice-campeão.
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No futebol, chegou ao quadro de aspirantes. O time secundário de uma era anterior às substituições, recheado por reservas que dificilmente conseguiam chance para desbancar os grandes jogadores. Bastou para dividir as canchas de treino com os ídolos. “O Carlitos, na época dele, era um fenômeno”, relembra Crescêncio, dando um testemunho para concordar com todas as crônicas que exaltam o maior artilheiro da história do Inter e dos Gre-Nais. “E ele tinha uma bolinha atrás do joelho, que nunca quis operar”, completa, sobre um provável incômodo que jamais atrapalhou a sanha de Carlitos para perfurar as linhas defensivas do inimigo.
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Rui e Motorzinho – “um baita cara, fazia gol que era um espetáculo” – também são preferidos pela memória adquirida naquelas jornadas de treinamento. Dono de uma lembrança rica que os 91 anos não conseguiram desbotar, João Crescêncio curiosamente não tem a recordação de dividir os campos com Tesourinha. Mas abre um sorriso ao contar que, antes de ir para o Inter, o negro da ponta-direita defendeu um time ferroviário de Porto Alegre. O orgulho de quem também teve a vida marcada pela ferrovia, dentro e fora do esporte. Em 1942, sem enxergar perspectivas como encostado do Inter, Crescêncio voltou ao interior, para trabalhar no maior entroncamento ferroviário do Estado. Santa Maria o aguardava.
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Os anos de João Crescêncio em Santa Maria e a história do Guarany/Atlântico, clube ferroviário do futebol santa-mariense, são assuntos para a segunda parte desta reportagem, a ser publicada quinta-feira sexta-feira.
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Maurício Brum
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  1. Sergio Claudio Engel
    04/05/2010 às 15:35

    Olá, Maurício Brum ?
    Sou o cachoeirense Sergio Claudio Engel, que recebi com muita humildade o destaque local “Expanssão Cultural ” na noite dos destaques locais. Tendo em vista a minha coonquista recebida das mãos do jornalista Luís Henrique Corrêa de Várzea Grande (MS) o título do Guinness Brasil, em 14.03.2009. Que fala no maior historiador do futebol amador do Brasil, para o orgulho de meus familiares.
    Depois, de me apresentar a ti. Aproveito o ensejo para parabenizar pela qualidade de tua matéria do dia 15.01.2010.Que acabei encontrando por acasso na internet, pois fazia uma pesquisa sobre “As concentrações de jogadores de futebol”, quando deparei com o tema que narra em minúcias a história do Guarany/Atlântico. Gostaria se possível de viabilizar um encontro com você, João Crescêncio e eu, pois faço pesquisa sobre o futebol amador do RS.
    Um grande abraço do amigo Engel.

  1. 16/01/2010 às 05:18

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