Início > Recuerdos > Ils sont fous, ces français

Ils sont fous, ces français

É a Copa da França, e não a famigerada FA Cup inglesa, o maior torneio de futebol do mundo. A primeira edição da taça eliminatória franca teve 48 participantes – em 1917. Vale a comparação com a nossa pioneira Copa do Brasil que, no tardio 1989, contou com 32 equipes. Hoje dobramos nossos inscritos e a taça auriverde é jogada por 64 contendores. Os franceses são mais megalomaníacos. A Coupe de France 2009/10 é disputada por 7.317 equipes. Sim, SETE MIL, e depois desses sete mil ainda há 317. Com um detalhe: só as duas primeiras divisões gaulesas são profissionais.
*
Mais de seis milhares da partidas são previstas por temporada da Copa da França. Da abertura à finalíssima, marcada neste ano para o dia 1º de maio no Stade de France, são catorze fases. Naturalmente, quem abre o torneio não o fecha. Os grandes entram tarde. Para se agarrar aos princípios de um torneio aberto a qualquer um – qualquer um MESMO, incluindo equipes dos territórios ultramarinos franceses, como Guadalupe ou a Martinica –, a Federação Francesa de Futebol criou um sistema de preliminares, com ingressos graduais de acordo com a posição de cada clube no escalão nacional.
*
As duas primeiras etapas do torneio são disputadas por equipes absolutamente amadoras, times de jovens bêbados que costumam dar patadas nas quadras de areia do bairro, e que nas horas vagas se enfrentam por ligas regionais ou distritais e se acham bons o bastante para se inscreverem na Copa. A coisa começa a ficar mais ou menos séria na terceira fase, com o ingresso dos 94 quadros da CFA2 – a organizada segunda divisão do Campeonato Francês Amador, equivalente ao quinto degrau da pirâmide geral gaulesa. Na quarta fase, aparecem mais 58 clubes da CFA1 e, na quinta rodada, entram os 20 participantes da terceira divisão francesa, que recebe o pomposo nome de Championnat National.
*
Nessa altura a Copa da França está com 584 clubes vivos, mais 47 por entrar. Entre os vivos, quase cem por cento de amadores. A terceira divisão até pode ter alguns profissionais, mas são aqueles que acabaram de cair da Ligue 2 (a segunda divisão profissional) e estão em situação CLAUDICANTE: na França, um time da segundona que cai para o National tem dois anos para manter seu estatuto profissional e tentar subir; caso não logre o acesso, é obrigado a adotar o regime de amadorismo. Os profissionais de fato surgem na sétima fase, quando entram as 20 equipes da Ligue 2, mas para não perder o costume também vêm uns amadores: os sete campeões das preliminares disputadas nos territórios ultramarinos franceses.
*
Os grandalhões da Ligue 1, a elite da França, só tomam parte na competição a partir da nona fase – quando a Copa da França já se parece com a nossa Copa do Brasil e passa a contar com o número redondo de 64 equipes. Aí não se aguarda o ingresso de mais ninguém e todos se matam em jogos únicos até atingir a final, em Saint Denis. É um caso de dúvida entre a admiração e o temor por um cérebro que conseguiu visualizar e estabelecer uma fórmula dessas para a competição. Porque funciona, e isso é o pior. Não bastam seus queijos milimetricamente mofados para ficarem bons, seus trens que não atrasam nunca e seus vinhos desgraçadamente ideais, os franceses ainda criam torneios com pouca lógica aparente que avançam até o fim sem problemas. Debochados.
*
“Esses franceses são uns loucos”, diria Obelix de seus compatriotas se largasse os menires e se sentasse nas arquibancadas duma cancha da Gália Contemporânea (?). Essa longa digressão é para explicar um fenômeno já minimizado pela constância com que ocorre: SEMPRE há times amadores entre os oito melhores da Copa da França. Na década passada, não houve um ano em que as quartas-de-final ficassem despidas de times da terceira divisão para baixo. Falar em “surpresa” pela presença de um deles tão longe é mentir. A situação não é inusitada. Em 2005, por exemplo, dois times da National e um da CFA2 estavam entre os oito melhores. A fórmula favorece: os grandes entram tardiamente e, quando o sorteio os emparelha com os amadores, são obrigados a jogar fora de casa.
*
Mas entre chegar às quartas-de-final e ir além há um CÂNION. Tocar o céu é vencer um ou outro time da primeira divisão, mas não concluir a grande façanha e atingir os estágios dos sonhos. Há dez anos, uns nortistas conseguiram superar a barreira das quartas e das semifinais. Os jogadores do Calais Racing Union FC eram amadores puros. Trabalhadores das docas, professores, gente que comprava suas baguettes na padaria da esquina e, com alguns patrocinadores locais, bancava viagens para defender a cidade nas peleias da CFA1.
*
O Calais entrou na quarta fase da Copa da França de 1999/2000. Na longa campanha, superou adversários desconhecidos como o Campagne-les-Hesdin, o Saint-Nicolas-les-Arras, o Marly-les-Valenciennes, o Béthune, o Dunkerque e o Langon-Castets. Mas também soqueou forças tradicionais do futebol profissional. Tirou o Lille e o Cannes nos pênaltis, times que na época militavam na segunda divisão, e sacou do certame duas equipes da elite: em 18 de março de 2000, fez 2 a 1 no Strasbourg. Em 12 de abril, patrolou o Bordeaux por 3 a 1. E o Bordeaux era o atual campeão da liga. Naqueles dias eufóricos em que a França ainda celebrava a conquista da Copa do Mundo e se preparava para erguer a Eurocopa, o país parou para torcer pelo Calais na decisão copeira nacional.
*
A final em Saint Denis opôs os amadores ao poderoso Nantes, defensor do título da Copa e que na temporada seguinte viria a conquistar também o Campeonato. O Calais desatou a loucura ao ir para o intervalo em vantagem de 1 a 0. Mas, no segundo tempo, sofreu o empate, e perdeu a taça com a crueldade de um gol de pênalti no último minuto, o 1 a 2. Mickaël Landreau, goleiro e capitão do Nantes campeão, fez questão de erguer a taça junto com Réginald Becque, o capitão do Calais. Mas o rosto desolado de Becque diz tudo o que precisa ser ouvido: haviam chegado perto demais, a desilusão era latente e a retumbância do feito não seria percebida no momento.
*
Apesar de ter reaparecido nas quartas-de-final em 2006, o Calais continua amador, segue na quarta divisão e voltou ao ostracismo. Mas hoje tem uma história para contar e manda suas partidas num estádio com um dos nomes mais gloriosos do mundo: o Stade de l’Épopée, Estádio da Epopeia, em alusão à campanha de 2000. Logo em seguida, no ano de 2001, o Amiens seria vice-campeão da Copa estando na terceira divisão, mas não era a mesma coisa: o clube acabara de sair da segundona e permanecia profissional. O Calais ainda é o maior exemplo histórico para cada amador que avança até as quartas-de-final e se vê diante daquela dificuldade de caminhar um pouco mais.
*
Em 2010, quem se mira no Calais é o Quevilly, que noutros tempos, em 1968, até semifinalista foi. Ontem eles venceram o Rennes por 1 a 0 e se colocaram entre os oito melhores da Copa, na condição de últimos amadores ainda respirando no torneio. São de um local cujo nome é predestinado em seu sarcasmo: a cidade se chama Le Petit Quevilly – O PEQUENO Quevilly, numa tradução simples. Veremos se esses pequenos se fazem grandes.
*
Maurício Brum (imagens arrancadas da internet)
Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: