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O comunismo das ondas

“Não tente me falar de revolução. Sei tudo sobre revoluções e como elas começam! Gente que lê livros vai atrás de quem não lê, gente pobre, e diz que chegou a hora de haver mudanças! E a gente pobre faz as mudanças, hein? Aí os que leem livros se sentam em grandes mesas lustrosas e falam, falam, comem e comem, hein? Mas o que acontece com os pobres? Eles estão mortos!”
(Juan Miranda, personagem de Rod Steiger em Quando Explode a Vingança)
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A criação de alguns movimentos das canchas de futebol pode ser tão obscura quanto as respostas definitivas sobre de onde viemos e para onde vamos. Quem terá sido o primeiro torcedor a juntar dois trapos com as cores do seu time e pendurá-los num alambrado? E o pioneiro a usar essas faixas para colocar mensagens escritas? Quem terá criado os cânticos primordiais? E a ideia de barras verticais sobre a torcida, tão comum nos campos latinos, de quem foi?
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Algumas dessas características têm seus dias iniciais mais ou menos demarcados. A ola, embora já existisse aqui e ali, popularizou-se no Mundial do México, em 1986. Só uma mente bem esclarecida sobre o poder das massas imaginaria que uma onda gigante sairia dos braços erguidos em sequência por milhares de pessoas. E só alguém que entendesse de senso de comunidade para acreditar que, uma vez tendo iniciado o movimento, as almas sentadas ao lado o repetiriam quase que por OSMOSE.
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Toda revolução precisa de líderes e de um tempo de gestação. Quando aquele gremista começou a gritar, no Colosso da Lagoa, duas horas e meia antes do início do Gre-Nal de domingo, poucos entenderam. “Senta! Senta!”, repetia ele, qual um líder proletário num palanque erguido perto das fábricas opressoras. Os operários-torcedores ignoraram uma, duas, três vezes. Seguiam nas suas ações rotineiras, na mesmice de sempre, naquele conformismo à espera de dias melhores – ou do começo do jogo. Sentar? O que ele queria dizer com aquilo?
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Alguns minutos depois os discursos notáveis já eram repetidos sobre o chão de fábrica que eram os degraus da arquibancada. A finalidade daquilo não chegava a ser compreendida por todos, mas deveria haver alguma razão para a ideia começar a ganhar adeptos. “Senta! Senta!”, agora eram mais vozes. E sentaram-se em bom número. Vamos esquecer as nuvens negras do céu, as ameaças de chuva e o desespero provocado pela incerteza quanto ao jogo e tornar essas horas de espera interessantes.
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“Um! Dois! Três! Eeeeee!” – quando os adeptos pareciam suficientes, tentou-se fazer a segunda parte da revolução. Do discurso para a ação. Uns ergueram os braços, a maioria não, e o tsunami virou marola antes da primeira curva do Colosso. Na tentativa seguinte, triplicara o número de pessoas que só haviam se sentado para levantar de novo e formar a ola. Era o bastante para que as regiões periféricas percebessem a AGITAÇÃO, simpatizassem com a doutrina e aderissem à causa.
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Com duas horas por esperar o primeiro apito do Clássico o Grêmio tinha uma ola – algo que os colorados só conseguiriam imitar com sucesso cinco minutos antes de o pontapé inicial ser dado. E depois da primeira ola, outra. E outra. E outra. E tantas ondas quanto um oceano pode proporcionar nos dias de tormenta. E cada vez que a ondulação completava a meia-volta que era o espaço destinado aos tricolores no estádio, o lado onde tudo se iniciara vibrava como se o time já estivesse em campo e marcando gols. Aquilo que se parira como um sonho isolado havia conquistado o povo. Mais uma vez, fez-se a magia de uma ola.
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Contagiados pelo espírito de comunidade, os gremistas fizeram mais no domingo. Sem qualquer combinação prévia, os torcedores sentados nas cadeiras pegaram os bastões de ar distribuídos na entrada do estádio e não os usaram para a função original, a de batê-los para produzir barulho – numa iniciativa GENIAL, arrebentaram-nos, amarraram uns nos outros e confeccionaram barras improvisadas. Feitas daquele material emborrachado, poderiam ser rasgadas facilmente por algum aficionado mais furioso pela visão atrapalhada. Mas o conceito de integração estava difundido.
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Ninguém se opôs. As barras feitas nas cadeiras e jogadas para baixo foram bem recebidas, agarradas pelos torcedores nas arquibancadas e levadas até os alambrados, onde foram afixadas. Quem viu pela tevê diz ter interpretado aquilo como fios de rádio. Quem leu nos jornais não leu, porque pouquíssimos fizeram menção à atitude mais sensacional vista nas torcidas de futebol do final de semana. Parece bobagem – não é. Ao invés de ato planejado com antecedência por uma facção organizada da torcida, tratava-se de uma rara ideia espontânea, vinda de pessoas comuns e executada na hora, que rendeu coisas concretas.
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Cerca de dez barras pairavam sobre as cabeças de quem estava sob as cadeiras gremistas do Colosso da Lagoa. A ola seguia dando meia-voltas no estádio. A certa altura, alguns aficionados até penduraram uma REDE de dormir com o escudo do Grêmio, fazendo as vezes de faixa. Ser bem elaborado ou bonito não interessava aos torcedores. O menor gesto de apoio surgia para atender a um chamamento. Usava-se os bastões como barras, as redes como faixas e os braços como ondas, e usar-se-iam foices e martelos como baionetas e canhões, se necessário, porque estavam todos ali para ajudar a vencer o jogo com as armas que possuíssem.
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Não há dúvida que os gremistas venceram o Gre-Nal das arquibancadas, domingo. Não há dúvida que os clamores da direção tricolor por apoio foram atendidos. Mas essa gente que manda no clube, esses que leem livros e pedem suporte, agora sentam em grandes mesas lustrosas e falam e falam, comem e comem, e dizem que “é chato” perder Clássicos. Os torcedores, esses pobres que lutaram com o que podiam para satisfazer aos anseios comuns? São os “loucos” que se envergonham por perder Gre-Nais e amanheceram a segunda-feira como mortos – de amargor.
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Quiçá seja necessário menos espírito francês e mais russo. A revolução pelo bem do Grêmio pode já não ser aquela feita ao lado dos dirigentes, esses burgueses futebolísticos.
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Maurício Brum
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