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A ruindade não é (nem causa) ilusão

O torcedor colorado santa-mariense é, antes de tudo, um ilusionado. Apoiador de um time que, na década passada, despendeu oito temporadas na Segundona e chegou seis vezes às fases finais, fracassando nas cinco primeiras. Um ser obrigado a escutar, sem argumentos contra, que seu time se entregava. E o colorado santa-mariense ia ao estádio. Enchia de melancolia a Baixada, mas permanecia fiel. Tudo para subir, tudo pelo sonho de um ano de loucura – que veio, naquele 2008 de Chiquinho e do terceiro lugar na elite do Gauchão.
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“Vamos acreditar!”, levantou-se uma voz em meio aos aficionados que estavam nas cadeiras, ontem, no estádio Presidente Vargas. Sob aplausos, os onze representantes do Internacional de Santa Maria subiam ao campo de jogo para disputar o segundo tempo. Perdiam então por 1 a 2 para o São José sediado em Porto Alegre e sustentado pelos cobres de Francisco Noveletto. Com facilidade constrangedora, os capitalinos sem torcida abriram dois gols de diferença e meteram uma bola na trave em 22 minutos de partida. Deives Thiago recolocou o Inter na peleia com um golaço aos 34, e do aparente tremor de pernas dos porto-alegrenses consolidou-se uma esperança.
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O Inter ainda não havia vencido no Campeonato Gaúcho. Em cinco rodadas, dois empates e três derrotas. Um trapo da Fanáticos diz que “Fora a vitória tudo é ilusão”, e a melhor interpretação da frase não é a óbvia – e sim que, enquanto não houver triunfos, seguirá existindo a ilusão para que o primeiro deles venha. O torcedor do colorado santa-mariense precisa gerar fé do nada, crer nas investidas incertas de um Júlio César pela banda esquerda, nos cortes nem sempre precisos de um Djair cuja posição está mais duvidosa a cada dia e nas finalizações de uma linha ofensiva que só marcou um dos quatro gols da equipe na temporada – de Mano Garcia, na derrota por 4 a 1 para o Santa Cruz, domingo.
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Gauchinho, dispensado, e Vitor Hugo, que pediu pra sair um dia depois de exigir bater um pênalti diante do Santa Cruz e desperdiçar, eram dois nomes desse ataque de forças inexistentes. O Inter-SM mandou embora mais corpos sem espírito. Ontem, na estreia do técnico Bagé, a tradicional falta de opções do elenco santa-mariense se reduzira dramaticamente. Novas contratações ainda não saíram do campo das promessas. O Zequinha, invicto e naquele momento assumindo a liderança da Chave 2 – portanto, o topo geral do campeonato –, vencia sem ter um time extraordinário. Nada mais que ajustado e sem grandes nomes, o quadro comandado por Argel FUCKS. O suficiente para evidenciar diferenças abissais de qualidade em relação ao Interzito.
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Acreditar, palavra de ordem de cada torcedor do Internacional de Santa Maria desde o princípio dos tempos – ao menos, desde que as desgraças do decênio passado se iniciaram, em 2000 –, é um verbo que perde suas motivações existenciais quando essa formação atual da equipe bate nos olhos. O nervosismo do São José ficou nos vestiários. No segundo tempo, os capitalinos controlaram, fizeram a bola correr, e cumpriram. Botaram um gol a mais nos cordões do arqueiro César e viajaram de volta a Porto Alegre celebrando – MUITO – os 1 a 3 da noite de quarta-feira.
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O Inter-SM tem campanha de rebaixado. Não encravou seu nome nas duas últimas posições graças ao Avenida e ao Porto Alegre, dois dos mais empenhados em provar cientificamente a falta de limites para a ruindade dentro das canchas. A ironia do Interzito ainda é a de rodadas passadas: como nenhum dos times da Chave 1 vence – e o Grêmio agora se inclui nisso –, três raros pontos conquistados de uma vez poderiam já colocar os santa-marienses na zona de classificação. Apesar de sonhadores, os colorados da Região Central do Estado têm vergonha na cara, e por essa passagem de fase não dedicam suas horas de ilusões.
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Comentários (um pouco são-luizenses) da rodada:
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– Que grande o São Luiz. Numa Porto Alegre que foi a capital mais quente do mundo em 3 de fevereiro de 2010 e contra um Grêmio preparado por Paulo Paixão, sobre um campo maior do que os comuns potreiros do interior, o time ijuiense terminou a partida do Olímpico com mais fôlego que os tricolores. Acossou o Grêmio até o fim, pontuou pela primeira vez em doze anos contra os azuis e roçou a vitória. Segue com seus mais de 500 dias de invencibilidade em casa, o Grêmio, mas o 1 a 1 assustou.
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– Apesar da raridade de uma atuação de igual para igual contra o Grêmio fora de casa, e do sempre histórico resultado que é pontuar por lá, o São Luiz fez o mínimo que poderia. Na Taça Fernando Carvalho do desequilíbrio, tripudiar sobre o líder da Chave 1 virou item básico na cartilha para passar de fase: dos quatro times que estão na zona de classificação da Chave 2, nenhum perdeu para o Grêmio – Veranópolis e São Luiz empataram (ambos fora), o Inter venceu, e o São José ainda não os enfrentou.
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– A injustiça maior da fórmula, descubro agora, não é fazer times pífios como o Juventude, o Esportivo ou o Inter-SM (e até o Porto Alegre!!!) terem chance de se classificar: é botar os mata-matas em partida única na casa do time com POSIÇÃO melhor dentro da sua chave. A questão trágica do mando não é o perigo de uma eliminação por atuar fora de casa, mas fazer com que as cidades verdadeiramente merecedoras de assistir ao seu time nas fases avançadas percam a chance de receber os grandes confrontos. No momento, um Novo Hamburgo que tem a mais alta folha salarial abaixo da Dupla e somou míseros 7 pontos enfrentaria em seu estádio um São Luiz que não fez loucuras financeiras e já conta 14 unidades.
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– O Juventude, que hoje fecha a 6ª rodada em clássico contra o Caxias, é a derradeira esperança da Chave 1 para vencer um puto jogo no meio de semana. Assim como na jornada de sábado e domingo, as equipes da Chave 2 estão invictas. Na realidade, o único triunfo do grupo 1 nas últimas três rodadas foi o do Grêmio contra o Santa Cruz, dia 27.
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– Segue a contabilidade do laço: a Chave 2 belisca a barreira dos cem pontos, e seus times têm, somados, 99 unidades. A Chave 1 tem um terço disso: 33. São 30 vitórias dos times da Chave 2, contra 8 da Chave 1. As formações da Chave 2 marcaram 105 gols e as do outro grupo, apenas 51. O caso mais exemplar disso: o Universidade, lanterna da Chave 2, tem 38% de aproveitamento – idêntico ao do Novo Hamburgo, vice-líder da Chave 1.
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– A classificação geral do Gauchão e a disparidade extrema dos octogonais após seis rodadas (em azul os times da Chave 1, do Grêmio; em vermelho, os da Chave 2, do Inter; em negrito, as equipes que estariam nos mata-matas se a primeira fase acabasse agora; em itálico, os rebaixados do momento):
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1º Internacional – 16 pontos (5 vitórias, saldo 11)
2º São José – 16 pontos (5 vitórias, saldo 8)
3º São Luiz – 14 pontos (4 vitórias, saldo 10)
4º Veranópolis – 14 pontos (4 vitórias, saldo 9)
5º Pelotas – 12 pontos
6º Grêmio – 11 pontos
7º Caxias – 10 pontos (3 vitórias, saldo 3, 11 gols feitos)
8º Santa Cruz – 10 pontos (3 vitórias, saldo 3, 10 gols feitos)
9º Universidade – 7 pontos (2 vitórias, saldo 1)
10º Novo Hamburgo – 7 pontos (2 vitórias, saldo -3)
11º Ypiranga – 5 pontos
12º Juventude – 4 pontos
13º Esportivo – 3 pontos
14º Internacional-SM – 2 pontos
15º Porto Alegre – 1 ponto
16º Avenida – 0 ponto
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Maurício Brum (fotos: eu, Daniel Marenco/ClicRBS)
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  1. Iuri
    06/02/2010 às 22:14

    O fato do match do mata-mata ser realizado na cidade do clube que se encontra na posição mais AVANTAJADA dentro da sua tabela não é um absurdo – apenas segue a tendência de uma tabela tristemente organizada, que não desconfiou do quanto um desnível mais abrupto enfeiaria o campeonato. Utopia pensar que o critério dos pontos pudesse ser adotado, se nem para o provável desequilíbrio após o sorteio dos grupos houve atenção.

    Abraço,
    Iuri

  2. Maurício Brum
    09/02/2010 às 05:13

    Convenhamos que campeonatos que opõem os times de um grupo aos do outro já são desprovidos de sentido. Adotar o critério de pontuação geral daria um mínimo de lógica a isso.

    E não creio que se pudesse atentar para um provável desequilíbrio antes do campeonato, já que, da Chave 1, com exceção do sempre cotado para saco-de-pancadas Avenida, a maior parte dos times parecia promissora. Inter-SM e Esportivo talvez não tanto, mas os demais sim.

    Brum

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