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Pequeno tratado alquímico sobre a conquista de corações

Há umas cinco pedras na casa, aquele alvo pintado na pista de Curling, mas bem parecem ser quarenta e nove os granitos. A física, a matemática e a geometria comprovam que é impossível fazer uma curva capaz de obter aqueles pontos para o Canadá. Kevin Martin, o capitão canadense, tem o martelo – a chance de atirar a derradeira pedra. Contraria a ciência e mete o ponto. E vence. E vence. E só vence.
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Foi assim durante todo o torneio de Curling das Olimpíadas de Inverno. Da estreia, contra a Noruega, à finalíssima, diante da mesma Noruega, o Urso Martin e seus três comparsas venceram de forma imparável. Onze partidas, onze triunfos. A primeira equipe de Curling da história do mundo a superar um torneio internacional tão longo com cem por cento de aproveitamento. Tudo isso dentro de casa, em Vancouver, numa campanha pelo ouro olímpico.
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O Curling, tido como algo digno de ser exposto como ARTIGO DE CIRCO e depreciado por ESPORTE DA VASSOURINHA em terras tropicais, proporcionou alguns dos momentos mais mágicos das Olimpíadas que se encerraram hoje. Partidas decididas na última pedra, estratégias intrincadas e cantorias quentes de um público que, nesse jogo, tradicionalmente se mantinha SÓBRIO. As transmissões brasileiras se esforçavam em explicar com detalhes cada MINÚCIA das regras para a assistência leiga.
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E por toda a parte lia-se comentários oscilando entre a incompreensão por aquilo ser um esporte olímpico e o fascínio por aquela coisa desconhecida que se revelava interessante. Nas redes sociais, surpreendentemente não eram poucos os que se diziam novos fãs do Curling – às vezes com um pouco de vergonha. Riam das calças norueguesas, admiravam a beleza das musas suíças – que se quedaram sem medalha – e se espantavam com as pedradas improváveis dos skips, os capitães de cada time, que geralmente lançavam seus tiros no fim de cada rodada das partidas.
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No Canadá, estouravam como milho-pipoca novos focos de aficionados que jamais suspeitariam gostar daquilo. E a nação ao extremo norte da América tem tradição larga no assunto. Esse ouro ganho agora representou o bicampeonato olímpico para o país, sendo que a equipe é completamente diferente da que vencera em 2006 – há tantos times de Curling no Canadá que a representação nacional é definida através de seletivas realizadas no ano anterior aos Jogos, e os medalhistas de quatro anos atrás não lograram êxito na tentativa de repetir o feito.
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Existe ainda o Brier, uma espécie de Campeonato Canadense de Curling, desde 1927. Como explicar, entonces, esse súbito interesse do povo nascido sob as folhas do bordo? E os respingos mundiais desse incremento na audiência dum esporte do qual dificilmente se ouve falar entre as Olimpíadas? Pelas vitórias do Canadá, sua campanha de perfeição inédita, e por Kevin Martin. Kevin Martin não escondia sua calvície com uma cartola, mas, se usasse, não tiraria dela apenas coelhos – arrancaria dali a Arca de Noé inteira a golpes de granito.
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Em certos momentos não despontava diante dos olhos destreinados qualquer possibilidade de se pontuar ou evitar maiores escores inimigos. E mesmo assim o Urso se arrastava sobre o gelo, soltava a pedra, e víamos boquiabertos suas curvas e seus ângulos de batida capazes de destruir qualquer aspiração adversária. No vídeo, um lance que perdeu o adjetivo irrealizável durante algum torneio doméstico de Curling no ano passado.
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Deve ser mais ou menos o sentimento que tinham, no futebol, os que viam Pelé jogar. Um craque no time nos dá a esperança de que pode decidir um confronto a qualquer momento. Um mito, porém, oferece a certeza de que VAI fazer algo grandioso. A partir da vitória tirada da Grã-Bretanha por Martin usando a última pedra do último end, ainda pela primeira fase, a imprensa de Vancouver mudou o tratamento dado ao time. Dali em diante, era Kevin Martin, não “o Canadá”, quem permanecia invicto.
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O público canadense, redescoberto em sua paixão pelo Curling, comparava Kevin Martin a seres divinos. O mais modesto se contentava em exigir que o Urso assumisse como Primeiro Ministro. Quatro vezes vencedor do Brier canadense, primeiro capitão da história do esporte a ganhar todos os Grand Slams de Curling que há, vice-campeão olímpico em 2002 e campeão mundial em 2008, Kevin Martin pôs ontem o 2010 no seu retrospecto como o ano da consagração máxima. Ouro nas Olimpíadas.
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Quiçá Martin, que ganha a vida vendendo artigos de Curling, não seja o maior curler da história – apesar de os resultados do seu time o serem. Ainda assim, chegou a essa condição para grande parte do público planetário que desconhecia o jogo. Pelos próximos quatro anos, em quase toda a Terra, não se verá um único lance de Curling ou se lerá uma bendita notícia sobre a bocha no gelo. Mas desta vez foi um ídolo, e não a simples curiosidade das pedras e vassourinhas, que capturou os interesses gerais.
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Na reação de combustão que é o poder de encantamento dentro do esporte, o combustível “vitórias” se soma ao comburente “atleta mítico” para gerar um “time dos sonhos” e um “público apaixonado”. O futebol, ao menos por aqui, já não precisa se mostrar encantador. Mas as suas equipes, no anseio por resultados, são colocadas à prova semanalmente. O Grêmio de 2010 tem triunfos, chegou a erguer uma taça simbólica hoje e conta no arco com um goleiro que se empenha para se tornar um mito.
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No entanto, esse Grêmio tem se distanciado mais e mais do bom futebol e das perspectivas positivas, apesar da evolução anunciada pela esquizofrenia de Silas. O tricolor conquistou o turno do Gauchão jogando na final seu pior futebol desde o início do ano. O Novo Hamburgo foi superior, especialmente no segundo tempo. Os gremistas não chegam a se apresentar como uma equipe merecedora daquela confiança cega que produz os sonhos. Sua combustão foi uma queima incompleta. E teria cessado ao menor sinal de garoa sobre Porto Alegre.
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Mas no domingo fez sol.
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Maurício Brum (foto tirada do site das Olimpíadas)
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