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Nascido dos detritos

“Eu deixei me fazerem uma injeção para que eu só acorde daqui a duas horas”, brinca Louis Nicollin, o presidente do clube. Nicollin quer adormecer para passar das ilusões à realização sem a etapa intermediária do sofrimento. O relógio marca vinte horas da noite de 19 de março de 1991. Daqui a alguns minutos, o Stade de la Mosson vai ouvir o primeiro apito arbitral da jornada. Será a inauguração do que pode se acabar como a maior façanha do Montpellier local. Iluminado pelas estrelas da quase iniciada primavera francesa, o modesto time da casa só precisa manter o 0 a 0 do início da partida para eliminar o lendário Manchester United.
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O encontro valia pelas quartas-de-final da Recopa Europeia de 1990/91, o extinto torneio que um dia foi o segundo em importância do Velho Continente, por reunir os campeões das taças eliminatórias nacionais. O Montpellier chegara até ali por vencer a Copa da França em 1990. E vencera a Copa da França porque tinha o fanático e falastrão Louis Nicollin, desgraçadamente apodado LOULOU. Fundada no ano de 985, a cidade de Montpellier era mundialmente conhecida como sede de uma das universidades mais antigas da Europa, como local de estudos de Nostradamus e como terra de nascimento do positivista Auguste Comte. Seu futebol, ao contrário da ZONA, não tinha grande relevância nem dentro da França.
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A cidade patinava dentro dos gramados. O Stade Olympique Montpelliérain, clube fundado em 1919, havia ganho a Copa nacional em 1929 e nada mais. Atravessou decênios de mendicância, fechou e ressurgiu como Montpellier Littoral Sport Club, disputando ligas amadoras francesas. Em 1974, o Littoral foi rebaixado e se fundiu com outro time da cidade, o Paillade. O novo Montpellier Paillade não teve melhor sorte, e em fins daquele ano aparecia em último lugar na sua divisão regional. Aí entrou Louis Nicollin. Poderoso dono do Groupe Nicollin, empresa responsável pelo recolhimento do LIXO e dos DETRITOS INDUSTRIAIS da cidade, Loulou era ainda presidente de um clube de futebol corporativo.

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Sua Formação Esportiva de Limpeza – esse era MESMO o nome dela – parece ter cumprido bem o papel de limpar os adversários do caminho. Os dirigentes do Paillade foram de joelhos até o escritório de Nicollin pedir seus jogadores para evitar um novo descenso. Em troca de uma co-presidência no Montpellier, Loulou aceitou dissolver sua equipe e transferir os jogadores para lá. Em 5 de novembro de 1974, disposto a ter poderes plenos sobre a agremiação, pagou 400 mil francos da época aos velhos diretores e criou o “seu” clube. Nicollin era, a partir dali, dono e mandatário perpétuo da principal equipe de futebol da cidade.
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Em 1978 introduziu o estatuto profissional no clube, e desde então foi montando equipes cada vez mais fortes para aparecer nas ligas principais. O comediante Rémi Gaillard, que nasceu em Montpellier no ano de 1975, deve ter tomado gosto pelos atos insanos ao crescer dentro de um La Mosson em que todas as loucuras futebolísticas começaram a parecer realizáveis. O renovado time citadino apareceu na elite da França pela primeira vez na temporada 1981/82. Zanzaria pelas duas divisões principais até afirmar sua força no fim da década. Em 1988, o Montpellier acabou em 3º lugar no Campeonato Francês.
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Nas suas formações, nomes como o camaronês Roger Milla e o lateral brasileiro Júlio César – que no Brasil ficou marcado por ter perdido pênalti contra a França na Copa do Mundo de 1986, mas em Montpellier era mais conhecido pela advertência que recebeu por conta do péssimo hábito de desperdiçar água, esvaziando e enchendo sua piscina SEMANALMENTE. Ao elenco montpellierense (?), logo se somariam o craque francês Eric Cantona, o selecionável polonês Jacek Ziober, o húngaro de beijo fatal (?) Laszlo Kiss, e o homem que mais despejou dinheiro nos bolsos dos cabeleireiros locais: o colombiano Carlos Valderrama. Das categorias de base do clube, saía ainda naquela época Laurent Blanc, futuramente campeão do mundo pela França.

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Nem todos atuaram juntos, mas entre o fim dos anos 80 e o início dos 90, o pequeno e ousado Montpellier fez barulho ao lado de Marselha. Menos de 150 quilômetros ao leste, o Olympique de Marseille (OM) montara um dos melhores esquadrões da história do país, enfileirando títulos nacionais e finais europeias. Em 1990, o OM foi bicampeão francês; o Paillade, já renomeado para Montpellier Hérault Sports Club, ganhou a Copa da França, seu maior título até então. Os marselheses pegaram a única vaga francesa na Copa dos Campeões da Europa, e em 1991 sairiam vice-campeões para o Estrela Vermelha de Belgrado. Aos montpellierenses coube a solitária representação gaulesa na Recopa.
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Louis Nicollin empapava seus ternos de suor e enchia os olhos de lágrimas a cada partida do time nos palcos continentais. Em campo, o Montpellier dedicou-se a caçar os elefantes que surgiam pelo seu caminho. Van Breukelen, Popescu, Koeman e Romário eram as quatro patas fortes do paquiderme chamado PSV, que apareceu querendo esmagar os franceses e se assustou diante dos ratinhos sustentados pelo lixo de Montpellier. Coroado campeão europeu pouco antes, em 1988, o clube de Eindhoven levou 1 a 0 na França e empatou por 0 a 0 em casa. Nas oitavas-de-final, o romeno Steaua Bucareste, iluminado pelo título da Copa dos Campeões em 1986 e pelo vice na mesma competição em 1989, teve seus fragmentos lançados na estratosfera após cair com um agregado de 8 a 0. Cinco na França, três na Romênia.
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A Europa começava a discorrer sobre aquele time que vestia uma singular combinação de azul, branco e laranja. Alguns cronistas compararam o estilo daquele time ao do Saint-Étienne da “grande époque”, que ganhara sete campeonatos franceses em dez anos, entre 1967 e 1976. O Montpellier estava nas quartas-de-final e se oporia ao tradicional Manchester United, já treinado por um Alex Ferguson que apenas começava a aprontar. Os da Paillade seriam o primeiro quadro da França a pisar na Inglaterra por um jogo oficial em mais de cinco anos – a temporada 1990/91 marcou o fim do banimento do futebol inglês em competições europeias, iniciado quando os hooligans do Liverpool provocaram 39 mortes na final da Copa dos Campeões de 1985, em Bruxelas.
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Com um minuto de partida em solo britânico, caiu a invencibilidade do goleiro Claude Barrabé, num gol de Brian McClair. Já havia quem maldissesse os resquícios da fuligem vinda do passado industrial de Manchester, obviamente prejudicial ao Montpellier e seu costume com o ar do Mediterrâneo, quando somente cinco minutos mais tarde veio a igualdade: um gol contra pôs o 1 a 1 nos placares de Old Trafford. Apesar de se ver inferiorizado numericamente, o time do sul da França permaneceu atacando. No último minuto de partida, a vitória montpellierense esteve nos pés de Daniel Xuereb, que perdeu uma chance imperdível em cruzamento de Ziober. Ainda assim, estava feita a surpresa – l’exploit, como dizem os descendentes de Vercingetorix.
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Duas semanas mais tarde, lá estava Nicollin, chorando e suando, o Stade de la Mosson cheio até o seu degrau mais alto, e o Montpellier precisando de um placar nulo para avançar às semifinais. Loulou disse ter pedido para ser sedado e só recobrar a consciência no fim da partida. Mesmo sem injeção, vivia um sonho. Uma década e meia antes, o time era amador, reforçado por meia dúzia de lixeiros para evitar ser rebaixado numa das mais baixas divisões regionais francesas. Agora estava a ponto de eliminar um dos clubes mais místicos da Europa – e o terceiro ex-campeão continental que enfrentava. Nas hipotéticas semifinais, o adversário seria provavelmente o polonês Legia Varsóvia (o que se confirmou), que não era nenhuma potência. Vencer o United poderia encaminhar uma passagem para Roterdã, onde se disputaria a finalíssima.
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Mas os heróis de Montpellier erraram duas vezes: um frango de Barrabé no último lance do primeiro tempo e um pênalti infantil de Patrick Colleter num dos movimentos inaugurais da etapa final destruíram as ilusões da torcida num espaço de tempo curtíssimo. O sonho de Nicollin virou pesadelo – “nós estamos nos derrotando sozinhos”, declarou ele no intervalo. O gol sofrido por Barrabé, o que dizimou os ânimos da equipe, veio de uma cobrança de falta de Clayton Blackmore, daquelas fáceis, sem curva ou desvio, que chegam para um encaixe simples. Mas o arqueiro do Montpellier soltou a pelota para além da sua linha fatal, frente a um estupor generalizado. A coisa foi tão terrível que Leslie Seasley, goleiro do Manchester, atravessaria o campo para consolar Barrabé.
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O Montpellier caiu por 0 a 2 em casa e o Manchester avançou para conquistar a Recopa. Nos anos seguintes Alex Ferguson transformaria seu time na maior potência inglesa. Nicollin não conseguiria ver seu clube repetir as façanhas do início da década de 90. O MHSC, sigla pela qual se fez conhecer, até ganhou uma Copa da Liga e uma Copa Intertoto depois, mas internacionalmente não logrou mais tanto destaque. Ficou oscilando entre as divisões da França e entrou nos anos 2000 em crise. Loulou Nicollin segue na presidência. Em 2008, quando estive lá, o Montpellier jogava a segunda divisão, e ele avisava que estava montando time para ter resultados apenas no ano seguinte.
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Acertou. Em 2009, o Montpellier subiu. Hoje faz a mais inesperada campanha da temporada francesa. Depois de 21 rodadas, ocupa a segunda posição na tabela da elite, e só é superado pelo atual campeão Bordeaux. Estaria se classificando diretamente para a fase de grupos da Liga dos Campeões da Europa. Os torcedores têm entrado em La Mosson com um sorriso estranho, de quem espera reviver coisas antigas que pareciam perdidas para sempre. Os mais otimistas torcem para que a tabela permita uma vingança contra o Manchester United.
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Maurício Brum, natural de Montpellier (fotos tiradas do livro Football 1991, da TF1)
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