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Merecer e triunfar

Eis que voltou a chover. E a turbidez infinita deste céu líquido, com nuvens plúmbeas em despojado precipitar, foi testemunha de um 19 de Outubro mais uma vez lotado. Repleto. Tomados os seus degraus, as suas cadeiras, as suas copas e qualquer espaço de onde se pudesse assistir ao embate. O São Luiz do Gauchão 2010 é, como nos melhores tempos, um time imbatível em casa. E ontem venceu pela quarta vez em quatro rodadas em Ijuí.
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Aquela torcida começa a gritar “São Luiz”, dá três assovios, e repete “São Luiz” com mais vontade, indefinidamente, enquanto as equipes se digladiam. Os Fanáticos cantam que têm a força e são invencíveis. Eraldo arranca e dribla quatro adversários, dando um passe à feição. Ou surge em meio aos marcadores para atormentar o arqueiro. A Baixada pulsa. E, neste domingo, não pulsa apenas na imaginação dos apaixonados ou no pulo dos geraldinos: uma onda, aquela insurreição popular, contraria a lógica de que são necessárias canchas circulares para existir e começa a dar a volta num estádio que só tem assentos nas duas laterais do campo.
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Torcedores com anos de 19 de Outubro comentam, junto aos alambrados, que nunca viram daquilo. Uma ola em Ijuí. Comentam com os olhos mergulhados em lágrimas emocionadas que o orgulho não deixa sair. Chove e o estádio está lotado. Chove e o campo escorregadio não impede os dribles, as corridas, o agarrar firme das luvas do goleiro Oliveira. Chove e não é para afogar mágoas, que não existem, nem para lavar almas, já devidamente consagradas pelos resultados. Chove e é apenas para salvar os heróis do calor dos últimos dias e lhes propiciar um cenário mais fácil para triunfar outra vez.
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O adversário é um dos times mais tradicionais do interior. O Esportivo de Bento Gonçalves, na primeira divisão gaúcha desde 1982, é o mais longevo time na elite do Estado, excetuando-se as Duplas Gre-Nal e Ca-Ju. Em 2010, completa sua quadragésima temporada no primeiro escalão ao longo dos tempos. Um clube que já foi vice-campeão gaúcho, em 1979. Que, apenas quatro anos atrás, chegara a Ijuí por uma Copa Emídio Perondi, torneio que então definia os rebaixados do Gauchão, e aplicara violento golpe no orgulho noroestino: sempre fortes em casa, os ijuienses levaram 0 a 3 do Esportivo naquele 26 de março de 2006 – placar que nem Grêmio, nem Inter, nem ninguém conseguiria fazer no 19 de Outubro posteriormente.
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Aquele Esportivo sumiu. Neste ano está reduzido a Bonaldi, o capitão das mais enlameadas jornadas da Segundona, e dez companheiros tontos. A má campanha do time da Serra é justificada pelo mau futebol da equipe, mas o furo defensivo, as goleadas, a ameaça de rebaixamento, não passam por Bonaldi. Ao menos tendo em consideração o duelo de Ijuí. O zagueiro que vestia a 6 no Riograndense, e em Bento Gonçalves sustenta a 4 nas espáduas, anulou tanto Marreta quanto Eraldo no ataque do São Luiz. E Eraldo é o maior goleador do Rio Grande. Bonaldi, no reencontro com o terrível árbitro Francisco Silva Neto, que há meio ano o chamou de “varzeano”, matou-se em carrinhos viris e pulos corajosos para evitar gols.
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Eraldo só apareceu quando decidiu atuar mais distante de Bonaldi. O São Luiz veio junto. O quadro ijuiense vencia por 1 a 0 ao intervalo, graças a um gol de cabeça de Jean Paulo, mas não explicava pela qualidade o triunfo parcial. Fazia pouco, desempenhava a pior atuação dentro de casa no ano, segundo as rádios. No segundo tempo, o retrospecto recente fluiu. O São Luiz vive seu melhor início de Gauchão na história. Com o triunfo daquele momento, emendaria a sétima partida seguida de invencibilidade. Os cem por cento de aproveitamento em casa. A luta interminável pela vaga e a torcida por um tropeço da concorrência.
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Ao fim da rodada, o tropeço viria. Um invicto Veranópolis perderia em casa para um Internacional de Santa Maria que não havia triunfado nem uma vez na temporada: depois de sair com 2 a 0 pró, o VEC entregaria a remontada de 2 a 3 com gols no final. O absurdo da fórmula um pouco mais fortalecido, o Inter-SM passando a brigar seriamente por vaga graças àquela única vitória em toda a primeira fase, e o Veranópolis comprometendo suas chances de classificação por causa de uma solitária derrota no primeiro turno.
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Durante a madrugada, o São Luiz celebraria com álcool e glória a quase confirmação da vaga nos mata-matas pela derrota veranense, mas no início da etapa complementar não via perspectivas de reação do Interzito. Partiu para fazer a sua parte. Em dias de pontuações altas para todos na Chave 2, o saldo de gols pode ser decisivo. Pelo saldo, Eraldo, que completava aniversário, fugiu de Bonaldi. E de cabeça fez o 2 a 0. Pelo saldo, Jonathan entrou pela direita em grande jogada, vislumbrou o estreante Júnior livre no meio da pequena área e meteu um passe melecado de FRUTOSE: “toma, faz”. 3 a 0. Pelo saldo, menos de cinco minutos depois desse terceiro gol, Eraldo cavou pênalti e fez mais um.
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O desespero fez o Esportivo apelar para a fúria paquidérmica de Darzone e sua violência sem limites. Em menos de dez minutos em campo, o zagueiro mais insano destes pagos fez duas faltas esmerilhadoras. Tirou de combate o capitão do São Luiz, Wanderson, deixando os ijuienses com dez em campo pela impossibilidade de novas substituições, e depois atorou uma jogada na lateral-esquerda do seu time, recebendo mais um cartão amarelo na carreira. Correm palpites de que Darzone chegará ao milésimo cartão antes que Túlio Maravilha faça seu gol mil. Com um a menos, os são-luizenses ainda levariam um tento de pênalti.
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A vitória por 4 a 1 deixou o São Luiz no terceiro lugar da Chave 2. Dois pontos atrás do Internacional e do São José. Invicto. Com o melhor ataque do Gauchão (ao lado dos próprios Inter e Zequinha, além de Veranópolis e Pelotas), a melhor defesa isolada, e o melhor saldo de gols. Também o artilheiro. Eraldo, dois gols no domingo, nove no ano, fez mais da metade dos tentos ijuienses e mais tentos que qualquer adversário pelo inexistente troféu CHUTEIRA DE OURO DOS PAMPAS. E o São Luiz pode ser eliminado. Com a derrota do VEC, precisa que hecatombes aconteçam, incluindo a desintegração total da camada de ozônio, a inversão dos pólos, um novo estouro do Vesúvio, resultados paralelos e a reversão de uma diferença de meia dezena de gols de saldo.
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Mas é possível. Antes do jogo, dizia-se entre os de Ijuí que o mais justo para o Gauchão seriam os pontos corridos. Não existe justiça no futebol. Importa classificar-se ou não, erguer a taça ou não, desde que dentro do regulamento. Mas um Esportivo que perdeu seis vezes em sete rodadas, esse Esportivo que tão facilmente foi goleado em Ijuí, tem praticamente tantas chances de passar de fase quanto o Veranópolis de uma derrota só. O mesmo vale para qualquer time ruim da Chave 1 com chances de passar, e para todos os mais fortes da 2 que não lograrão entrar no G-4. No sábado, absurdamente, alguns fracassados virarão triunfantes, outros tantos vencedores sairão derrotados. Regozijo e lágrimas para quem não os merece.
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Segue a contabilidade do Gauchão e a disparidade dos grupos:
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Pontos: Chave 1 40-118 Chave 2
Vitórias: Chave 1 10-36 Chave 2
Gols: Chave 1 64-123 Chave 2
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Classificação geral, seguindo o esquema de sempre. Azul para os times da Chave 1, vermelho para os times da Chave 2; negrito para os classificados e itálico para os rebaixados:
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1º Internacional – 19 pontos (6 vitórias, saldo 12)
2º São José – 19 pontos (6 vitórias, saldo 10)
3º São Luiz – 17 pontos (5 vitórias, saldo 13)
4º Pelotas – 15 pontos (5 vitórias, saldo 10)
5º Veranópolis – 14 pontos (4 vitórias, saldo 8)
6º Grêmio – 14 pontos (4 vitórias, saldo 6)
7º Caxias – 14 pontos (4 vitórias, saldo 5)
8º Santa Cruz – 13 pontos (4 vitórias, saldo 4)
9º Universidade – 7 pontos (2 vitórias, saldo -3)
10º Novo Hamburgo – 7 pontos (2 vitórias, saldo -4)
11º Ypiranga – 5 pontos (1 vitória, saldo -7)
12º Juventude – 5 pontos (1 vitória, saldo -8)
13º Internacional-SM – 5 pontos (1 vitória, saldo -10)
14º Esportivo – 3 pontos (1 vitória, saldo -11)
15º Porto Alegre – 1 ponto (0 vitória, saldo -13)
16º Avenida – 0 ponto (0 vitória, saldo -8)
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Próxima rodada:
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Esportivo vs. Internacional
Grêmio vs. São José
Porto Alegre vs. Universidade (CLÁSSICO DAS MULTIDÕES)
Internacional-SM vs. Pelotas
Novo Hamburgo vs. Santa Cruz
Avenida vs. Caxias
Juventude vs. São Luiz
Ypiranga vs. Veranópolis
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Maurício Brum
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  1. Nenhum comentário ainda.
  1. 26/03/2010 às 03:38

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