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O magnata do chá que criou todas as Copas. Ou quase isso

Com quinze anos, ele assinou contrato com estrangeiros e cruzou o Atlântico para fazer a vida. Como não era um jogador de futebol brasileiro querendo a Europa, até o caminho foi inverso: para pagar sua viagem até os Estados Unidos, o escocês Thomas Lipton aceitou ser contratado para trabalhar no navio que o levaria até a América. Era 1864 e, enquanto ele saía pelo mundo para fazer fortuna, na sua Grã-Bretanha natal o football se formava. Décadas depois, Lipton seria um dos maiores incentivadores da expansão do esporte.
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O britânico gastou seis anos percorrendo solo norte-americano e, com a experiência adquirida, voltou à Glasgow natal para abrir uma loja de GENERALIDADES. Em 1888, quando o sucesso explosivo já colocava mais de trezentos pontos de venda sob seu comando em toda a Escócia e também na Inglaterra, o homem decidiu entrar no negócio de CHÁS – daí o famoso selo Lipton. Enquanto descobria em si mesmo uma ânsia pelo IATISMO e passava a disputar a prestigiosa America’s Cup, Sir Thomas importava chá do Sri Lanka, tornava-se ainda mais rico e resolvia dar um empurrão no futebol.
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Em 1909, o circunspecto BIGODUDO mandou fazer uma miniatura de si mesmo em prata, com trajes de futebolista e erguendo um GLOBO. A peça ficou conhecida como Troféu Sir Thomas Lipton, mas, para o próprio, não deveria ter esse nome – a intenção do magnata era criar um inédito campeonato mundial. Com a dificuldade de deslocamento e o ainda pequeno desenvolvimento futebolístico noutros cantos do mundo, Lipton buscou o prestígio da sua ideia convidando algumas das principais agremiações esportivas da Europa.
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A Alemanha seria representada pelos jogadores do Sportfreunde, clube existente em Stuttgart desde 1874. A Itália, escolhida para sediar o certame, contaria em suas linhas com um selecionado de Turim. Carregando a bandeira da Suíça, cruzariam os Alpes os atletas do poderoso Winterthur, campeão de dois dos últimos três torneios nacionais dali. Mas todos esses seriam COADJUVANTES de luxo. A lasquinha de PÊSSEGO que daria o charme especial à QUIMERA daquele Ice Tea, e garantiria reconhecimento planetário aos jogos, seria a participação da Seleção Inglesa.
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Mas a Football Association, todos sabemos, não era muito DADA a pôr sua “inquestionável” superioridade à prova. E com a mesma empáfia que depois teriam para abrir mão de disputar as três primeiras Copas do Mundo da FIFA (só aparecendo em 1950, quando mostrou porque se escondia e fez fiasco), os mandantes do futebol inglês se recusaram a participar do torneio do bilionário. Criar um campeonato com intenções de ser chamado “mundial” e não contar com os fundadores do esporte soava ridículo aos ouvidos de Lipton. Numa atitude que os tempos fizeram permanecer misteriosa, escolheu-se o West Auckland F.C. para defender a pátria – um time composto por trabalhadores das minas de carvão do Condado de Durham, ao norte da Inglaterra.
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O que de fato aconteceu na definição da equipe que representaria o país segue causando discussões entre os britânicos. O West Auckland, ainda hoje afastado do profissionalismo, era um clube já então irrelevante no cenário doméstico. Mantinha o velho espírito amador numa época em que premiações extra-oficiais em dinheiro se tornavam comuns nas principais equipes inglesas e não costumava disputar o título da sua liga regional. Os torcedores atuais gostam de contar que Lipton teria mandado um secretário “convidar o W.A.”, referindo-se ao Woolwich Arsenal (o Arsenal F.C. atual), e o engano das iniciais teria provocado o erro histórico.
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Mas o Woolwich Arsenal acabara de estrear na Primeira Divisão da Inglaterra. Estava longe da fama que sua versão contemporânea adquiriu e era relativamente menor que outros quadros londrinos e nacionais do período. O mais provável é que Sir Thomas, buscando uma solução que não envolvesse os clubes mais ligados à PETULANTE Football Association, tenha preferido os amadores verdadeiros. Ao lado dessa hipótese figura o fato de que um empregado de Lipton usava as suas horas vagas para apitar partidas na Northern League inglesa, onde o West Auckland jogava. Dele teria partido a indicação de que os mineiros do carvão, acostumados à dureza da labuta, poderiam não ser os mais vencedores por ali, mas não se MIXARIAM diante dos estrangeiros.
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O West Auckland aceitou a proposta. Sem qualquer dinheiro para pagar a viagem, seus jogadores caminharam a cidade inteira atrás de doações. Alguns diretores mais abastados abriram o bolso para ajudar a bancar a travessia das Ilhas Britânicas até a Península Itálica e, no dia 11 de abril de 1909, quando o Sport Club Internacional de Porto Alegre contava tão-somente uma semana de existência, tinha início a “Primeira Copa do Mundo” – denominação que jamais chegou a ser dada ao torneio, mas alguns historiadores adotaram posteriormente no intuito de CHAMAR ATENÇÃO. Um dia depois, ocorria também a primeira final de Copa do Mundo.
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Os CARVOEIROS cumpriram nas jornadas de Turim. Derrotaram os alemães do Sportfreunde por 2 a 0 na semifinal e, pelo mesmo placar, bateram o Winterthur na decisão – com dois gols antes dos dez minutos de partida, de Bob Jones e Jock Jones. Dois anos depois, o Troféu Sir Thomas Lipton voltou a ser disputado na Itália. E o West  Auckland, agora representante inglês por direito, conquistou o bicampeonato. Eliminou primeiro os suíços do Zürich, com mais um 2 a 0, e na decisão tomou seu único gol na história do torneio – o que não deve ter doído muito. Contra uma Juventus de Turim que já tinha uma taça de Campeonato Italiano em suas vitrines e jogava de local, os britânicos aplicaram 6 a 1.
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A vitória de 1911 rendeu ao West Auckland a posse definitiva da Copa, que não foi mais disputada. Assim como a Jules Rimet posteriormente, essa versão primeira de troféu mundial também SOFRERIA nas mãos do destino: em dificuldades financeiras para bancar suas viagens e hospedagens, o clube penhoraria o troféu a seguir. Um movimento de torcedores nos anos 60 juntou dinheiro para comprar o prêmio de volta. São da taça original as imagens usadas no filme A Captain’s Tale, que conta a história dos títulos e foi exibido na tevê inglesa em 1981. Treze anos depois das filmagens, porém, o GALARDÃO foi roubado da sede do West Auckland e nunca recuperado. Substituiu-se por uma réplica fiel, em detalhes e tamanho.
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Em ano de Copa do Mundo, recordar aquela que seu idealizador queria transformar na “primeira de todas” é parte do RITO. Muito antes daquilo, em 1887 e 1888, amistosos envolvendo o campeão da Copa da Inglaterra e o da Copa Escocesa foram denominados “Campeonatos Mundiais”, por absoluta falta de times no resto do planeta. Ganharam-nos o Hibernian e o Renton, ambos da Escócia – o segundo com uma real valorização da conquista, com direito a estampá-la por alguns anos em letreiros no exterior do seu estádio.
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Houve outros torneios internacionais anteriores envolvendo equipes de mais de duas nações – e de fora das ilhas britânicas. Nas Olimpíadas, disputava-se futebol desde 1900. E em 1908, na Itália, a revista Stampa Sportiva organizou um Torneo Internazionale entre clubes locais, mais o Freiburger alemão, o Parisienne francês e o Servette suíço – que saiu campeão. Realizado um ano antes da “primeira Copa do Mundo”, esse certame não ousou se denominar mundial, talvez pela ausência dos pais do futebol moderno.
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Nesta altura do texto, o leitor mais aficionado ao futebol sul-americano já está ATURDIDO e odiando essa história de chamar de torneios do mundo competições entre europeus – mesmo naqueles tempos. Mas não queiram mal a memória de Sir Thomas Lipton tão cedo. Amante do futebol, ele bem sabia que Uruguai e Argentina tinham ligas próprias desde o fim do século XIX. Propôs então uma peleja entre as seleções nacionais de cada lado, doando uma taça. Em 1905, quatro anos antes da auto-proclamada Copa do Mundo, nasceu a Copa Lipton – o mais antigo torneio da América do Sul.
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Maurício Brum (imagens tiradas todas da internet)
para Kamila, a única pessoa capaz de se embriagar com chás no mundo.
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