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João Crescêncio, a ferrovia e o futebol

Em solo soviético, a Batalha de Stalingrado tinha início. Nos Estados Unidos, o que começava era o programa Voz da América, instrumento de propaganda que se tornaria ainda mais útil nas décadas seguintes, quando o comunismo pintou de inimigo. No Mediterrâneo, despencavam bombas nazi-fascistas sobre a estratégica Ilha de Malta por mais de duzentos dias seguidos, enquanto pelos mares ocidentais os alvos do Eixo passavam a ser, também, os navios com a bandeira do ainda neutro Brasil. Getúlio Vargas saía de cima do muro e tomava o partido dos Aliados.
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Poucas coisas mereceram mais espaço no noticiário de 1942 do que a evolução da Segunda Guerra Mundial. Mas, no Rio Grande do Sul, não eram dos aviões da Royal Air Force britânica nem dos u-boats alemães os canhonaços mais temidos. Carlitos e os companheiros de Internacional criaram um pelotão de artilharia invejado em cada front de batalha representado pelos estádios e, à base de tiros precisos nas redes adversárias, acumularam goleadas, triunfos e copas. Àquele exército deu-se o nome de Rolo Compressor. Um grupo de oficiais de elite ocupou lugares cativos nas suas linhas, e a entrada de novos soldados ficou dificílima. Para João Crescêncio, um desses aspirantes, escassearam perspectivas em permanecer na capital. Seu grande fato daquele ano não foi a Guerra, mas um telefonema.
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Desde a Região Central do Estado, o pai chamava o filho de volta. A impossibilidade de progredir no Inter e a falta de um emprego real haviam tornado Porto Alegre desinteressante. O que fazer do futuro mantendo apenas um serviço arranjado pelo próprio clube na polícia? Em Santa Maria, dizia o pai, surgira uma chance das que não se podem desperdiçar: um trabalho “na Rede”, essa entidade quase mística que na época despertava ilusões. A Rede Ferroviária respirava então os ares de uma grandeza que era ainda mais pujante naquela cidade. Construída entre as palpitações do coração do Rio Grande, a estação de Santa Maria da Bocca do Monte foi inaugurada em 1885 para intermediar a linha entre Uruguaiana e Porto Alegre. A seguir, incorporou a linha vinda de Marcelino Ramos, que ligava o Estado a São Paulo e Rio de Janeiro.
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Favorecida pela localização, Santa Maria virou o maior entroncamento ferroviário gaúcho e, vinte anos após ter erguido a estação, já tinha quintuplicado seu número de habitantes. Em 42, João Crescêncio desembarcava ali mesmo para começar seu trabalho na parte mecânica. Seguiu estudando na área e fez carreira, conquistando promoções até 1977. “Não tinha mais cargo pra mim, então me aposentei”, brinca. Nesse meio-tempo, ainda se acostumando às cercanias da Vila Belga, lar dos trabalhadores dos trens, foi procurado por Bento do Carmo, um jornalista santa-mariense que conhecia seus feitos em Porto Alegre. Bento levou Crescêncio para jogar basquete no Atlético Esporte Clube. No futebol, o mais novo funcionário da Viação Férrea do Rio Grande do Sul deu um pouco de ironia à vida: até há pouco aspirante do Inter, vestiria uma camisa com as três cores do Grêmio.
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Em Santa Maria, João Crescêncio foi Atlântico, um time azul, negro e branco por conta do seu fundador gremista. Disputando os torneios da várzea santa-mariense, a equipe costumava fazer sua concentração para os jogos hospedada no luxuoso Hotel Hamburgo. Tamanha pompa vinha de quem sustentava o clube: uma associação entre os mantenedores da fábrica dos famosos refrigerantes CIRILA, e os proprietários de uma indústria de biscoitos e balas – o nome do time, aliás, nada tinha a ver com o oceano onde os navios mercantes brasileiros vinham sendo afundados pelos submarinos alemães, e sim com uma certa Bolacha Atlântica. Considerado o clube da elite, o Atlântico também era o quadro da juventude – motivo que fez o clube cair na preferência de Crescêncio, superando os dois times ferroviários da cidade: o profissional Riograndense e o amador Guarany.
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Logo o aparente paradoxo sumiria. Querendo se profissionalizar, mas precisando para isso de mais associados e patrimônio, os diretores do Atlântico propuseram uma fusão com o Guarany, que passava por um declínio. Ao novo clube não deram nome, apenas conjugaram os dois antigos: o Guarany/Atlântico manteria o uniforme tricolor à la Grêmio, e traria no escudo referência aos dois termos que o identificavam – o brasão sobrepunha uma flecha indígena a uma âncora de embarcação. A absurda união dos guaranis com os navegadores atlânticos surgiu sem campo, recebeu uma doação da Prefeitura em 1956, e precisou de quase um ano de trabalhos para colocar o terreno em condições de receber jogos.
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Se antes a boa situação econômica dos mandatários permitia ao Atlântico regalias incomuns para seus adversários, na nova fase o peso dos funcionários da Rede ajudou a levar o clube adiante. Os velhos sócios do Guarany, trabalhadores da ferrovia, tinham suas taxas descontadas em folha, rendendo dividendos fixos ao clube. E “a diretoria, formada por ferroviários, arrumava carros e ia lá em EREBANGO comprar madeira para fechar o campo de futebol”, rememora Crescêncio. Trazidas de trem desde o longínquo norte gaúcho, as tábuas compuseram a primeira cerca do campo do Guarany/Atlântico, que assim ganhava aura de estádio e podia ser utilizado no Campeonato Citadino e na Segundona Gaúcha de entonces. Pouco depois, a federação estadual exigiria reformas e maior solidez – tijolos, cimentos e afins.
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Conforme os anos avançavam, João Crescêncio saía dos gramados mas não perdia o convívio com os atletas. Fez um curso para se tornar massagista, à época uma função que flanava entre a alquimia dos líquidos misteriosos usados para aquecer músculos e o domínio de técnicas completamente obscuras a olhos leigos, necessárias para reabilitar partes do corpo que as pancadas inutilizavam. Ingressou na diretoria da agremiação e já ocupava cargos de bastidores na temporada em que o Guarany/Atlântico roçou os céus com a sua maior glória: quebrando uma sequência de quase trinta anos de títulos distribuídos entre o Riograndense e o Inter de Santa Maria, o clube se sagrou campeão absoluto da cidade em 1962.
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Na partida decisiva diante do Coloradinho, os tricolores aplicaram uma goleada de 5 a 1. O técnico do Inter, um capitão do Exército, injuriou-se com o resultado e abandonou o estádio enquanto a partida ainda transcorria. Para a colocação das faixas, em 3 de março do ano seguinte, o convidado da festa foi o Grêmio de Porto Alegre – um time que não recebeu alcunhas portentosas como o Inter dos anos 40, mas também marcou a história do futebol gaúcho por não se apiedar dos adversários: os capitalinos estavam precisamente na metade da sua série de doze títulos em treze anos (1956-1960 e 1962-1968). Afrouxando as coisas em campo, para não estragar a celebração dos santa-marienses, o Grêmio foi para o intervalo com vitória minguada.
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As arquibancadas lançaram interrogações provocativas ao campo: mas então era só aquilo o tão falado Grêmio? A gozação chegou ao ouvido dos visitantes e, no segundo tempo, não houve troca de passes que frutificasse pelo lado do Guarany/Atlântico. A tarde chegou ao fim com um 0 a 7 a favor dos porto-alegrenses. “Eles vieram de padrinhos, mas resolveram mexer com eles…”, comenta João Crescêncio. Seu filho Valmir complementa dizendo que, mesmo sendo colorado, aquele Grêmio foi das melhores equipes que viu num campo de futebol. Uma efetividade inolvidável.
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Poucos motivos para partidas com jeito de festa teve o clube nos anos seguintes. Cruelmente, a própria ferrovia, com seu traçado que prejudicava o acesso ao campo, ajudou a afastar os torcedores. Por fins dos anos 60 a locomotiva financeira do Guarany/Atlântico pareceu descarrilar e, logo quando João Crescêncio presidia o time, surgiu a dura encruzilhada: sobreviver como instituição sem dívidas, mas também sem equipe, ou manter o futebol profissional a um custo cujas proporções poderiam matar o clube mais tarde?
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A diretoria reuniu-se, admitiu que não poderia seguir apenas com o dinheiro dos associados, e optou pelo fechamento do departamento profissional. “Fui eu que licenciei o clube”, afirma solene o presidente daquela triste época. O Guarany/Atlântico não retornou mais. A própria Rede Ferroviária seria pouco a pouco tragada pelo ostracismo das décadas e das políticas favoráveis ao transporte rodoviário. O outro clube com passado ligado aos trens, o Riograndense, licenciou-se no fim dos anos 70, passando quase vinte anos fechado – para retornar em 1999 sem a velha ligação com os funcionários da Viação Férrea que, àquela altura, até já havia sido privatizada.
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Com aquela mesma identificação de todos os antigos empregados pela ferrovia – que fazem questão de serem chamados de ferroviários, jamais ex-ferroviários –, João Crescêncio, aos 91 anos, preserva os recuerdos de antanho. Pela casa, encontram-se antigas placas colocadas dentro dos vagões de passageiros ou nas estações. Ao pé da árvore de Natal, comboios de trens em miniatura. Ele é um dos últimos a comandar a Cooperativa dos Empregados da Viação Férrea. Organização que chegou a ser a maior do gênero na América Latina em tempos remotos, ela se desintegrou definitivamente com a privatização da Rede. Um dos seus últimos baluartes era a Casa de Saúde de Santa Maria, que ajudava a manter. Crescêncio é coordenador do conselho fiscal da Cooperativa, este símbolo de uma era encerrada.

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Apesar do lamento, o nonagenário não se deprime. Aproveita o tempo livre para viajar com a mulher, recordando o tempo em que estagiou na Argentina e no Uruguai. Com todas as experiências adquiridas em tanto tempo, ainda pode ser surpreendido. Nutrindo a paixão de sempre pelo Internacional, João Crescêncio foi informado em 2009 que talvez fosse o mais antigo ex-atleta do clube ainda vivo. Ficaram de lhe avisar antes de o ano do centenário colorado acabar, mas a confirmação não veio. Crescêncio não se importa e desconversa – acredita que há outros anteriores. Contenta-se em ver o time em jogando, brilhando os olhos com o mesmo fascínio do jovem que, setenta anos atrás, pisou no campo de treinos ao lado dos atletas do Rolo Compressor. Afinal, “toda vez que o Inter toma contato com qualquer time é um momento inesquecível”.
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Maurício Brum (a primeira parte desta reportagem está aqui)
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  1. Paul
    17/01/2010 às 23:50

    Báh. Me faltam palavras. Sensacional gurizada!

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