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O imponderável contra ele mesmo

Higuita abandonou o futebol. O Internacional foi recebido por uma cancha vazia no interior. Cabañas levou um balaço na cabeça. Fatos desencontrados. Fatos com essência parecida. Estamos perdendo todas as ilusões futebolísticas em 2010 e janeiro nem terminou.
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Foi domingo, em Medellín. Atanasio Girardot. O estádio das maiores glórias. Da camisa verde do Atlético Nacional. Do título da Libertadores de 1989. Do gol de falta contra o River Plate nas semifinais da Libertadores de 1995.
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Foi domingo, em Santa Maria. Baixada Melancólica. O jogo para pagar o ano inteiro. Da atração de aficionados das cidades vizinhas. Da convergência de vermelhos e brancos que, se não torcem pelo alvirrubro local, ao menos dão dinheiro.
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Foi na madrugada de segunda-feira, na Cidade do México. Bar Bar. O boteco com o pior nome do mundo. Da cerveja cálida. Das cabeças quentes. Da escuridão quase total, tanto para as câmeras de segurança quanto para a veracidade das versões.
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Em Medellín, Higuita queria os grandes nomes da atualidade, aglutiná-los aos velhos ídolos e fazer um jogo estelar. O calendário impediu. Jogaram os antigos. Desapareceram os contemporâneos. Mas quem precisa dos novos?
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Em Santa Maria, o Inter-SM queria morder os bolsos dos seus torcedores. As circunstâncias impediram. O Inter da capital veio com time B. O Inter local perdera de 0 a 3 na primeira partida em casa. E os preços soaram piadas de mau gosto.
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Na Cidade do México, Cabañas queria, sabe-se lá, desanuviar a mente. O que o impediu? Umas frases soltas, uma tentativa de assalto, um flamenguista ressentido, uma briga por motivos fúteis? O álcool puro descendo nas veias como banhistas em tobogãs?
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Higuita teve à sua frente, quando jogou no gol, e ao seu lado, quando foi para a linha – e ele foi –, companheiros de antanho como Asprilla, Valderrama e o peruano César Cueto, el Poeta de la Zurda. Até o equatoriano Aguinaga apareceu.
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O Inter de Porto Alegre entrou em campo e avistou arquibancadas meio vazias. O público foi quase idêntico ao do jogo do Inter-SM contra o São Luiz: 1.636 pessoas foram ver os ijuienses; 1.630 estiveram para assistir aos porto-alegrenses. O espírito de outros anos, o estádio assustadoramente colmado e os gritos de todos os lados, coisas tão comuns contra capitalinos, não foram experiências deste confronto.

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Cabañas teve diante dos olhos, ou não, uma arma de fogo. O matador encontrou um assassino. O escavador de buracos nas defesas teve o crânio perfurado. Um projétil meteu-se entre as ideias límpidas que os artilheiros costumam ter.

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No Atanasio Girardot, uma defesa escorpião, um gol de falta e outro como atacante deram a celebração digna para o adeus de Higuita. Seu envolvimento com cartéis, suas entregadas nas saídas da área, todas as falhas redimidas.
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Na Baixada, uma partida sem graça, sem cânticos, merecedora dos espaços em branco nos degraus. O Inter B não quis mais que o empate. E o Inter-SM não pôde mais que isso.
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No Bar Bar, gritos e correria. Um agressor desconhecido perdido na multidão. Fotos sacadas mais à queima-roupa que o tiro. O goleador ensanguentado, caído num chão sujo de bolicho, a imagem que rodou o mundo e talvez ganhe mais destaque que seus gols na memória coletiva futura.
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René Higuita, 43 anos, havia abandonado antes. No ostracismo. Folclórico e inaugurador de uma era de arqueiros loucos, viu em si mesmo a necessidade de algo maior. Voltou. Agora acenou outra vez o adeus, mas para os verdes e brancos de Medellín, o povo do qual se fez rei.
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O Internacional de Porto Alegre, 100 anos, costumava ser o sonho dos guris. O causador de partidas mágicas para se lembrarem pela eternidade. Com reservas, era menos que o São Luiz. O Inter-SM empatou por 1 a 1 com eles. E não viu glória alguma nisso.
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Salvador Cabañas, míseros 29 anos, deixou de ser um guarani como outros quando se especializou em aniquilar times brasileiros. Criou uma versão de Maracanazo, tirou Flamengo e Santos de uma Libertadores e derrotou a Seleção do Brasil. Era esperança paraguaia para a Copa do Mundo. E levou um tiro. Pelos deuses, um tiro!
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Higuita não tem um único seguidor à altura para sequenciar seus delírios.
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O Inter percebeu que a camisa já interessa pouco para atrair público no interior.
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Cabañas passou por cirurgia de cinco horas e segue com a bala incrustada nos pensamentos.
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Em menos de vinte e quatro horas, fomos atingidos pelos carrinhos de três desilusões, cada um com seu nível de dureza.
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Eu sou um sonhador. Quero acreditar que surgirá um novo goleiro capaz de fracassar e triunfar em doses quase iguais e mesmo assim continuar com devaneios apesar das críticas, por ter colhões de fazer sua própria história.
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Quero acreditar que as direções interioranas serão mais sensatas na cobrança de ingressos, e que os torcedores de longe da capital voltarão aos estádios encarar a Dupla Gre-Nal não pelos jogadores que trazem, mas pela grandeza de superar maiores instituições do Estado – com qualquer time –, ainda que por um momento.
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E quero acreditar que Cabañas sairá dessa. E que, daqui a meio ano, contra a lógica, a sensatez médica e a razão, estará na Copa. Fazendo gol. Transformando-se em lenda. O homem ferido de morte que subiu ao cimo do mundo em seis meses. Porque sonhar pelo futebol é algo que nem os dias mais terríveis têm o direito de impedir. Bem sabem os botafoguenses.
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Maurício Brum (fotos: Arte do ABC Digital; Iuri Müller; AP)
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