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Constatações sobre o vazio

Contarei para os meus netos. Eu vivi para ver o Internacional de Porto Alegre atrair tanto público quanto o São Luiz de Ijuí num jogo fora de casa no interior do Rio Grande do Sul. Relatarei uma Baixada Melancólica com pouco mais de 1,6 mil pessoas para ver ambos os times contra o Inter-SM e, para preservar o mito, esconderei os motivos dessa igualdade. Meus netos acharão que o São Luiz era mesmo muito bom.
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O Internacional de Santa Maria de 2010, ainda que inconscientemente, lembra muito o Grêmio de Flávio Obino. Os tricolores tinham um ônibus exaltado pelo presidente nas entrevistas e um site dito o melhor do Brasil, mas lhes faltava futebol. O Interzinho tem catracas de primeiro mundo e um placar eletrônico inaugurado domingo, mas também desconhece o fino do esporte bretão. O Grêmio subia a serra antes das partidas decisivas. O Inter-SM escalou o monte e foi a ITAARA na véspera da partida contra o homônimo metropolitano.

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O Grêmio de Obino caiu. O Inter-SM de 2010 ainda está fora da zona de rebaixamento. Mas, em três rodadas, atuando em casa em duas delas, não venceu um jogo. Como no ano passado, quando brigou para não cair, o time não apresentou diferenciais nem motivos para sonhar. É uma equipe de parca imaginação e, mesmo tendo alterado radicalmente seu esquema do jogo do São Luiz para o de ontem, continuou na modorra.
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Para piorar, um dos mais empenhados na construção do time, o gerente de futebol Tiago Nunes, anunciou sua saída antes do jogo. Vai para o ACRE, não num exílio, mas dando um novo passo à carreira que tem tido mudanças meteóricas nos últimos meses: ele chegou a Santa Maria como preparador físico, foi promovido a gerente e, no Norte do país, fará a primeira tentativa como treinador. Comandará o Rio Branco, que nos últimos anos tem pleiteado vaga na Série B do Brasil.

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Essas eram as circunstâncias. Atrativo para o torcedor do Inter-SM não havia. Até a chance de fazer daqueles resultados históricos contra um grande adversário estaria desvalorizada. O tal jogo de atrair público de toda a região, de aficionados correndo ao estádio pela oportunidade de ver ídolos de perto, esse jogo ficará para o ano que vem. A verdade é que nem mesmo para os fãs do outro Inter existiam grandes motivos de fazer uma viagem para assistir ao encontro. Os de Porto Alegre trouxeram um time B a Santa Maria. E os ingressos, vendidos a um custo fora da realidade, provocaram risos incontidos.
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Numa tática desesperada, a direção do Inter-SM ignorou o que havia anunciado anteriormente e não aumentou o valor dos bilhetes no dia do jogo. Precisava vender, vender, vender. Quem fosse à cancha no domingo pagaria o mesmo preço daqueles que compraram entradas antecipadas. Mas, uma hora antes da partida, quando jogos da Dupla no interior costumam já ter enchido todos os degraus, a Baixada permanecia esvaziada e seus arredores tinham pouco movimento.
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Mil seiscentos e poucos torcedores para ver o São Luiz quarta-feira. Mil seiscentos e poucas almas acompanhando o Inter domingo – quase nada, em se tratando de camisas da capital sobre o verde. Ao menos o resultado do Inter-SM foi melhor no fim de semana. Do 0 a 3 sofrido diante dos ijuienses para o 1 a 1 contra os porto-alegrenses, um avanço que não se refletiu na técnica. Era necessário vencer, e o Inter-SM criou pouco. Saiu na frente mas cedeu o empate logo que os reservas da capital decidiram pressionar.
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“Foi um resultado péssimo”, afirmou o atacante Vitor Hugo ao fim da partida, numa frase que em outros tempos soaria como prepotência interiorana. Dois pontos tem o Inter-SM. Pelos indícios até agora, deve lutar para não cair. Por enquanto, as lanternas das chaves estão ocupadas por Universidade e Porto Alegre. Eles não podem sair dali pelos santa-marienses ou por qualquer outro time do certame. Há que se rebaixar os sem torcida, e ninguém tem menos apoio e tradição que aqueles dois. O vazio da Baixada Melancólica ainda é um vazio de mais de mil torcedores. O vazio de Canoas, onde têm jogado os dois últimos colocados, só se compara ao nada do instante anterior ao Big Bang.
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Maurício Brum (todas as fotos são minhas, com exceção da terceira, que é de Iuri Müller)
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