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Nunca jogarei no Tanque Sisley

De vez em quando, acontece. Passam a bola para mim e eu sei o que fazer com ela. De vez em quando. O Cometa Halley costuma cruzar com mais frequência pelo firmamento da Terra. Um empresário de futebol que se apoderasse dos meus direitos federativos numa dessas raras jornadas felizes teria que procurar mercados perdidos pelo mundo e desistiria em duas semanas. Ou me enviaria pro PAQUISTÃO, passagem só de ida, torcendo para que as bombas dos terroristas fizessem a parte delas.

Sou a pior coisa que fizeram ao futebol desde que as regras foram escritas na Inglaterra. Se eu jogasse na concorrida liga de Vanuatu, certamente não seria com as cores do Tafea. Não tenho galhardia ao conduzir a bola. Nem garbosidade para dominá-la. Tampouco vislumbro um lance se desenhando e dou lançamentos de metros e metros. Meu jogo é de tropeços. Meus dribles são tão raros que, quando acontecem, até os pedriscos das arquibancadas levantam e batem palmas, num alento. Para não me achar bom demais em minha ruindade (?), admito: sou capaz de chutar e passar com relativa precisão usando os dois pés.
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Isso não adianta muito, se a pelota foge antes de a chance do arremate aparecer. O arco, esse destino certeiro de quem tem pernas de mogno, me foi oferecido antes de eu completar dez anos. Um convite, quase uma imposição: ou vira goleiro, ou vai pro PINGUE-PONGUE. Minhas luvas tinham chamas desenhadas. Provocavam as dianteiras inimigas, tostando seus chutes em intermináveis defesas de alto reflexo. Meu período mais fértil nas quadras de futsal, os anos passados sob as traves. Até que um dia meu time levou 15 a 1.
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Se você nunca atuou a sério como goleiro, se não entende o que é sentir a aflição da iminência de um desvio no meio do caminho, ou o motivo de fingir dar um balão para grudar um pelotaço na cara do maldito atacante adversário, o resto do texto não lhe serve. Algo mudou no meu CARÁTER depois daqueles 15 a 1. Toda a inocência do futebol se perdeu e a mente ficou mais doentia. As partidas deixaram de ser meras coisas com duração de alguns minutos. Eram batalhas a ecoar através dos tempos, mesmo nas quadras dum obscuro subúrbio ijuiense.
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Mudei de posição e, para sobreviver fora da área, passei a jogar com raça, que é uma desculpa para fazer o que muitos CONFUNDEM com jogo feio. Correr pelas bolas dadas como perdidas, meter chutões para afastar o perigo, distribuir carrinhos sanguinários, patadas desconexas e tesouras homicidas não é prejudicar a plasticidade do esporte – desde que a rusticidade seja LEAL. Ou o futebol não é saudado por ser democrático? Queremos nosso espaço, nem que seja por COTAS. É a ideologia dos zagueiros da Segundona Gaúcha. Choro, dentes rangendo e dor.
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É isso que causamos – muitas vezes em nós mesmos. Para impedir gols e investidas, enfrentei fraturas, deslocamentos e cortes. Arrebentei alguns óculos, também, depois que a miopia se tornou inescapável. Jamais pedi uma falta, mesmo nas vezes em que fui obrigado a abandonar o terreno de jogo. Quem entra num campo ou numa quadra assina um contrato imaginário em que aceita se portar como um ÍNDIO PAMPEANO que, em campo aberto, atacava os brancos. Diante dos mangrulhos inimigos, é necessário saber se disfarçar de CAVALO. Compreender a dimensão de um carrinho recheado de garra que afasta uma bola sobre a linha, e aceitar que ele é maior do que qualquer gambeta fazível – é disso que eu falo.
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E ainda podemos fazer broma com os dotados de técnica superior e, nas tardes de maior loucura, vamos ao ataque e balançamos as redes como eles. Geralmente um gol anotado após lance confuso, com catorze rebotes, pelotaços na trave, quedas e choques na área, que no entanto tem o mesmo valor da bicicleta executada com a perfeição dos mestres – e chega a ser animicamente melhor, pois metaforiza em segundos a vitória num combate de gladiadores do Circo Máximo de Roma (?). Veja o primeiro gol de Mali contra Angola na abertura da Copa Africana deste ano. Se encontrar BELEZA ali, você sabe desse sentimento.
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Uma jornada mais iluminada, daquelas em que os passes saem direitinho e as bolas são todas dominadas, é para a antologia. O serial killer da zaga transforma-se em alvo dos defensores adversários, e se crê melhor do que realmente é. Já fiz gols driblando fileiras de marcadores e pensando que, fosse eu do outro lado, teria vergonha por não atorar a jogada a tempo. Sobram dedos nas mãos ao recontar esses lances, mas eles existiram e deixaram mais de um oponente RUBORIZADO. Quando tais ocasiões se passam, até aquele sonho antigo de todos os guris expurga a poeira que o soterra nos dias comuns e volta: “mas eu prestaria jogando bola profissionalmente”.
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Com a cabeça mais fria, o cidadão retorna a si e monta uma lista de quais campeonatos o abraçariam de verdade. Truculento e valente, com alguns momentos nos quais supera inclusive os fantasmas da cancha, mas inapto no resto das horas. Sobram poucas opções. A Segundona Gaúcha, as ligas inferiores da Irlanda e a Segunda Divisão Uruguaia. Terras, respectivamente, de Milan de Júlio de Castilhos, Limerick 37 e El Tanque Sisley, times dotados de vigorosos históricos de expulsões. Mas os montevideanos têm um pouco mais: a sigla insana, CCyDETS, a mais espalhafatosa de toda a banda oriental, que o quadro faz questão de meter no escudo.
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O Centro Cultural y Deportivo El Tanque Sisley vai realizar, durante a próxima semana, seleções de jogadores para suas equipes de base e aspirantes. Os interessados devem aparecer no Estádio Victor Della Valle, na rua Santa Mónica, e mostrar mais virilidade que técnica. É a última temporada em que os nascidos no meu ano terão chance, e não tenho como baixar a Montevidéu. Parte do meu espírito se preenche de amargor ao notar que nunca poderei fardar pelo Tanque Sisley. Aceito apadrinhamentos e doações para bancar a viagem. Só não queiram me mandar pro Paquistão quando descobrirem minhas capacidades.
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Maurício Brum (a primeira foto DEVE ter sido tirada por Gabriela Moraes; a segunda é minha)
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  1. Eduard
    18/01/2010 às 11:10

    Maurício, tu ja te lesionou?
    Eu, infelizmente, passei por isso na melhor época da minha “carreira”. É uma coisa triste, é quando tu percebe a fragilidade do corpo humano, que mesmo tu te demonstrando VIRIL nas quadras, descobre que o teu corpo é tão frágil quanto um vaso de porcelana.

    Mas, enfim, ótimo texto, como sempre

    • 18/01/2010 às 20:37

      É aquele momento em que tu chora sem saber se é por causa da dor ou pela incerteza quanto ao que aconteceu. Meu caso mais grave foi quando arrebentei o osso do pulso esquerdo (e eu sou canhoto) depois de me jogar para evitar um gol e cair mal. Não pude continuar, saí sentindo todas as dores do mundo, mas pelo menos abandonei o jogo com o placar ainda em 0 a 0. O sacrifício foi válido, hehe. É brabo, mas faz parte.

  2. 19/01/2010 às 19:17

    Cara… me vi no texto.

    Jogo de arqueiro, e sempre que vou pra linha o outro time reclama da minha vontade excessiva nos carrinhos/ chutes na canela e etc.

    Bom texto.

  3. chico
    26/01/2010 às 00:55

    Muito foda seu texto

    Saudações

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