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Diluvios para el recuerdo

Já disseram que alguns componentes são indispensáveis aos jogos lendários de futebol. Um deles é o poder das equipes em confronto, o outro é a importância da partida, há ainda a dramaticidade, as alternativas no marcador e, por fim, a chuva. Isso mesmo, a chuva. Em todo jogo histórico chove, como se os céus derramassem lágrimas de dor e alegria.
(Odir Cunha)
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Todos queriam ter estado lá. Daqui a meio século, todos terão estado lá. Qualquer hamburguense com sessenta anos ou mais, sentado diante da lareira numa noite invernal, contará para os descendentes que esteve no Beira-Rio naquele domingo, 21 de fevereiro de 2010. Será daqueles jogos em que, se cada um que dissesse ter presenciado realmente estivesse no estádio, o público total chegaria às margens do milhão. Um momento único, para ELEITOS verem. Até mesmo os colorados, para quem isso foi uma dor menor, vão desejar contar anedoticamente que viram in loco como um time de fora da capital eliminava o seu Inter com um gol no fim.
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O Novo Hamburgo se inspirou na camisa retrô que vestia, uma homenagem aos tempos em que o clube se chamava Floriano e emendou cinco vice-campeonatos estaduais, e meteu-se numa final contra todos os prognósticos. Mais: contra o grande time gaúcho da atualidade, o único representante da PROVÍNCIA na Copa Libertadores. Fora de casa. De virada. Com golaço nos acréscimos do segundo tempo. E sob chuva. Os Galácticos do Vale, apelido pelo qual o Noia foi chamado em princípios da temporada e caiu em desuso após os resultados medianos, decidiram fazer dos mata-matas o seu terreno de consagração.
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Jogos do Internacional dentro de seu estádio, valendo pelo Campeonato Gaúcho, repetem situações que os secadores gremistas já se acostumaram a aceitar: o adversário tem alguma chance enquanto o placar está nulo. Se os colorados saírem em vantagem, o 1 a 0 equivale ao apito final do árbitro. Daquele CAPÃO não sairão mais lebres e nem mesmo bugios. Estava demorando o gol do Inter, ontem. Os hamburguenses resistiram com bravura pela primeira metade da partida e se disseram poderosos o bastante para levar o placar em branco até o fim.
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O alvirrubro criara pouco entre o começo do embate e o momento em que Bruno Silva pegou uma sobra pelo canto da área, gambeteou os marcadores e deu um tiro do tipo que só as DEIDADES do arco defendem: rasteiro, entre o GUARDA-VALAS e a trave. Juninho está longe do nível divino e não pôde evitar o tento do Inter. E ali acabou o jogo, começavam a digitar em seus notebooks os cronistas presentes ao estádio. Uns gremistas mudaram de canal. Os colorados, em frente à tevê, assistiam ao avançar do cronômetro esparramados e comentavam sobre a partida do meio da semana, pela Copa, frente ao Emelec.
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“Tem Gre-Nal domingo”, os locutores previam com alguma convicção enquanto o jogo corria, anunciando a final do primeiro turno. O Inter encaminhando-se para abocanhar mais uma metade de Gauchão, já que fortíssimo em casa e imbatível em qualquer lugar. E aí, quando estávamos todos preparados para o óbvio, o natural, quando já pensávamos ser melhor assistir a algum jogo de Curling pelas Olimpíadas de Inverno, o Novo Hamburgo nos traiu a todos e berrou aos ventos, às quatro estações e, principalmente, às nuvens plúmbeas que passaram a cuspir chuva, que a noite era para a história.
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Num pênalti discutível, mas qualquer pênalti a favor de um interiorano contra um capitalino SEMPRE será bem marcado, os visitantes empataram a partida. Espanto apenas moderado no Beira-Rio na conversão de Paulinho. Ainda que o 1 a 1 restasse aquém da linha das expectativas mínimas da torcida, não representava uma hecatombe. Haveria pênaltis, haveria pernas de hamburguenses tremendo frente ao rugido que o estádio solta mesmo semi-vazio, e haveria pelotas isoladas junto com as aspirações do Noia.
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Foi assim em JUNHO de 2004, em tempos nos quais o Gauchão durava mais para o interior. O Glória de Vacaria, do artilheiro Sandro Sotilli, de pontos e mais pontos em grupos variados do estadual, segurou um 2 a 2 com o Inter nas semifinais do campeonato, sobre as orilhas do Guaíba. Destruiu-se nas cobranças de pênalti: Sotilli, autor de 27 gols nas jornadas anteriores – número que o converteu no maior artilheiro de uma edição do Gauchão no século XXI até agora –, errou sua batida, e assim o fizeram os companheiros. O Inter anotou 4 a 1 desde os onze metros, avançou para o título, e a façanha do Glória não existiu.
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Em Porto Alegre, neste fim de fevereiro de 2010, seguia o duelo num empate cuja mudança já não era crível – considerando o futebol do Inter. Mas havia o ímpeto do Novo Hamburgo. As fumaças saindo das ventas, os olhos avermelhados de sangue e as chuteiras a pisotear a relva como cascos de cavalos maltratando as campinas. Soltavam chispas, as travas dos hamburguenses. Bufavam, os enviados do técnico Gilmar Iser. Uns insanos capitaneados por MICHEL, talvez o mais desprezado do grupo de campeões mundiais no Inter de 2006, que sentira a doçura de derrotar o ex-time em Porto Alegre vestindo a camisa do Juventude e se dispunha a deixar a vida para voltar a provar desse MEL.
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Depois disso não há o que se contar. É tudo lenda. Daqui a meio século, o milhão de pessoas que “estava” no Beira-Rio vai falar de um chute a mais de cem quilômetros por hora, desferido de uma distância de mais de cem metros, que não poderia ser repetido pelos próximos cem anos. Chicão é o nome para a antologia. Apelido no aumentativo, hiperbólico como a chuva que os relatos transformarão em temporal. Aos quarenta e sete do segundo tempo. Aos noventa mais dois minutos da contagem contínua. Chicão, Chicão para a memória hamburguense, Chicão para todos os tempos e, no instante, Chicão para a classificação do Noia e para a débâcle alvirrubra.
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Golaço, aço, aço, aço, aço, e 1 a 2. O Inter atuou com reservas, preocupado que está com a estreia na Libertadores e prejudicado que foi – como o Grêmio, em 2009 – pela tenebrosa distribuição de datas feitas pela Federação Gaúcha de Futebol. Mas o que ficará para o futuro não é a escalação de Muriel embaixo dos paus ou de Leandro Damião tentando infernizar a área visitante. Estavam ali as camisas. Estará para sempre na tabela que, ao fim do 52º dia do décimo ano do vigésimo primeiro século da nossa contagem de tempo, o resultado das semifinais do turno na capital do Rio Grande foi Internacional 1-2 Novo Hamburgo.
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Todos queriam ter estado lá. Os torcedores, vendo. Os demais times interioranos, jogando. Afirmar a ressurreição da Chave 1 na fase eliminatória ou a sua própria força que estava ainda ofuscada foram coisas pequenas na noite do Noia. Eles deram ao interior não-caxiense um orgulho anômalo. Dizer que o interior é do Novo Hamburgo, agora, é fazer uma daquelas generalizações autistas que certos jornalistas adoram. Os gremistas do interior, próximos adversários do Anilado, querem que os hamburguenses se explodam – e os colorados, também, embora terminem obrigados a torcer por eles durante os RITOS DA SECAÇÃO da final.
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No entanto, o futebol do interior, como ENTIDADE ANÍMICA, deveria torcer pelo velho Floriano. O Novo Hamburgo é o clube além da Dupla Gre-Nal que mais vezes disputou a elite do Gauchão. Em 2010, mostrou-se copeiro nos mata-matas e revelou uma predileção por derrubar séries invictas. O São Luiz, eliminado nas quartas-de-final, não havia perdido no ano antes de cruzar com o Noia no Estádio do Vale. O Inter, derrubado de ontem, estava sem perder pelo campeonato estadual desde abril de 2008.
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A final do turno será no Olímpico contra o Grêmio. Os tricolores carregam a mais assombrosa das séries sem serem superados: não são derrotados em seu estádio há 45 jogos (527 dias), e estão a uma partida de igualar o recorde nacional de invencibilidade como mandantes. O último dos feitos hamburguenses nessa metade do certame pode ser o maior deles – e render uma taça. As epopeias futebolísticas vêm de mãos dadas com a chuva. No próximo domingo, se o firmamento estiver gris sobre Porto Alegre, o improvável estará prestes a acontecer novamente. Corra para o estádio. Todos vão querer estar lá.
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Maurício Brum (foto: Jefferson Botega/ClicRBS)
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  1. 22/02/2010 às 11:48

    É a vitória do interior, DÁ-LHE NOIA!

  2. chico
    22/02/2010 às 21:58

    Que texo foda!

    Uma coisa é certa, esse Chicão mereceu, porque ele tinha dados já usn 3 chutes perrigosos no gol , antes de acertar no final da partida.

  3. Sancho
    24/02/2010 às 19:10

    Brum,
    O Grêmio perdeu para Cruzeiro, Porto Alegre e Lajeadense no Olímpico pela FGF 2009.
    Abraço.

    • Maurício Brum
      24/02/2010 às 19:40

      Sim, eu conheço essas derrotas. Mas se formos entrar na discussão sobre elas contarem pra estatística oficial ou não, é debate até o fim do século, hehe

      Sou da posição (compartilhada com a maioria) de que, por mais que se insista que a Copa FGF é um “campeonato de profissionais”, nem Grêmio e nem Inter inscrevem os seus, e é reconhecido por todos que não são de fato “o Grêmio” e “o Inter”, mas representações de juniores/aspirantes deles. É diferente de escalar uma equipe reserva no Gauchão, por exemplo, onde os nomes principais estão inscritos e atuam, e os suplentes são uma opção esporádica/temporária.

      Respeito a ideia de quem pensa diferente, mas acho que considerar jogos contra o Grêmio B ou o Inter B na estatística de confrontos contra os dois clubes (sem nem botar uma observação) é ranço de interiorano que quer enriquecer seu histórico de jogos contra capitalinos. Desconsidero, portanto, qualquer resultado obtido na Copa FGF para o histórico da Dupla (e de quem mais venha a utilizar equipes de notável FALSIDADE). A maior prova de que a participação da Dupla ali é um arrego da federação pra gurizada de Gre e Nal treinar é que o Inter não pôde exercer seu direito, garantido por regulamento, de disputar a Recopa Sul-Brasileira em 2009.

      O Grêmio tem uma invencibilidade de 45 partidas no Olímpico. Os aspirantes dele… nem me importo (e lamento que atrapalhem a luta dos times do interior pela taça do segundo semestre). Abraço.

  1. 01/03/2010 às 07:16

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