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Os gaúchos gostamos de complicar

Odeio a fórmula do Gauchão. Não somos muito SIMPLISTAS ao criar regulamentos para nossos campeonatos estaduais e, para comprovar, estão aí o enjoativo torneio de 1994 com seus pontos corridos de 44 (!!!) rodadas, e o absurdo de 2004, com a possibilidade de um time enfrentar a si mesmo na final. Mas esse atual sistema adaptado dos cariocas consegue superar tudo.
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A feiúra da coisa já era bem perceptível em fins de 2008, quando a primeira tabela foi parida. Para nomear os pseudotítulos de cada turno, a exemplo dos fluminenses com sua Taça Guanabara e sua Taça Rio, não escolheram algo do glorioso passado gaúcho. Poderíamos ter uma Taça Farrapos, Bento Gonçalves, Província de São Pedro, Sepé Tiaraju ou mais uma infinidade de elementos incorporados ao folclore local. Preferiram homenagear os cartolas mais vencedores da Dupla Gre-Nal, e portanto do Estado.
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Grande coisa. Levar um time de Porto Alegre ao título da Libertadores pode não ser fácil, mas certamente é empreitada menos HOSTIL que assumir o São Luiz de Ijuí com dois milhões de reais de dívida, reduzi-la a 25% disso em poucos anos e, ao mesmo tempo, conseguir formar equipes cada vez mais competitivas – como tem feito a atual direção do clube noroestino. Fernando Carvalho e Fábio Koff mereciam todas as homenagens possíveis, mas não nos nomes de um torneio que eles próprios DESPREZARAM tantas vezes. Seria mais honroso chamar os turnos de COPA BADICO e COPA SOTILLI.
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A Federação Gaúcha pensou diferente. E, com ganas de garantir ao menos um Gre-Nal no certame que organiza, também pensou que um regulamento como o do Rio de Janeiro prestaria para essas bandas. Mas os cariocas têm quatro clubes grandes em condições de disputar o título. O Rio Grande do Sul – a verdade dói para os interioranos –, apenas dois. Esse sistema de dois turnos, com 16 clubes no total, dos quais OITO passam de fase em cada metade do campeonato (o que dá chance de TODO MUNDO jogar ao menos um mata-mata), favorece a Dupla mais do que o normal. E premia a mediocridade interiorana.
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A glória de passar de fase some quase que totalmente. E nesse primeiro turno, que é a Taça Fernando Carvalho, torna-se ainda mais grave: os times jogam contra os representantes da outra chave, de modo que não ganham nem perdem pontos diante dos seus verdadeiros concorrentes por uma vaga nos mata-matas. Equipes que não têm demonstrado nenhum resquício de POTÊNCIA podem ficar a centímetros de chegar nas fases eliminatórias. E que ninguém se iluda: passar de fase para jogar as quartas-de-final fora de casa e ser desclassificado não coroa um trabalho nem faz o torcedor interiorano se orgulhar.
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Os aficionados do Inter-SM podem dar uma aula sobre isso. No ano passado, o Colorado santa-mariense passou boa parte do campeonato brigando para não cair e, no segundo turno, avançou de fase deixando o COURO na cerca farpada da eliminação. Saiu da disputa na partida seguinte, e o que ficou de 2009 foi a luta contra o rebaixamento. A temporada corrente vem colocando o quadro da Baixada Melancólica novamente numa posição contraditória: em quatro rodadas, o Interzito marcou dois gols e não venceu; tem dois pontos, é o primeiro time fora da zona de descenso à Segundona, mas… pode ser candidato a vaga na etapa vindoura do estadual já no PRÓXIMO entrevero.
F*
Tal cenário se deve ao inominável desequilíbrio vigente entre os dois grupos. Enquanto a Chave 1 é o reino da fraqueza e do mau futebol onde têm se salvado apenas os ARQUIDUQUES (?) de Novo Hamburgo – o Grêmio, postulante ao TRONO, tem sido mero bobo da corte, apesar das vitórias –, a Chave 2 é uma corte de bons monarcas. Inter, São Luiz e São José de Porto Alegre fazem um TRIUNVIRATO de líderes, e quem vem atrás não se distancia tanto em qualidade – Veranópolis e Caxias estão a um jogo de alcançá-los.
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No confronto direto, goleada: jogando contra as formações do outro octogonal, os times da Chave 2 somaram exatamente o dobro de pontos após quatro rodadas – juntos, têm 60 unidades; os clubes da Chave 1 contam 30. Os quatro times que passariam de fase no grupo 2 estão invictos. Líder da Chave 1, o Grêmio estaria, pelo saldo de gols, com um mísero quarto lugar no outro grupo. Venceu, mas venceu mal os seus jogos, sempre saindo perdendo contra os representantes da chave forte. São do grupo 1 os quatro piores times da classificação geral do campeonato: Esportivo, Inter-SM, Avenida e Porto Alegre (os dois últimos com quatro derrotas em quatro jogos).
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Voltemos ao caso do Inter-SM. Quarta-feira à noite os comandados do técnico Bebeto Rosa foram a Canoas enfrentar a Universidade (ex-Ulbra), que vinha de três derrotas em três jogos. Os santa-marienses estavam sem triunfos no campeonato, porém com dois empates. Saíram de campo com um 3 a 0. Contra. Até estiveram melhores na partida: depois de levar o primeiro gol com TRÊS MINUTOS de combate, o Inter mandou no jogo. Perdeu chances inacreditáveis, mostrando mais uma vez a ineficiência da sua linha de frente, e arrefeceu após levar o segundo num pênalti. Apesar de ter as opções de Vitor Hugo (matador no Veranópolis), Mano Garcia (deus em Rio Grande) e Gauchinho (artilheiro de uma Libertadores de antanho), o ataque do Coloradinho simplesmente não funciona. O time marcou meio tento por rodada – e os dois que fez foram de um zagueiro. Do MESMO zagueiro: Juliano.

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Após a partida de anteontem, o vice-presidente de futebol do clube Paulo Brandt dissertava sobre a divisão das pessoas do mundo e dos jogadores de futebol. Elas são vermelhas e amarelas, dizia ele. As vermelhas têm sangue nas veias. As amarelas, apenas temor e fraquejo. E o Inter-SM estaria cheio de amarelos. Com o resultado, o treinador Bebeto Rosa pôs o cargo à disposição. Saídas de atletas foram dadas como certas, todas as folgas do elenco canceladas e a promessa era de uma rotina de treinos feroz até o duelo do próximo domingo. Hay crisis, falta apoio da torcida, e o próprio atraso na montagem do elenco (o Inter-SM foi dos últimos participantes do Gauchão a fechar seu grupo) agora cobra seu preço. E um time desses pode entrar na zona de classificação daqui a três dias.
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É o problema da fórmula. Como seus companheiros de grupo são ruins demais para pontuar, basta que o Inter-SM tenha um LAMPEJO – a essas alturas já quase um milagre, mas milagres ocorrem – e vença o Santa Cruz fora de casa: o time chegaria a cinco pontos. Essa meia dezena de unidades não o colocaria acima da penúltima colocação na Chave 2, mas no grupo 1 pode fazê-lo encerrar a jornada em TERCEIRO (!) lugar. Há algo de injustiça nesse formulismo. Provavelmente a tendência seguirá até o fim da Taça Fábio Koff. Os mesmos times que agora passarem de fase poderão ser os que acabarão brigando para não cair depois – Avenida e Porto Alegre, afinal, podem não ser tão piores que seus companheiros de octogonal, e começar a se salvar em cima deles.
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Enquanto isso, as equipes da Chave 2 acumularão vitórias para, talvez, caírem na mesma vala comum que as nulidades que estão enfrentando no primeiro turno. Hoje, passaria o Juventude com 4 pontos (4º da 1), mas não o rival Caxias, que tem 7 (5º da 2). Absurdo. Em dias normais, sigo a FILOSOFIA de que (quase) tudo isso é certo, que fórmulas intrincadas são para testar os verdadeiramente fortes e a justiça está em superar o que apareça pela frente, desde árbitros ladrões até parágrafos únicos mal escritos nos regulamentos. Mas não sou um ideólogo radical. Minhas DOUTRINAS vão por terra quando entra o coração no meio. E o MIOCÁRDIO se desespera quando o São Luiz faz uma campanha dessas – vice-líder da chave 2, invicto e com a melhor defesa do Rio Grande – e segue correndo riscos de ser eliminado por conta de um formato que o faz ganhar sem roubar pontos dos inimigos.

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Não passamos da primeira fase de um Gauchão desde 1999. A Federação Gaúcha que se prepare para os molotovs dos ijuienses caso a fórmula termine nos matando.
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– Classificação geral do Gauchão 2010 depois das quatro rodadas iniciais (em azul os times da Chave 1, do Grêmio; em vermelho, os da Chave 2, do Inter; em negrito, as equipes que estariam nos mata-matas se a primeira fase acabasse agora; em itálico, os rebaixados do momento):
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1º Internacional – 10 pontos (3 vitórias, saldo 8)
2º São Luiz – 10 pontos (3 vitórias, saldo 5)
3º São José – 10 pontos (3 vitórias, saldo 4)
4º Grêmio – 10 pontos (3 vitórias, saldo 3)
5º Veranópolis – 8 pontos
6º Caxias – 7 pontos (2 vitórias, saldo 1, 9 gols feitos)
7º Novo Hamburgo – 7 pontos (2 vitórias, saldo 1, 6 gols feitos)
8º Pelotas – 6 pontos (2 vitórias, saldo 3)
9º Santa Cruz – 6 pontos (2 vitórias, saldo 0)
10º Ypiranga – 4 pontos (1 vitória, saldo -3)
11º Juventude – 4 pontos (1 vitória, saldo -6)
12º Universidade – 3 pontos (1 vitória, saldo 0)
13º Esportivo – 3 pontos (1 vitória, saldo -3)
14º Internacional-SM – 2 pontos
15º Avenida – 0 ponto (saldo -5)
16º Porto Alegre – 0 ponto (saldo -7)
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Maurício Brum, com ímpetos terroristas
(a quarta foto é de Iuri Müller; as demais, minhas)
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  1. Guto
    29/01/2010 às 09:14

    Graaaaaaande Neco! ahaha

  1. 31/01/2010 às 19:42

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