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O dia em que a Terra parou

Detestava guarda-chuvas. Com uma irritação profunda, trazida à superfície como se arrancada do interior do fígado com as unhas. Os males da vida, sabemos todos, começam no fígado e suas dores sem sentido. O terremoto do Haiti deve ter sido causado pela revolta hepática de algum ilhéu, que estremeceu do ventre aos pés e criou fissuras na Terra. A glândula dele não chegava a destruir países, mas latejava diante da visão de um guarda-chuva.
*
Caíam as águas e lá estava ele, caminhando sem se dignar a sequer puxar um jornal e tapar a cabeça. Impassível como um lorde inglês a desfilar com o queixo erguido sobre um gramado verde há vinte gerações. Ou como um Fossati rodado por um ar aquecido até os trinta e tantos graus e enfiado no seu terno como se a amenidade de um outono oriental o cercasse. Andava firme. Os sapatos toc-tocando na calçada e, algumas vezes, espalhando águas das poças, numa provocação olímpica:
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– É só isso que vocês têm para mim?
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A pior das precipitações pluviométricas não o esmorecia. Caso os céus despejassem barracudas, ficaria mais tempo em ambientes fechados, pegaria o ônibus, sairia de carro. Simples. Em última instância, encararia as escamas e barbatanas de peito aberto. Guarda-chuvas são para os fracos, dizia. Não sou feito de açúcar, insistia. Boiolagem sem tamanho, completava, apontando para os amigos que se protegiam das gotas. Não era bem assim, ele sabia. Se tentasse esquecer, o fígado assustado lembrava.
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Seria trauma de infância? Aquela caminhada na praia, aos cinco anos, numa manhã gris. As ondas ferozes quebrando na praia. Os molhes engolidos por águas de forças impensadas. O cheiro de peixe mais onipresente que Deus. O barquinho de pescadores que balançava ao fundo, no horizonte enegrecido. E o homem que caminhava uns metros adiante, fincando os pés na areia com o prazer de sentir cada grânulo úmido entre os dedos. O homem e seu guarda-chuva de ponta metálica.
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E o raio.
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E as dores do mundo refletidas num maldito fígado que não tinha nada que se meter na história, e que bem estava merecendo uma cirrose pra parar de se fresquear. Ele era assim – duro. E guarda-chuvas eram para os moles. As memórias daquela manhã litorânea, pela idade, pela consciência querendo evitar traumas e pelos anos que soterraram a vivacidade do momento, eram imagens apagadas entre brumas pálidas. Viu aquilo, o raio, o homem, viu sozinho a morte anônima e voltou para a casa praiana em silêncio.
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Nunca falou para ninguém. Por vezes duvidava dos fatos, e só tinha uma glândula do corpo a testemunhar que tudo ocorrera mesmo. Já tinha ouvido falar de amputados que continuaram sentindo as partes perdidas dos membros, de fraturados cujos ossos estouram em dor dependendo do clima, mas um fígado pulsar por uma lembrança era ridículo. Uma incoerência biológica. Doía. E o fraco era ele, que não podia ver guarda-chuvas, de medo, mas precisava convencer a si mesmo que os errados eram os outros.
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Nem gostava de futebol, mas, para provar de que tipo de matéria era feito – certamente não sacarose –, ia ao estádio nos dias de aguaceiro. Comprava um ingresso na geral descoberta e, sobre as tábuas molhadas, sentava-se sem qualquer proteção. Não raras eram as vezes em que ficava solitário naquele setor. E não aceitava a regalia da direção que, em algumas ocasiões, abria o pavilhão aos geraldinos. Encharcava as calças, a camisa, os sapatos. Condenava as cuecas e as meias. Arriscava pegar uma pneumonia, mas o fígado não doía.
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Então veio um ano infernal, se é que o inferno pode ser aquático. Eram escassos os registros de tantos milímetros de chuva ao longo de doze meses. As nuvens pareceram se enojar daquele insolente e ganharam feições humanas. Olhos sempre voltados para ele. Bocas cinzentas dispostas a se abrir, cuspir o máximo possível e depois rir do sujeito cujas roupas quase se fundiam à pele, tão molhadas que estavam. Era fatal. Botava o pé fora de casa e uma nuvem aparecia no céu, num aperto de mãos com o sol e num anúncio de substituição.
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O fígado inchou. Respirava mal, caminhava arqueado, foi terrível. Ele começou a lutar contra convicções antigas. A chuva conseguira se comparar às dores. E a chuva era fria. Mantinha o discurso, a pose e o asco por guarda-chuvas. Mas já aceitava caronas sob os paraguas dos amigos. Meio sem jeito, agachado, sem saber pra onde ia e descuidando o ritmo do passo, seguia em frente com alguma proteção pela primeira vez em quatro décadas de vida. Os quatrilhões de gotículas esborrachadas como uva no chão durante o ano foram, pouco a pouco, alheando os fantasmas psicológicos.
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Já não odiava guarda-chuvas. Até cobiçava um, mas não chegara ao estágio de gastar sua prata naquilo. No Ano-Novo, a mais mesquinha das resoluções em todo o mundo era a dele – empunharia um guarda-chuva pela primeira vez na vida, e azar da humanidade se não visse utilidade naquilo. Depois dos temporais que derrubaram pontes e barreiras pelas estradas, os amigos decidiram facilitar as coisas. Deram-lhe um de presente. Hoje, o guarda-chuva jaz pendurado pela alça numa cadeira. Seco. Imaculado. Virgem.
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Não choveu mais. O inferno molhado dos meses anteriores dera espaço à fornalha satânica da tradição, com brasas e labaredas. Batista desmaiou ao vivo. E um time grande, o Grêmio, jogou numa tarde de dia de semana sob calor recorde. Bastou para que, depois de eras atuando nesses horários, um movimento do Sindicato dos Atletas Profissionais provocasse a liminar que proibiu partidas no Rio Grande do Sul entre 10 e 18 horas, temendo os quarenta graus. Em represália, para fazer pressão, a Federação Gaúcha de Futebol paralisou a Segundona. Ainda que o horário de verão permita que se disputem rodadas tranquilamente a partir das 18 horas, a “falta de iluminação artificial” da maioria das canchas impediria a realização dos encontros.
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Os clubes ficarão gastando para não atuar e os jogadores não poderão aparecer, um ponto para derrubar a liminar. Times que viajariam para a jornada de ontem foram pegos pela informação dentro do ônibus. Sem rodada no dia. Sem rodadas até que tudo se resolva. Há quem diga que o mundo vai acabar em 2012. Mais do que as chuvas infinitas de um ano e o calor histórico do outro, a interrupção de uma Segundona Gaúcha é o indício mais claro de que algo não está bem. Alguém não se importa com a sorte do planeta. Pede apenas que o calor seco se vá, que os torós venham de uma vez. Quer estrear o guarda-chuva. Porque dores no fígado são para os fracos.
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Maurício Brum
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