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A foto do século

A imagem quase não precisa de legendas. Identifique a partida e o resto vem naturalmente. Uwe Seeler, um símbolo do futebol alemão, homem que passou duas décadas fiel ao seu Hamburgo de coração, e que jogou quatro Copas do Mundo – desafortunadamente, as quatro entre os títulos de 1954 e 1974 – deixa o campo arrasado enquanto uma banda marcial saúda a Rainha da Inglaterra. Uns (nosso) Seeler, como gostam de dizer os germânicos, capitaneava o time de 1966, vice mundial para os anfitriões ingleses. Apesar do Wembley lotado ao fundo, o instante captado pela lente é de um intimismo gigantesco. Como se Uwe estivesse rodeado por vácuo. O fotógrafo capaz disso só poderia ter uma história impressionante.
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Quem procura a autoria da foto se depara com dois nomes diferentes, ou ambos juntos. Sem entender que se tratam da mesma pessoa, começa a maldizer a incerteza das fontes. O responsável por eternizar a cena é Axel Springer Junior, mas também é (aliás, preferia ser) Sven Simon. Sua época de ouro foi vivida sob o pseudônimo. Axel Springer, o pai, construíra um império de comunicações na Alemanha, puxado pelo poderoso jornal Bild, atualmente o mais vendido em toda a Europa. Em 1941, teve seu primeiro filho, Axel Junior, que não daria eco às intenções paternais de que assumisse a rede nas décadas seguintes. Junior não via emoção em permanecer na amenidade do outono diário dos magnatas, e queria o cálido dos verões e o gélido dos invernos para dar um sentido à vida.
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Em 1960, encontrou uma guria, e nós sabemos como isso faz diferença. Rosemarie tinha dezesseis anos e completava o vazio dos seus dias incertos. Numas férias de verão do ano seguinte, pegavam-se discutindo o que Junior faria do seu futuro. A conclusão: para não se atrelar ao nome da família e ser julgado por si só, deveria adotar um nome falso. Sven Simon nasceu como uma broma, mas se apoderou da identidade de Axel no momento em que Rosemarie atingiu a maioridade e os dois resolveram casar: Springer pai, três casamentos nas costas e a ponto de embarcar em mais um, se opôs – era tudo apressado demais, que o filho esperasse e refletisse bem. Algumas horas, xingamentos e louças quebradas depois, Axel Junior saiu de casa disposto a não voltar.
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Com Rosemarie eleita nas preferências e a possibilidade de assumir o controle das empresas do pai mandada às favas, o hobby de fotografar tornou-se profissão. Sven Simon começava sua carreira. Ainda que os veículos de Springer tenham a princípio renegado as imagens do filho desertor, o tempero que ele conseguia dar às cenas cativou editores e ganhou páginas de outras publicações. No tempo em que era Axel Junior, porém, ele seguira os fotógrafos do pai até Roma, nas Olimpíadas de 1960, e aprendeu que o esporte tinha essa mescla de sentimento e loucura tão necessários à formulação do épico numa simples clicada.
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Assim Sven Simon foi às Copas do Mundo. Em 1966, fundou a Agência de Fotografias Sven Simon, e foi favorecido pelos acontecimentos polêmicos da final daquele ano. Sua sequência de registros únicos incluía o de Uwe Seeler. Em 1970, teve seu ano tido como mais espetacular, com imagens clássicas e inigualáveis. Muitas delas são até hoje reproduzidas sem que o grande público saiba da autoria. É de Sven Simon a famosa fotografia de Jairzinho erguendo um Pelé que socava o ar, provavelmente a mais significativa de todo o Mundial do México. No meio do caminho, ele se reconciliou com o pai, assinou um documento em que aceitava uma indenização em troca de não pedir nada relativo ao império da família na Justiça, e em 1971 voltou a trabalhar nas empresas de Springer. Axel Junior, como voltou a ser chamado, ou Sven Simon, como preferia, chegou a editar o semanário dominical Welt am Sonntag.
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O mesmo ímpeto jornalístico impulsionado pela paixão com Rosemarie levaria os dois ao divórcio no início da década de 70. As viagens e o tempo escasso sepultaram o que se construíra. A célebre declaração de Simon, à época, resumia os acontecimentos: “o futebol destruiu nossa família”. Sven mergulhou numa depressão. E uma coincidência marcaria para sempre o fim da sua vida: na véspera de Natal de 1979, o antigo líder do movimento estudantil alemão Rudi Dutschke morria, vítima de danos cerebrais causados por um atentado onze anos antes. A culpa do assassinato frustrado fora atribuída às campanhas contra os estudantes promovidas pelo Bild de Springer pai.
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O enterro de Dutschke foi marcado para o dia 3 de janeiro de 1980. Às duas da madrugada daquele dia, Axel Springer Junior saiu para caminhar com seu cachorro às margens do Rio Alster, em Hamburgo. Sentou-se num banco coberto pela neve, puxou a pistola que carregava para se defender e, aos 38 anos, arrebentou seu coração com chumbo, num tiro inaudível. Simon não deixou uma carta de suicida, apenas dúvidas. Mesmo que ele já gozasse novamente do afeto do pai, a data do seu desfecho dramático ter sido a mesma do enterro de Dutschke foi considerada premeditada por muitos. Uma espécie de justiça poética.
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Sem confirmação dos seus motivos, restaram as fotos. Em 1967, Sven Simon lançara uma coletânea dos instantes captados no Mundial do ano anterior, com a clara intenção de provar o assalto arbitral a favor dos ingleses. Na capa do livro, a foto do momento em que a bola do terceiro tento britânico quica no solo – sem cruzar a linha fatal. A prova definitiva de que o gol nunca fora. Sarcástico, Simon deu àquele gol o mesmo nome da sua obra: Das Tor des Jahrhunderts, ou O Gol do Século. No fim do centênio, não seria aquele flagrante da pelota fora da meta, mas o da tristeza de Uwe Seeler que consagraria Sven Simon como o maior entre 1901 e 2000: jornalistas de todo o país votariam na cena como a melhor foto esportiva da Alemanha no século XX.
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Maurício Brum
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