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Devoraremos vossos corações crus

Existem muitas formas de dividir as almas que transitam sobre a Terra e uma delas é separar as vingativas das outras. A insanidade vingativa pode ser o mais pútrido dos ímpetos. Coisa de seres doentes que perdem suas horas nos negros calabouços cerebrais, os porões onde toda a espécie de crueldades infringíveis a alguém são desenhadas. É nessa etapa, a gestação, que a vingança honra o ditado, mata a alma e a envenena. Depois disso, a sabedoria popular erra. Uma vendeta concluída é, sim, plena.
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A origem de tudo está em esperar que algo se concretize de um jeito – e não ver esse desfecho porque um terceiro influenciou. Pode ser no amor, no trabalho, no plantio de ervas alucinógenas no quintal de casa ou na reflexão sobre o voo das caturritas. Em qualquer aspecto da vida. Surge o terceiro e faz bobagem. Tem importância total ou mínima, mas está lá, e por menor que tenha sido sua ação, é contra esse terceiro e seu surgimento imprevisto que a raiva se direciona e consome os dias.
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Você já viveu esses dias. Os de dor, de espetadas no espírito, de uma sensação de impotência cuja única cura aparente está em optar ou não por aquela solução desonrosa que começa com V. Não, não é o viagra, é a vingança mesmo. Talvez comecem a vendê-la em pílulas azuis num futuro próximo. Seria mais HIGIÊNICO, mas perderia a graça. Vingança boa é aquela sangrenta, com membros decepados, violência infinita, lâminas afiadas rascando o ar e rasgando peles, muito sofrimento para se equilibrar com aquele pelo qual se passou.
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O mundo acabará cego se cobrarmos um olho do agressor por cada olho nosso arrancado? Azar. Há que se arcar com as consequências. Ou talvez o tipo de ideias que povoam minha cabeça não seja dos mais corretos, o que é bem comum. A GENÉTICA é mais clara que as regras do futebol ao mostrar que certos traços selvagens dos primeiros hominídeos são mais acentuados nuns homens contemporâneos do que nos outros. Compare o Guiñazu com o Richarlyson, por exemplo. Ricky certamente não é o tipo de pessoa que se vinga.
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Quando o Grêmio entregou, e todos sabemos que entregou, aquele jogo pro Flamengo no ano passado, tirando o título do Inter, era antes uma vingança do que um temor pela festa dos colorados. Vingança por toda uma década maldita, pelas frustrações da ruindade tricolor, pelo simples fato de o Inter existir. Vingança pelas velhas derrotas em Gre-Nais, pelas derrotas recentes e pelas que ainda virão. O Colorado teria tantos motivos quanto os azuis para fazer o mesmo, se vivesse cenário parecido. Caso a oportunidade surja, agora poderá dizer que está, além de tudo, se vingando da vingança.
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Mas há mais açúcar no sangue inimigo quando ele é arrancado num jogo direto, e com uma vitória. O destino foi especialmente simpático ao São Luiz neste Gauchão. Pôs o time de Ijuí praticamente classificado antes da última rodada, e com um jogo por fazer contra o Juventude fora de casa. Dono de miseráveis (quiçá pírricos) cinco pontos, o Ju pode ser eliminado amanhã. Basta perder. Para a conclusão do desastre, seria válido o Ypiranga e o Inter-SM empatarem e o Esportivo ganhar. Mas se goleadas extraordinárias acontecerem, basta perder, mesmo com os outros saindo derrotados, para a vaga caxiense fugir pelo saldo de gols.
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O São Luiz vai se vingar do ano passado, quando foi eliminado ao perder para o Juventude na mesma rodada final do primeiro turno – pensa o leitor mais AMENO. Também. No entanto, é outra a decepção que faz os ijuienses UNTAREM suas lanças de empalação e rumarem para a Serra no intento de atravessar as entranhas do Juventude. Os onze anos do São Luiz sem passar da primeira fase no Gauchão foram mais longos por causa do time de Caxias do Sul. E a eliminação de 2009 não é a grave. O São Luiz de 2009 era um engodo, mais ou menos como o Ju atual – não merecia os mata-matas.
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É de 2008 que se fala. O melhor São Luiz do século até ali (superado pelo atual), que passou as quinze primeiras rodadas – de dezesseis – na zona de classificação do campeonato. E na última saiu. Porque foi enfrentar o sempre forte Brasil de Pelotas no Bento Freitas e só conseguiu parir um empate. Mas principalmente porque o Juventude escancarou sua abertura final para que o São José de Noveletto metesse os gols que precisava. Com a goleada por 4 a 0 sofrida em Ijuí bem viva na memória e sendo classificado pela derrota parcial do São Luiz (que saiu levando 2 a 0 do Brasil), o Juventude amoleceu para o Zequinha como um Grêmio diante do Flamengo.
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Tinham 20 pontos, os caxienses. Iam ficando com 19, os ijuienses. E o São José subia a 22, mas tinha saldo negativo. Quando o São Luiz buscou o 2 a 2 em Pelotas, que ainda o deixava fora da zona de classificação – apesar da mesma pontuação e dos resultados mais regulares que os do Juventude, os de Ijuí tinham menos vitórias –, o Alfredo Jaconi constatou uma ansiedade desesperada. Havendo remontada em Pelotas, o Alviverde ficaria de fora, perdendo. Pairou sobre Caxias do Sul uma torcida desesperada para que a peleia do Bento Freitas terminasse de uma vez. Buscar o empate não parecia parte do pacote da noite.
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Acabaram-se Brasil 2-2 São Luiz e Juventude 1-2 São José. São Luiz e Juventude com a mesma pontuação. O São Luiz com menos derrotas, mais gols feitos, melhor saldo, ampla vantagem no confronto direto contra o Juventude, teve a melhor campanha entre os times barrados na fase de abertura do Gauchão. Teve, também, um triunfo a menos que o Ju – o primeiro critério de desempate. Filhos de éguas desdentadas, de porcas de rabo torcido, de meretrizes de beira de estrada, gritava-se por todo o Noroeste gaúcho contra o quadro de Caxias do Sul. Ou não. Mas, em Ijuí, até os gremistas abriram uma ponta de sorriso naquela final do Gauchão de 2008, nos 8 a 1 metidos pelo Inter de Porto Alegre no pífio Juventude.
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A rodada fatídica se deu aos 27 de março de dois anos atrás. Quase setecentos dias depois, os céus, que têm sido amigos do São Luiz, se abrem com um dedo divino apontando a chance da vendeta definitiva. Para matar os males e aflições. Às 16 horas, em Caxias, o ameaçado Juventude e o esperançoso São Luiz. Um diante do outro. Só eles. O povo ijuiense tem que esperar um time que entre em campo com a fúria vingativa escorrendo pelos poros. Ou isso, ou merece perder e ser eliminado outra vez pelo Juventude. Com direito a ver as mais surreais hecatombes nos resultados paralelos.
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Os jogadores mudam, mas a camisa e a loucura perduram.
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Maurício Brum
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  1. 15/02/2010 às 06:03

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