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Politeísmo pagão

“Vês aqueles fiéis além da campina?”, diz o ancião, apontando para os degraus onde vários se aprumam do outro lado da grama úmida de orvalho. “Frequento o templo há meio século”, prossegue, “e esses hinos devem existir há um dízimo deste período”. O velho avança pedindo para que o interlocutor ouça bem aqueles cânticos. “Eles se dizem fiéis… mas não são, não podem ser. No meu tempo nós éramos monoteístas.”
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A noite negra como a penugem da graúna já vem acompanhada dum frescor que nada tem de veraniego. As folhas vão tendo a vida sugada conforme as horas passam e o seu secar é uma realidade tão certa quanto o fim de boa parte dessas fés que agora se manifestam pelos edifícios sagrados erigidos sobre o pampa. Vem vindo o outono. E o Gauchão dos invernos, das nuvens de chuva estacionadas nos céus, das noites de neve e da lama formada a qualquer minuto, já não vive abaixo dos vinte graus.
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Mal sopra a primeira brisa gélida do outono, a um trimestre das geadas julianas, e se apagam as velas dos monastérios futebolísticos de cada canto do Rio Grande. Ao menos daqueles onde o voto de pobreza é realmente respeitado. Em Ijuí, ainda mais cedo, alguém andou lambendo os dedos e brincando de apertar os pavios das candeias colocadas pelas suas capelas. As imagens pelas quais se orava sumiram. Os santos das causas urgentes, das causas impossíveis, dos gols providenciais, foram roubados, aliciados e vendidos para outras religiões.
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Essa é uma fé tribal, que conta não mais que meia dúzia de cânticos e não lê escrituras sagradas. É, no entanto, idólatra. Venera as imagens dos seus mártires, entoa seus nomes em mantras rítmicos, mas também renega os que não lhes trazem milagres. Renegou muitos nessa era mais atual. Mas, depois de largos verões de seca e peste e fome e guerra, e pragas e lágrimas e doenças e tempestades de areia (?), acumularam-se uns curtos meses de fartura.
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O sol brilhou como devia e a chuva caiu nos momentos certos. A colheita bateu recordes e eles voltavam a cada jornada com os bolsos cheios desse ouro que são os pontos. Deus, em pessoa, emergira das rochas para defender aquele povo – diziam nos bazares, nas esquinas, nos prostíbulos. E todos os outros povos do mundo os invejavam.
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Na falta de divindades mais piedosas, reinventaram a si próprios. Se os romanos fizeram seu Júpiter à imagem e semelhança do Zeus grego, as outras religiões de agora agiram pior: não copiaram; apropriaram-se das figuras sagradas dos ijuienses.
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Antes mesmo que os benefícios da safra pudessem ser festejados e sentidos, a falência geral dos costumes, o estado famélico da gente e a desesperança quanto ao futuro voltaram a se abater sobre toda a terra noroestina. Mas agora sem ídolos – nem deus. Era com catatonia que se elevavam aquelas vozes. Com olhos brancos de catarata e sem realidades palpáveis daqui até o sumiço daquela linha que separa o chão do céu. Nossa fé, que só existe nesses meses iniciais do ano, parecia condenada a suportar suas últimas semanas sem magia ou motivações.
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Eraldo, o deus que nos provocou ilusões, trocou-nos por uma Igreja NEOPENTECOSTAL do interior de Goiás. Sem ele, não mais pontuamos. Até hoje. Neste domingo, aquele pedaço de pano estampado com o nono algarismo de nosso sistema indo-arábico, revelou-se sagrado. A camisa 9 era, na verdade, um Santo Sudário. Desconfiávamos. Hoje confirmamos, e descobrimos um pouco mais: sua mística pode ser repassada, mais ou menos como acontece (?) com as memórias da água na feitura de pílulas de homeopatia.
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O herdeiro da camisa 9, Leandro Rodrigues, fez dois gols em vinte minutos. Golaços. E iniciou a vitória por 3 a 1 sobre o Universidade de Canoas. Esse povo faminto por sonhos diz que há um novo deus pelo qual rezar, lá no 19 de Outubro. Quiçá seja exagero. E é bem verdade que o idoso do templo tem razão: no passado, éramos monoteístas. Mas nossos deuses também eram mais fiéis a nós.
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Maurício Brum
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