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Direi como crescestes

Arrastrándose a los pies de la tierra
Para conseguir un trozo de vida.
No sabía los límites impuestos
Límites de metal o papel,
Ya que el azar le hizo abrir los ojos
Bajo una luz tan alta,
Adonde no llegan realidades vacías (…)”
*
O São Luiz já não é. O time dos números invejados, da invencibilidade de oito rodadas, do artilheiro Eraldo e das rimas improvisadas, acidentais, saiu do Campeonato Gaúcho de Futebol nesta triste noite de quinta-feira. Ao menos, saiu do seu primeiro turno, que era o turno são-luizense. O São Luiz já não é um invicto, uma defesa invencível, um ataque infalível. Não é mais, como até o ano passado costumava não ser.
*
Por onze anos o São Luiz se distanciou de uma classificação no Gauchão. Era de 1999 a última passagem de fase. Em meio a essa mais de década sem chegar às etapas avançadas da elite, houve tempo de ser rebaixado e estagiar por dois anos na Segundona. Após a fartura dos anos 90, que em 1995 tiveram uma classificação às semifinais e simbolizaram a melhor campanha do clube de Ijuí na história do campeonato, veio a mediocridade.
*
Teria o São Luiz nascido para a modorra? – questionou-se uma geração inteira desenvolvida sob a pior das sinas do futebol, a de nunca aparecer. A pior das sinas e aquela que forja os torcedores mais apaixonados, que vão pelo estádio na ânsia de ver a equipe atuar, e têm os três pontos contra um adversário interiorano como o maior troféu do mundo. Apoiava-se o São Luiz para preservar uma tradição, para dizer que ninguém batia o rubro dentro do 19 de Outubro e para ter a glória de estar em último lugar na tabela e chamar os oponentes de “timinho”.
*
Nesses anos 2000, para vencer e pensar em taças reais, mais valia cair para a Segundona. E nem os camelôs sediados atrás das gerais do estádio queriam voltar à Segundona, mesmo que o maior número de vitórias do São Luiz no segundo escalão fosse propício à venda de bandeiras. Numa certa tarde de 2010, este ano lendário sobre os quais nossos netos ouvirão, o quadro ijuiense passou de fase, enfim. Traumatizado por algumas campanhas boas que bateram na trave, optou pelo modo arrasador de se conseguir resultados e fez os números conhecidos por todos.
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Hoje, nos acréscimos da segunda metade das quartas-de-final em Novo Hamburgo, a lógica do mundo no último decênio se inverteu definitivamente. Era o São Luiz o poderoso da vez a ser apupado como “timinho” pela torcida de uma equipe inferior. Timinho porque perdia tempo, distribuía pancadas, o derradeiro recurso de uma equipe sem chances, e via o cartão vermelho. E, claro, perdia. Por um a zero, placar dobrado a seguir, quando não mais importava.
*
Com sete gaúchos em campo, uma raridade, os ijuienses iniciaram melhor, o que não era mais tão raro assim. Eraldo meteu um pelotaço no travessão aos três minutos, e perdeu depois mais um par de chances. O São Luiz tocava melhor a bola e criava mais, mas a certa altura escancarou sua defesa e levou um gol do sósia de Bento XVI, Gustavo Papa. No atordoo da desvantagem, a melhor qualidade são-luizense foi esquecida por seus próprios jogadores. O toque rasteiro que vinha funcionando deu lugar a balões e ligações diretas favoráveis a um oponente – agora – defensivo e – sempre – pior tecnicamente.
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Chiquinho, o mascate de sonhos, voltou da sua longa lesão e entrou no segundo tempo. Devolveu a cadência olvidada pelo São Luiz mas não teve uma chance decente de mostrar seu poder cobrando faltas. Marcelo Oliveira sentiu a perna num chutão e, com dez minutos por disputar mas sem substituições restantes, os de Ijuí viram sua zaga ter um homem fazendo número. Foi por não ter como correr, não pela rudeza intrínseca ao seu sangue bajeense, que Marcelo Oliveira fez aquela falta no fim e viu o vermelho.
*
Até ali, os ijuienses haviam insistido de todas as formas e, pese a seu favor terem tido o mais positivo ataque do Rio Grande na fase anterior, não acertaram as redes. Levaram 2 a 0, mas foi o primeiro gol que tirou sua tranquilidade e encaminhou sua queda. Como seus companheiros da Chave 2, a mais forte na fase dos pontos, o São Luiz padeceu diante das eliminatórias – e só o Inter, ainda o maior favorito a ganhar o turno, levou às semifinais o estandarte daquele grupo.
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Restam o improvável Inter de Santa Maria, a óbvia Dupla Gre-Nal e, também, o não-tão-surpreendente-assim Novo Hamburgo. Que foi o clube mais gastador do Estado entre os interioranos, excetuada a dupla Ca-Ju, mas não tem tanta bola quanto deveria – embora na jornada de hoje tenha demonstrado uma efetividade de invejar, metendo no arco duas das suas três oportunidades reais. O São Luiz viveu por noventa minutos a conclusão do plano de jogar uma partida de fase adiantada. “Era demais pra eles” e “nem todos os times nascem para triunfar” foram dois dos pensamentos ouvidos depois da partida.
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Aqueles torcedores que se desacostumaram a um rubro brigando por coisas grandes entre os grandes devem ter concluído a mesma coisa – agora o São Luiz inicia seu declínio, com jogos dentro da chave mais forte no segundo turno. A disputa pelo título do Interior tem chances de não frutificar e nem mesmo uma nova classificação pode vir. Para alguns a derrota de hoje foi como se todos os onze anos não tivessem valido a pena e a campanha invicta só servisse para aumentar a dor da desilusão – ou a raiva contra a fórmula. Estes creem na existência de limites, que o São Luiz teria insistido em desrespeitar.
*
Os olhos embaçados pelo resultado impedem que se veja o crescimento do clube, real como um gráfico de lucros ascendentes: subiu em 2005, sobreviveu a 2006 e a 2007 ficando uma posição acima da zona de rebaixamento, deixou escapar classificações na última rodada em 2008 e 2009 (sendo o primeiro ano melhor que o segundo), e enfim superou uma primeira fase em 2010.
*
Desta vez, um tento do Papa derrubou o time que parecia eleito por Deus. Mas a história recente grita que o São Luiz não foi parido para o marasmo – e que Ijuí não perdeu o velho mapa que leva aos prazeres proibidos das vitórias.
*
Pero si la ira, el ultraje, el oprobio y la muerte,
Ávidos dientes sin carne todavía,
Amenazan abriendo sus torrentes,
De otro lado vosotros, placeres prohibidos,
Bronce de orgullo, blasfemia que nada precipita,
Tendéis en una mano el misterio.
Sabor que ninguna amargura corrompe (…)”
*
Maurício Brum
(os trechos são do poema Diré cómo nacisteis, de Luis Cernuda. Fotos: eu, Valdir Friolin/ClicRBS)
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  1. Guto
    19/02/2010 às 10:00

    que tristeza…

  2. cesar
    19/02/2010 às 15:21

    E o inter sm !!!!

  3. 20/02/2010 às 15:30

    O Novo Hamburgo cresceu na hora decisiva. DÁ-LHE NOIA!

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