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Papa essa, Brasil

Esqueça o Banco Imobiliário, o Pôquer e o Xadrez. O jogo mais estratégico do globo é o Curling. Quem não associa o nome à criatura pode se acostumar ao esporte mirando as Olimpíadas de Inverno deste ano, que estão rompendo o tradicional tédio dos dias canadenses e se estendem em Vancouver até 28 de fevereiro. É uma versão da bocha, porém jogada sobre o gelo. E o Brasil precisa montar um time forte disso.
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O Curling tem um ROMANTISMO implícito que começa na MOLDAGEM dos pedregulhos necessários para se praticá-lo. Existe um ritual que vai além de matar um boi, arrancar sua bexiga e soprar até encher de ar, como nos esportes impudicos que usam pelotas. No Curling, os heróis arremessam FRAGMENTOS de granito. Um tipo quase místico de granito, que, segundo os sábios dos bancos dos pubs escoceses, só é encontrado num lugar do planeta.
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É ali, na costa caledoniana, arredores do CONDADO de Ayrshire, que se ergue dos mares como um GALO na cabeça de NETUNO a ilha de Ailsa Craig. O granito vindo dali, dizem os pensadores dos bares após alguns canecos de Guinness, absorve pouca água, resistindo melhor aos processos erosivos – numa pedra porosa, a água do gelo derretido entra, expande-se quando congela de novo e vai, pouco a pouco, rachando sua estrutura. Além de tudo o tal granito é mais brilhante e BONITINHO, acrescentam.
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Em homenagem ao nome do pedaço de terra de onde é retirado, o granito especial passou a ser chamado de ailsite. Os PEDREIROS de Ailsa Craig orgulhavam-se do monopólio mundial (?) na produção de rochas de Curling e picaretavam dias e noites inteiras para encher de bochófilos-do-gelo todos os cantos da esfera que chamamos de mundo. Nos princípios dos anos 90, Ailsa Craig foi declarada território de interesse científico, novas explosões nas escavações foram proibidas e a população de humanos e ratos foi zerada, favorecendo a proliferação de aves exóticas como o papagaio-do-mar.
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Muitas pedras ainda são facilmente retiráveis, e os fabricantes permanecem autorizados a carregá-las de lá para fazer novas peças para o Curling – uma necessidade pungente desde que o esporte voltou a ser olímpico depois de 74 anos, em 1998, e se popularizou (?). Não foi descoberto granito tão bom para o jogo em nenhum outro lugar do planeta além das ilhas britânicas. Algumas pedras são feitas com material extraído de uma região do País de Gales, mas se estima que até 70% das rochas de Curling em uso saíram de Ailsa Craig.
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Daí que temos um problema SÉRIO para alçar o Brasil aos voos altos internacionais. O Curling é para quem tem gelo – e dinheiro. Uma única pedra pode custar mais de mil dólares, e um jogo precisa de dezesseis delas. Mais uma pista congelada com dois alvos pintados. Na perspectiva da bocha, o BALINHO do Curling é o alvo, e quem mais aproxima sua pedra do centro soma tantos pontos quanto tem de granitos por ali, em relação ao inimigo. Ao cabo de dez “ends”, vence quem somou mais unidades.
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Há, no Curling, táticas mais intrincadas que o 3-6-1 de Silas. Como SOEMOS fazer com o futebol, podemos dividir entre força e arte. Pragmatismo e plasticidade. Quem prefere a beleza de várias rochas enviadas na direção do alvo geralmente se dá mal como um driblador despreocupado. Levam um carrinho violento de pedras lançadas em altas velocidades com o único objetivo de ESPALHAR tudo. Aqueles com a ideia de fazer resultados, que usam pedras longe do alvo para montar retrancas na intermediária, esses protegem seus pontos e saem gloriosos.
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Isso tudo com a participação dos VARREDORES, o verdadeiro CHARME do esporte. Seres cuja função é literalmente ENXUGAR GELO, deslizando à frente das pedras lançadas e esfregando suas vassouras no intento de reduzir o atrito do chão e dar velocidade à rocha. Pobres homens que jamais poderão negar à esposa uma varrida em casa, tão acostumados que estão ao OFÍCIO. Potências do Curling? No momento, o Canadá, atual campeão olímpico, que agora joga em casa. Vencê-los parece ser a ilusão de todos.
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Mas a Noruega também é boa. E, hoje, quase fez reais esses sonhos impalpáveis. Depois de sair perdendo e recuperar, os noruegueses levaram o jogo para o end extra e, até a última pedra, venciam. Paralisavam as respirações de Vancouver e propunham o silêncio absoluto. Até a última pedra. Não ganharam porque o Canadá tem o Pelé dos granitos, um sujeito careca chamado URSO Martin, que lançou uma pedra que deu quatrocentos e dois rodopios, fez trinta e sete curvas, e parou bem no alvo – mas encostaram a ponta dos dedos no resultado impossível.
C*
Dotados de uma fanfarronice extrema herdada dos vikings beberrões, os noruegueses vestiam calças carnavalescamente multicoloridas. Enxadrezadas em cinza, branco, vermelho e azul. Uma COISA que só pode trajar quem está muito seguro de si. Há que se derrotar esses exibidos. Montar um time só para isso. Desde 2007, o Brasil é o único país americano, além do próprio Canadá e dos Estados Unidos, a ter uma equipe regular de Curling. Vivem todos em solo canadense e se orgulham de terem enfrentado os estadounidenses – e perdido de pouco – numas classificatórias mundiais.
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Vamos investir no Curling. Construir pistas de gelo em Cuiabá, Manaus e Palmas, essas terras reconhecidamente invernais do nosso país. Vamos transformar esse esporte no sonho das crianças. E um dia venceremos a Noruega. No futebol, os noruegueses compõem uma das duas únicas seleções do planeta a ter retrospecto positivo contra a Seleção Brasileira. A outra é a Hungria, que já foi grande. A Noruega, porém, jamais fez muita coisa com a bola nos pés. E o Brasil, dono do pelota-pata, NUNCA derrotou a Noruega num jogo de futebol. Já provamos nossa incapacidade de vencê-los em nosso TERREIRO. Precisamos devolver no esporte deles. Vamos montar um time bom de Curling.
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Você que tem pouca NOÇÃO do esporte, comece por aqui. É pela honra nacional.
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Maurício Brum (fotos tiradas do site oficial das Olimpíadas)
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  1. Diego
    18/02/2010 às 03:15

    Curling é o esporte mais tático dentro do bojo de desportos mundiais. É tão complexo que requer bons conhecimentos matemáticos e físicos, bem como uma ampla noção de espaço e força.(ainda desejo, mesmo assim, jogar Curling)

    Não é um esporte JOGÁVEL por qualquer um, duvido muito que o Brasil consiga um time competitivo de Curling (ainda mais, que pra isso tem de vencer os ‘fodásticos’ Canadenses),todavia, sonhos NS como esse mantém as pessoas felizes.

    Viva o Curling ‘sporte força (Viva l’Italia também)

  1. 01/03/2010 às 07:16

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