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Os maiores copeiros do mundo

Foi preciso ir até Santa Cruz do Sul, apesar da ponte caída, para ter a revelação. Num lado das gramíneas irregulares, o Avenida local. Na metade oposta, exibindo o elenco inteiro, o Cerro Porteño do Paraguai, em sua surreal pré-temporada pelo Rio Grande. Um falhou durante toda a década passada no intento de ganhar respeito no interior e, ao invés disso, ficou marcado como time sofredor de goleadas. O outro teima em jogar dezenas de Libertadores e em tempo algum aparecer numa final da Copa. Era o estádio menos propício a isso, mas lá estavam os maiores copeiros do mundo.
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Cerveja, claro!
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Numa insanidade negada pelo Internacional de Santa Maria, com quem o Cerro deveria ter feito esse amistoso de terça-feira, o Avenida afrouxou os cordões da sua bolsa de dinheiro e soltou cinquenta mil reais para trazer os paraguaios à sua cancha. Para recuperar o prejuízo, desfez as regalias comuns na compra de ingressos e estabeleceu preços únicos para todos os setores. Teve como resposta um público mediano, que dos degraus da arquibancada parecia admirar os CLANDESTINOS capazes de subir um muro e assistir ao encontro dali.
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Me vê um refri aí.
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O primeiro tempo deve ter causado nervosismo num eventual espião mandado pelos futuros adversários do Avenida. Seus ataques eram chuviscos constantes com ruídos de trovões e prenúncio relampejante de temporal. O quadro de Assunção demonstrava problemas extraordinários para superar sua própria intermediária defensiva com um mínimo de qualidade. Nos nove minutos iniciais da partida, os locais tocaram bem a bola, não permitiram que o Ciclón suspirasse e acumularam três chances ferventes para alterar os números do PLACAR ELETRÔNICO dos Eucaliptos, esse luxo raro para o interior.
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Dois cachorros, beleza?
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O Cerro Porteño demorou mais de quinze voltas do minuteiro para entender a CONFIGURAÇÃO do ambiente e estabelecer seu planejamento. Aprofundar-se na defesa do Avenida passava por dominar as duas extremidades laterais do campo. A marcação pífia naqueles setores arrombava os portões da área do time da casa – pórticos secundários, já que ao lado, em diagonal à meta, mas sempre um caminho para se tentar algo. Nesse avanço pelas bandas, aparecia Julio Irrazabal, supostamente pretendido pelo Grêmio, com o número 2 às costas. As bolas invariavelmente passavam pelos pés do lateral revelado no SOL DE AMÉRICA, e o jogo paraguaio rengueou, pendendo para o lado direito.
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Porra, só tem Skol?
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As investidas visitantes, contudo, morriam na marcação. Nas vezes em que os pelotaços do Cerro conseguiam superar o trio defensivo formado por Teda, Ramon e Rodrigo Ramos, as esperanças terminavam degoladas pelas mãos do arqueiro Fabiano. Ou, num ímpeto suicida, os próprios atacantes do time obrero erravam os pés da bola e iniciavam o harakiri da sua oportunidade. O Avenida pressionava com a violência e o calor da lava que desce as encostas de um vulcão. Jorge Britez, um falso gordo que corre muito mais do que sua forma parece indicar, suava alguns arroios para manter seu arco invicto.
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Essa maionese de vocês ainda tá boa?
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Aos 39 minutos de combate, o Avenida computava seis lances translúcidos através dos quais se pôde observar a comemoração de um gol – todos desperdiçados sem dó. O Cerro Porteño tinha como sua melhor chance uma furada em bola dentro da área local. Na prática, o de Iván González foi o primeiro chute dado pelos cerristas na direção da goleira em todo o encontro. E o Cerro fez 0 a 1. Chama-se camiseta, mas pode botar na conta da técnica. Trocando passes de um jeito que até ali parecia infrutífero, porém sempre com inegável qualidade superior, os de Assunção romperam paliçadas até a meta gaúcha. Do bico da área, González avistou o espaço e mandou com categoria, em curva, um tiro que passou por cima de todos e parou no canto esquerdo do goleiro.
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Outra cerveja, que esquentou.
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Ademais de luzir um marcador relativamente injusto no intervalo, o placar dos Eucaliptos apontava, ao meio-tempo, vinte e nove graus – três a mais do que no início da partida. A temperatura voltaria a cair, sendo seu pico uma obra do SOL POENTE sobre o termômetro, mas servia de pretexto para consumir mais do sumo vindo da cevada e justificar alguma queda de rendimento do Avenida. Para o segundo tempo, o Cerro Porteño trocou os onze jogadores, lançando à relva a equipe anunciada pela imprensa de Santa Cruz como a “titular”. Mudou até a bola: saiu a do Gauchão, com sua SUÁSTICA subliminar, e entraram os gomos azuis do projétil a ser usado na Libertadores.
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Passa a mostarda, tio.
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Encarando os jogos como TREINOS do elenco, e não um teste definitivo da equipe, o Cerro estilhaça com pulmões renovados as formações gaúchas. Mas é simplismo creditar ao descanso paraguaio o que se viu na parte final do encontro. Contra eles pesou uma expulsão no início do segundo tempo, e a inferioridade numérica dos azul-grenás não serviu para gerar qualquer expectativa nos avenidenses. Quico, um guri audacioso de cabelos rubros que errou por tentar demais, mas tinha mérito por correr os riscos, foi a única nota boa do Periquito no segundo tempo. Uma mera marcação mais feroz sobre Miro Bahia, o coração do meio alviverde, conseguiu apagar a chama da ofensividade no time da casa.
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Sobrou algo nessa copa?

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Faltou fôlego ao Avenida, que desde o crepúsculo dos três quartos de hora iniciais já ia reduzindo seu ritmo. O novo Ciclón de após o regresso ao campo, que meteu mais dois gols e triunfou por 0 a 3, foi apenas o sopro derradeiro no gigantesco castelo de cartas que estava sendo aquele quadro de Santa Cruz. Ao contrário do time, os funcionários da copa dos Eucaliptos não tiveram chance de parar. Provavelmente inigualáveis na sua função, trabalharam do primeiro ao último minuto numa correria para servir pães com linguiça, refrigerantes e cervejas, saciando a fome e a sede de uma torcida que não pôde se alimentar de gols. A solução para a falta de preparo físico do Avenida está no seu próprio estádio, mas não na casamata. É dos copeiros que a comissão técnica vai ter de puxar lições.
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Maurício Brum
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