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Onde deixamos de ser australopitecos

Doem, os dias e horas que precedem um Gre-Nal. Ninguém quer o Clássico antes de o primeiro apito ser dado. Gols podem custar carreiras, estabilidade, obrigar os torcedores mais confiantes a pagarem apostas pesadas. O Gre-Nal é o duelo do medo. Se condensado numa bomba e estourado, transformaria o planeta em pó. Seu potencial destrutivo, dentro de campo, extrapola a compreensão. E tomar partido, dependendo do cargo que se ocupa, é um risco. Francisco Noveletto foi de aurinegro para o Gre-Nal 379, em Erechim.
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Figurões se cumprimentando, rituais absolutamente desnecessários, ansiedade consumindo as unhas dos nervosos, jogos grandes têm disso. Erechim vestida de vermelho e azul, lotação quase esgotada, cânticos dos dois lados. E o estádio enchendo. Primeiro sob as cadeiras, no espaço protegido do sol – e da chuva que parecia se aproximar –, depois em cada canto livre. Os azuis vieram em número um pouco maior. Os espaços verdes e amarelos, cores do Ypiranga dono da cancha, quase sumiram totalmente.
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O hino brasileiro foi recebido com indiferença total do público, e o hino rio-grandense, que costuma ser entoado com ardor de explodir os pulmões, desta vez acabou ignorado até pelos jogadores. O Inter iniciou o movimento de aperto de mãos e o Grêmio e o trio de arbitragem concordaram. Uma voz solitária pedia que servissem nossas façanhas de modelo a toda Terra, enquanto dum lado os azuis diziam que eram borrachos, sim senhor, e do outro os vermelhos berravam algo sobre ficarem doidões.
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O gauchismo sumido na hora dos cânticos patrióticos reapareceu com a bola rolando. O Gre-Nal de ontem, em seu primeiro tempo, teve o melhor futebol dos últimos anos em Clássicos, em termos de peleia. Os carrinhos eram de levantar a areia usada para tapar os buracos do Colosso da Lagoa, mas dentro dos limites da lealdade. Jogo disputado na raça e na qualidade, com boas chances criadas de cada lado. Os dois times estavam praticamente iguais, o Inter com seus homens de frente sendo agulhas ligeiramente mais pontiagudas.
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Então Silas tirou Jonas. E o Grêmio ficou com um atacante. E passou a jogar num arremedo de 3-6-1. De todos os esquemas possíveis de se armar com um homem isolado na frente, o 3-6-1 dos três zagueiros e das infinitas cabeças batidas no meio de campo é a pior coisa já idealizada pelos catedráticos das chuteiras. A última vez em que o Grêmio usou de tal tática tão despudoradamente foi num Gre-Nal em que Celso Roth se desgraçou. Ontem, isso voltou.
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Com Borges isolado na frente, o Grêmio deixou a equivalência de lado e deu espaço para o Inter. Ainda que o gol colorado tenha saído no momento em que o tricolor estava com dez em campo – a desatenção varzeana de Silas que demorou uns QUINZE ANOS para perceber a saída de Souza, machucado, e substituí-lo –, e bem a partir do espaço onde faltava um meia, dificilmente os azuis teriam sorte diferente na partida usando aquele esquema. No máximo, empatar. E o empate quase veio no último lance, em uma bola que acertou a forquilha colorada.
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Enfurnado no seu indefectível terno negro, professor Fossati celebrava a manutenção da rotina desses últimos anos. Mais um Gre-Nal vencido pelo Inter. O Grêmio tornou-se freguês, cantavam os vermelhos. Na saída do Colosso da Lagoa, porém, os gritos mais hostis, o ódio mortal evidenciado a cada palavra, tudo retornara ao interior das almas. Gremistas e colorados saíam juntos. Ao mesmo tempo, lado a lado. Caminhando, comentando o jogo, em paz. Recuerdos dos colunistas sexagenários nos jornais, da camaradagem e das arquibancadas divididas igualmente, coisas visíveis muitas décadas atrás, voltaram a ser reais nesses Gre-Nais longe de Porto Alegre. Distantes da capital, a flauta feroz e a guerra anunciada se restringem ao estádio e à expectativa pela ação dos jogadores (que pode ser homicida; a arena é deles) – não à estúpida batalha de torcidas.
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A fórmula do Gauchão, esse dejeto futebolístico jogado no Atlântico pelos cariocas e que veio parar na nossa Laguna dos Patos, precisa cambiar. Mas o Clássico fora da capital deve ser mantido. O colorado Noveletto, presidente da FGF, preferiu vestir uma autista camiseta amarela e preta do Beitar Jerusalém (que fosse do Bagé ou do Peñarol!), mas tirando os comentários maliciosos sairia tranquilamente do estádio se vestisse a remera do time de suas paixões. Erechim, novamente, lançou o exemplo de civilidade para todos. A repetição do Gre-Nal ali não é mais uma honraria a ser concedida pela Federação. É um direito adquirido.
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A propósito: quem se erguerá contra os Clássicos no interior diante do seu sucesso e do desprezo total da capital pelo Gauchão?
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A propósito (2): a superioridade da Chave 2 atingiu o zênite nessa quinta rodada, em que todos, todos, todos os seus times venceram.
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A propósito (3): agora as equipes da Chave 2 têm, somadas, 84 pontos. As da Chave 1 seguem com míseros 30. Poderemos ter classificados com apenas uma ou duas vitórias de um lado, e eliminados com até cinco triunfos do outro.
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A propósito (4): se o critério de passagem aos mata-matas fosse a tabela conjunta dos dois octogonais, a Chave 1 só colocaria o Grêmio entre os oito melhores. Abaixo, a classificação geral (em azul os times da Chave 1, do Grêmio; em vermelho, os da Chave 2, do Inter; em negrito, as equipes que estariam nos mata-matas se a primeira fase acabasse agora; em itálico, os rebaixados do momento):
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1º São Luiz – 13 pontos (4 vitórias, saldo 10)
2º Internacional – 13 pontos (4 vitórias, saldo 9)
3º São José – 13 pontos (4 vitórias, saldo 6)
4º Veranópolis – 11 pontos
5º Caxias – 10 pontos (3 vitórias, saldo 3)
6º Grêmio – 10 pontos (3 vitórias, saldo 2)
7º Pelotas – 9 pontos (3 vitórias, saldo 8)
8º Santa Cruz – 9 pontos (3 vitórias, saldo 3)
9º Novo Hamburgo – 7 pontos
10º Universidade – 6 pontos
11º Ypiranga – 4 pontos (1 vitória, saldo -5)
12º Juventude – 4 pontos (1 vitória, saldo -7)
13º Esportivo – 3 pontos
14º Internacional-SM – 2 pontos
15º Avenida – 0 ponto (saldo -6)
16º Porto Alegre – 0 ponto (saldo -12)
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Maurício Brum
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