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Dias sem trinta segundos

Há quem viva a vida em trinta segundos. O resto dos dias é de modorra, sons desafinados e cores que não estão onde deviam. Certas pessoas dependem de um momento, ordinário, para romper a tensão superficial dessa água densa que são as intermináveis horas inativas. Abandonam as profundezas e saltam à luz. Por pouco tempo, constroem as lembranças entranhadas na caixa craniana até o próximo período iluminado. Não é uma vida feliz. É o que resta àqueles que não têm como buscar mais. Os trinta segundos da maior parte das torcidas do interior são vividos no Campeonato Gaúcho, iniciado hoje.
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Mal começa o ano, saem os carnês e a primeira rodada do Gauchão ganha data. Os ingressos são impressos, as credenciais emitidas, os torcedores se associam. O bairro veste-se com a farda do time e expande sua doutrina para os rincões isolados da cidade. Meia dúzia de automóveis vira uma caravana de torcedores. Qualquer conversa, seja sobre o terremoto no Haiti ou o novo Fiat Uno (?), acaba em discussões definitivas a respeito da tática a ser adotada. Arquibancadas se transformam no ponto de encontro da região. E times que passam o ano fechados cultuam os mesmos delírios de sempre, os mesmos delírios que nunca conseguiram concretizar.
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“Nossa campanha para sermos campeões gaúchos começa aqui”, bradavam os jogadores do Avenida dentro da sua roda, antes de estrearem no nonagésimo campeonato estadual do Rio Grande do Sul. Passos mais desencontrados seus lançavam na estratosfera pedaços do chão amolecido pela chuva. São Pedro é um apreciador do futebol interiorano e, para ajudar a criar o clima de peleia, costuma mandar temporais para duelos significativos. Às vezes exagera. Na Serra, onde Caxias e Inter-SM também abriam o certame, o aguaceiro virou AÇUDE e o jogo foi interrompido no intervalo. O segundo tempo do 0 a 0 deve ser disputado neste domingo. Em Ijuí, as precipitações não impediram que os avenidenses chegassem ao fim do seu primeiro combate no caminho rumo ao título (?).
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Pouco depois dos visitantes, o local São Luiz pisou no gramado e encontrou um estádio com meia lotação. A partida fora antecipada para sábado na intenção de fugir das estreias da Dupla Gre-Nal e atrair público. Os céus exigiram alguma compensação e decretaram que para ir ao jogo os torcedores deveriam, sim, abdicar de alguma coisa. Se não era dos confrontos de Grêmio e Inter, que fosse de alguns dos seus ATRIBUTOS HUMANOS. Pelo período em que durasse o São Luiz e Avenida, os aficionados ijuienses sentados longe da cobertura do pavilhão estariam condenados a coaxar. Sob capas, sombrinhas ou nada, aproximaram-se dos anfíbios para aguentar a cusparada das nuvens.
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As gotas desciam feito pequenas navalhas por conta dos anômalos dezessete graus que marcavam os termômetros de Ijuí nesse suposto janeiro veraniego. Os fones de ouvido acoplados aos rádios explodiam em estática a cada relâmpago que, nas alturas, bagunçava os íons (?) e a tranquilidade dos passarinhos (???). Levemente caótica a situação das testemunhas da abertura do Gauchão em Ijuí, no momento em que Leonardo Gaciba encerrou o minuto de silêncio em homenagem às vítimas caribenhas e exigiu que a disputa começasse. O Avenida lançou-se ao ataque com rapidez. Sua notória falta de preparo físico, agravada pelo campo pesado, cravaria um punhal nas costas dos seus ambiciosos planos de título.
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Em vinte minutos, o que liderava a lista de fluídos expelidos pelos jogadores visitantes era a baba das exaustas línguas de fora, não mais suor. Os avenidenses criaram o máximo que puderam até ali, em todo o jogo. Correram tudo o que podiam, também. O cansaço e a anulação de Miro Bahia somaram-se para assassinar o ataque do Avenida. Antes acossado, o São Luiz cresceu, dominou, e triunfou. A equipe de Santa Cruz do Sul não chegaria mais em vez alguma com boas condições de marcar gols – seus maiores perigos posteriores seriam em bolas paradas ou lances truncados – e, aos 34 minutos, outra deficiência trazida da pré-temporada reapareceu pelo lado alviverde: a pífia cobertura das laterais.
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Chiquinho passou para Jonathan e, da extrema direita, o lateral-ala-ponteiro converteu o lance em triangulação, cruzando à feição para o centroavante Eraldo meter de cabeça o primeiro gol de todo o campeonato. Três minutos depois do 1 a 0 são-luizense as redes se preencheram com a bola de um novo gol, anulado por impedimento. A seguir, outras chances alvirrubras. O Avenida não se encontraria mais, o segundo tempo se prometia sorridente e, mantido o ritmo e a CRIATIVIDADE, uma goleada poderia surgir. Aí o drama. Nessas coxilhas de ilusões interioranas, a torcida do São Luiz tem seus trinta segundos individuais para sonhar. Eles nascem cada vez que, num embate difícil, um árbitro sopra um apito e manda uma falta próxima à área ser cobrada. Nesses momentos, aparece a figura de Chiquinho. Que ajeita a bola, ri da barreira, olha entre os defensores e fita o globo ocular do arqueiro inimigo.
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Só depois de cumprido esse ritual, o capitão e camisa 10 do São Luiz corre para a bola. Com uma precisão encontrada em pouquíssimos nesta PROVÍNCIA, que arrebatou a própria torcida são-luizense na conquista da Segundona de 2005 e também os fãs do Inter-SM na campanha do terceiro lugar do Gauchão de 2008, Chiquinho raramente erra. Mas, aos 43 minutos da sua estreia no campeonato, o São Luiz se viu órfão de Chiquinho. Na linha de fundo, uma dividida mais dura fez estampido. O meia levou as mãos ao joelho. Os torcedores, à cabeça. Gaciba, o árbitro, usou as mãos para fazer gesto de que nada havia ocorrido e mandar a partida seguir. Ainda TRANSTORNADO por ter perdido o escudo da FIFA, o ex-melhor-juiz-do-país ignorou os gritos do capitão.

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A partida seguiu. Chiquinho deixou o campo arrastando-se. Foi tratado. Voltou mancando. Caiu novamente e, desta vez, ficou. Gaciba novamente fez que não era com ele. Somente quando o juiz encerrou o primeiro tempo a maca se viu autorizada a entrar para carregar o 10 para fora do gramado. E ao suor dos companheiros, à baba dos adversários, à chuva de São Pedro e, quiçá, a um pouco de sangue que alguém tenha derramado, juntou-se um novo líquido: as lágrimas do meia-atacante. Chiquinho sabia que não voltaria a campo. Gaciba recebia a, por enquanto, maior vaia da década soada dentro do 19 de Outubro. Sobre a mesa dos delegados da Federação, a placa de troca já estava montada: no início do segundo tempo, o quarto árbitro ergueria o “10” ao lado do “16”, anunciando a entrada de Jean Paulo.
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O substituto cumpriu bem. Manteve o confronto nas mãos dos ijuienses, que sofreram poucas ameaças para assegurar o 1 a 0. Não houve, porém, a visão do líder caído, sua articulação imprescindível – e nem a oportunidade de sonhar com uma eventual cobrança de falta sua. O segundo tempo foi vivido sem a magia dos trinta segundos em que tudo é realizável. Os torcedores saíram satisfeitos pelo resultado, temerosos pelo futuro. De muletas, na coletiva, Chiquinho buscava ser tranquilizador e falava em tentar voltar para o próximo fim de semana. Quem ouviu disse amém.
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Maurício Brum
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  1. Nenhum comentário ainda.
  1. 22/01/2010 às 05:29
  2. 31/01/2010 às 19:42

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