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E se sonhamos, foi com realidades

Pelas ruas derretiam pedras. Pelas copadas das árvores murchavam folhas. Dos copos evaporava o líquido. Das cervejas restava lembrança. As peles ferviam vermelhas e descascavam doloridas. O suor era puxado desde as entranhas e se lançava pra fora do corpo num impulso. Na tarde de sábado, Santa Maria e seus arredores foram arrancados do solo, levados na direção do astro-rei. O Coração do Rio Grande era a cidade mais próxima do sol em todo o planeta.
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E o jogo podia não começar. O acordo da Federação Gaúcha com o Sindicato dos Atletas colocou as partidas da última rodada do primeiro turno às quatro da tarde, mas impôs o porém: uma hora extra de aguardo para os encontros em locais com temperaturas acima de 35 graus, com possibilidade de adiamento se a fornalha perdurasse. Os aficionados que compraram ingresso para um horário seriam coagidos a esperar mais tempo. E a rodada final, que sob nenhuma hipótese poderia ter jogos começando em tempos diferentes, ganharia aspectos varzeanos.
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“Estão se preocupando mais com os jogadores, que ganham para estar ali, do que com os torcedores, que pagam para ver a partida”. O pensamento de um torcedor do Inter-SM no Calçadão santa-mariense foi a melhor reflexão feita em todo o Estado a respeito dessa situação ridícula. Ele anunciava que boicotaria a partida decisiva do Coloradinho contra o Pelotas, em protesto. Acompanharam seu movimento outras centenas de apoiadores do clube. Fugiram do jogo pela chance de adiamento, pela ressaca de carnaval, pelo calor.
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Desta vez, o público decepcionante não nasceu do preço dos ingressos. Buscando uma Baixada lotada, a direção derrubou todos os valores. Dez reais valiam a passagem para alentar o Inter desde as ensolaradas gerais, curiosamente o setor com melhor visibilidade para o gramado no Presidente Vargas. Mas, a uma hora do apito inicial, o dinheiro comprava o direito de superar as modernas catracas digitais do estádio, subir os degraus e vislumbrar o igualmente novo placar eletrônico da cancha apontando 39 graus.
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Na geral, com o sol batendo na cara, o rubro tingindo as peles mais claras e desprotegidas e o suor a tomando o corpo para desfazer qualquer resquício de dignidade, os 39 graus eram piada. Estava mais quente, não se questionava. As poucas nuvens que se prestavam a tapar o sol calcinante eram recebidas com gritos tão entusiasmados quanto os que, mais tarde, saudariam os gols do time local.
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Então, o placar foi desligado. Há uma determinação vigente no futebol brasileiro, que alguns tentam vender que se trata de regra da FIFA, mas não passa de regulamento nacional, que proíbe o início de partidas de futebol em estádios com cronômetros OSTENSIVOS em algum canto – para evitar pressão da torcida sobre os árbitros em relação ao tempo de jogo. Talvez ontem essa regra tenha sido estendida para os termômetros, fazendo-os sumir da visão do público e da imprensa, num intento da Federação de considerar apenas as medições “oficiais”.
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E as medições oficiais devem ter sido feitas usando equipamentos VICIADOS, com aguinha vermelha imitando mercúrio e parando no máximo na altura de 34 graus. Assim, ficavam impedidos os adiamentos e não se criava aquele cenário caótico de partidas começando em horas diferentes. Um jogador desmaiando a gente dá um jeito, mas aguentar o choro dos prejudicados é mais difícil, certamente pensou a FGF.
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Não foi só em Santa Maria, onde o termômetro oficial marcava 32 graus, que os registros soaram estranhos – por todo o Rio Grande há anotações de temperaturas superiores aos 35 legais. Como a liminar era tão ridícula que merecia ser desrespeitada, poucas vozes se levantaram contra a decisão de começar a rodada inteira as quatro da tarde. No Centro do Estado, jogava-se o mais contrastante dos embates proporcionados por esse primeiro turno de desequilíbrio: o Inter-SM dos 5 pontos ganhos recebia o Pelotas das 15 unidades, e ambos tinham possibilidades quase iguais de seguir ou morrer no Gauchão.
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Ao fim dos noventa minutos, morreriam os Lobos. Que saíram ganhando com um gol de pênalti aos 3 minutos. E depois cansaram, puseram as línguas de fora e secaram como carnais de couro ao sol santa-mariense. Mais acostumado ao caldeirão satânico que é o seu POVOADO, o Inter-SM dominou as ações. Remontou, meteu um terceiro e, no ritmo que impunha, quase deu, ele próprio, um baile de carnaval. O banco do Pelotas era desespero. Jogadores perguntando como estava o resto da rodada, incredulidade pelo resultado catastrófico e pelas combinações infelizes.
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O resto da rodada revelou-se bastante anormal: pela primeira vez no turno, a Chave 1 conseguiria fazer mais pontos que a outra num mesmo dia. Só dois times do grupo mais forte, o 2, lograram triunfos na tarde de sábado – o óbvio Inter de Porto Alegre, que enfrentou o rebaixável Esportivo, e o Veranópolis, maior ameaça aos pelotenses. Em Erechim, o Ypiranga sucumbia para o VEC. Um resultado que classificava os veranenses no lugar do Pelotas e, no outro grupo, eliminava os erechinenses (atuais campeões do interior), favorecendo o Juventude.
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Com ganas de atravessar seus forcados nos corações caxienses e devorá-los com sanguinolência, o São Luiz saiu perdendo por 2 a 0 para o Ju pelo puro gosto de recuperar, e deixou o campo do Alfredo Jaconi com um empate por 3 a 3. O Juventude teria caído se o Ypiranga empatasse miseravalmente em seu estádio, cenário que se concretizava até os 90+1 minutos de jogo. Então o Veranópolis encontrou o rumo dos novelos e meteu o gol vitorioso que cambiou as muitas vidas da rodada. O Pelotas punha as mãos na cabeça e sua numerosa torcida cantava já sabendo que todas as cinco vitórias do seu time se comparavam àquele triunfo de Pirro na Batalha de Ásculo.
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Noutra ponta, o Internacional de Santa Maria ouvia as cantorias satisfeitas dos seus amantes. Apenas duas vitórias, o Interzito teve no primeiro turno, contando aquela. E passava de fase. Sustentado na garupa de um grupo medíocre que se revelou incapaz de vencer na maior parte do tempo. Mas com motivos para festejar por ter mostrado evolução. Aquele Inter-SM do início do Gauchão, um time trágico que só passaria de fase arrancando resultados a fórceps e com muita sorte, que não merecia ilusões e não escaparia da vergonha mesmo se classificando, aquele time não é este.
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Este Inter-SM das duas últimas rodadas, com outro treinador, alterado praticamente inteiro em sua formação em relação àquele que começou o campeonato, tem boa qualidade. Ganhou do Pelotas por méritos que foram mais seus do que do cálido da tarde. Se o torcedor do Inter-SM é mesmo um ilusionado, também é verdade que o time de antes não criava motivos para se sonhar. Esta equipe de agora, em contrapartida, teve pouco tempo para se provar merecedora de ilusões. Fez isso quando as conquistas já eram realidade.

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Última rodada:
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Esportivo 1-2 Internacional
Grêmio 2-1 São José
Porto Alegre 2-0 Universidade
Internacional-SM 3-1 Pelotas
Novo Hamburgo 1-1 Santa Cruz
Avenida 2-2 Caxias
Juventude 3-3 São Luiz
Ypiranga 2-3 Veranópolis
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Assim acabou a desparelha primeira fase do primeiro turno:
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Pontos: Chave 1 52-127 Chave 2
Vitórias: Chave 1 13-38 Chave 2
Gols: Chave 1 81-136 Chave 2
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Classificação geral, seguindo o esquema de sempre. Azul para os times da Chave 1, vermelho para os times da Chave 2; negrito para os classificados e itálico para os rebaixados:
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1º Internacional – 22 pontos
2º São José – 19 pontos
3º São Luiz – 18 pontos
4º Veranópolis – 17 pontos (5 vitórias, saldo 9)
5º Grêmio – 17 pontos (5 vitórias, saldo 7)
6º Pelotas – 15 pontos (5 vitórias)
7º Caxias – 15 pontos (4 vitórias)
8º Santa Cruz – 14 pontos
9º Novo Hamburgo – 8 pontos (2 vitórias, saldo -4)
10º Internacional-SM – 8 pontos (2 vitórias, saldo -8)
11º Universidade – 7 pontos
12º Juventude – 6 pontos
13º Ypiranga – 5 pontos
14º Porto Alegre – 4 pontos
15º Esportivo – 3 pontos
16º Avenida – 1 ponto
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Mais vitórias: 7 (Internacional)
Menos vitórias: 0 (Avenida)
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Mais empates: 3 (São Luiz, Caxias, Juventude)
Menos empates: 0 (Pelotas, Esportivo)
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Mais derrotas: 7 (Esportivo, Avenida)
Menos derrotas: 0 (Internacional, São Luiz)
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Melhor ataque: 20 gols (São Luiz, Veranópolis)
Pior ataque: 7 gols (Esportivo)
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Melhor defesa: 6 gols (Internacional)
Pior defesa: 22 gols (Esportivo)
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Melhor saldo: +13 (Internacional, São Luiz)
Pior saldo: -15 (Esportivo)
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Artilheiro: Eraldo, 10 gols (São Luiz)
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Mata-matas (vulgo CAMPEONATO METROPOLITANO):
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17/02 – 19:30 – São José vs. Inter-SM
17/02 – 21:50 – Grêmio vs. Veranópolis
18/02 – 19:00 – Novo Hamburgo vs. São Luiz
18/02 – 21:50 – Internacional vs. Juventude
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Maurício Brum (a frase do título é de Juan Cunha, poeta uruguaio)
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