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Welcome to Erechim

“É daquelas coisas que tu faz e já sabe que a vida vai mudar radicalmente no minuto seguinte”. Como se precisasse de um psicólogo e não pudesse pagar por um, ela senta ao lado de alguém no ônibus e se lança num destrinchar das minúcias da sua existência. Desvela os mínimos detalhes, expõe à luz os cancros que afligem a alma. Ela embarcou em Selbach, num ponto em que ele estava suficientemente entediado da viagem para se divertir atiçando a fogueira das inquietudes dela.
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Nunca estivera em Selbach, ele. Achava o nome divertido. Mas também o achava de Erebango e Ernestina, de modo que não havia sentido algum nesse pensamento. Agora julga conhecer o suficiente da cidade para concluir que em Selbach são todos loucos e frustrados. Ele é um generalizador. E ela dramatiza demais. É uma azarada, diz. Suas noites são passadas em claro, o dinheiro nunca basta, o trabalho é tenebroso e a faculdade particular foi trancada tantas vezes que já nem sabe em que turma está.
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Ainda há a família. Uma mãe desinteressada por tudo, que se contenta com um trabalho medíocre quando poderia buscar especializações. Divorciada de um pai que não dá apoio algum e se opõe aos estudos da filha. Ele começava a duvidar que fosse tão grave assim. Se fosse, ela tinha uma força descomunal. Ou transtornos psicóticos do mesmo nível. Ela permanecia impassível, contando. Na verdade, por vezes esboçava um sorriso que não parecia irônico. No mais, em meio ao caos, aos problemas financeiros, à dor e às dificuldades, afirmava estar indo para Passo Fundo fazer festa no fim de semana. Havia algo de errado.
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Mas ele estava cansado demais para notar. Estava há quase cinco horas naquele ônibus. Sentia os braços amolecerem e o suor grudar no corpo como se estivesse ali há dias. Era um Helios. Os ônibus da Helios, se fossem um time de futebol, estariam para as rutas como o Avenida está para o Gauchão 2010. Como o Periquito de Santa Cruz faz jogos grandes, a viação aquela também detém linhas frequentadas; mas o que um tem de várzea futebolística o outro tem de estrutural. Os Helios fazem trajetos larguíssimos em carros semidestruídos e sem ar condicionado. E ainda vendem passagens prometendo viagens semi-diretas que, no meio do caminho, tornam-se comuns.
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Era o caso daquela irritante trajetória. Em Cruz Alta o motorista, com um olhar de “se foderam, risos”, anunciou que a partir dali pararia em cada bolicho de beira de estrada onde lhe pedissem carona. Que fazia sempre aquilo e que azar dos iludidos que compraram passagens mentirosas. Quem se preocupará com fiscalização sobre isso se nem para barrar ônibus com pessoas em pé os tais OBSERVADORES se prestam? Seguiu então o Helios. Por Ibirubá. Por Selbach, onde entrou a louca. E depois por Tapera, Espumoso, Tapera de novo (!) e Ernestina. Isso e os rincões onde baguais carregando suínos no colo faziam sinal para a condução parar.
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Escutar os lamentos da moça parecia um programa menos indígena (?) e minimamente interessante do que continuar ouvindo as mesmas músicas daquele desgraçado mp3 novo que só contava com vinte títulos já consumidos exaustivamente. “Eu falo demais, né?”, brincava ela, querendo receber de volta uma negativa para continuar falando. O ânimo dele concedia as negativas. Discutiram sobre física quântica, o brilho da lua perigéica (?) e o preço da soja. Ela, porém, estava mais inclinada a falar do desagradável dos seus dias.
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Narrava infernos, mas o ponto alto da ELEGIA era uma manhã de dezembro de 2006. Aquela coisa que se faz sabendo que a vida mudará radicalmente, etcétera e tal. O Inter havia sido campeão do mundo uns minutos antes. Os meio-irmãos, embriagados da melhor cachaça bebida pelos colorados em todos os tempos, uma caninha de nome Gabiru, decidiram humilhar a gremista da casa. Diante do olhar complacente da madrasta e a ausência do pai, que também àquela hora devia estar alcoolizado, mas para esquecer a frustração que empunhava os corações gremistas e os apertava com raiva.
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A hostilidade chegou à violência física. Ela chamou a polícia. Os meio-irmãos foram detidos, depois liberados, e a coisa ficou por isso mesmo. Mas em casa tudo mudou, como se esperava. Ela foi viver numa pensão. Depois na casa de um amigo. Nunca mais falou com os algozes. Nem com o pai. Dentro do ônibus, o cansado ouvinte de todas as tragédias mundanas e quiçá exageradas daquela pessoa já esquecia dos detalhes. Com a mente bem enfurecida pela viagem e o gremismo se apoderando de parcelas gigantescas dos seus neurônios, só pensava bem-feito-colorados-de-merda. Ele, que sofrera tanto naquela manhã de dezembro, encontrara na louca de Selbach uma heroína capaz de atormentar os festejadores vermelhos de então.
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Ela desceu antes da rodoviária de Passo Fundo, naquele ponto indefinido onde todos os ônibus que chegam a Passo Fundo param. Uma espécie de PRAÇA DO AVIÃO do Planalto Médio, numa analogia ao local canoense onde os ônibus com destino a Porto Alegre costumam fazer escala. Ele foi até a rodoviária. Devia seguir viagem para o Oeste Catarinense. Mas os hormônios (?) liberados dentro da caixa craniana o faziam torcer para que não houvesse passagens. Estava apoderado de ódio futebolístico, tinha um novo destino em mente. Caminhou lentamente ao guichê do terminal. Dali o mandaram ao escritório da companhia responsável pelo trajeto.
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Enrolou voluntariamente. Conferiu a existência de bilhetes quando o ônibus já havia saído há mais de hora. “Que pena!”, exclamou, cínico. Voltou ao guichê da rodoviária. “Pra Erechim, tem?”. Tinha. Um gremista a mais no Gre-Nal do Colosso da Lagoa.
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Maurício Brum
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