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Habemus tradição

Um estádio, quando é frequentado há certo tempo, faz você ficar impregnado dele. Decorá-lo, conhecer as confidências escondidas no coração dos tijolos. E sentir impressa na pele a textura do concreto de cada centímetro quadrado da arquibancada. Estádios têm seus times habituais e se confundem com eles. Mas os jogadores cambiam anualmente. Agarram-se aos corrimãos do túnel e chegam à garganta que dá acesso ao campo sem ter certeza de onde se meteram. Ainda assim, são levados por tradições surgidas não se sabe bem quando, mas perpetuadas enquanto se puder – às vezes, involuntariamente.
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Profissional há pouco tempo, o Milan de Júlio de Castilhos é desses clubes cujo público raramente supera duas centenas de pessoas, e se inscreve nos campeonatos consciente de que tem as possibilidades mais reduzidas de ganhar alguma coisa. Sua camisa negra e rubra, que pode ser rubra e alva, não desperta os maiores temores no interior do Estado – salvo, talvez, no Atlético de Carazinho, dono da pior campanha da Segundona deste ano, e que desde 2009 vem sendo o único clube capaz de perder em casa e fora os seus jogos diante dos milanistas.
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A esse Milan gaúcho não cabem as arquibancadas verticais lotadas, os craques mundiais e os patrocínios milionários da agremiação italiana que inspirou seu nome. O superlativo do clube do Estádio Miguel Waihrich Filho é a dimensão de suas limitações. Valduíno Alves, o técnico que se sustenta na casamata da equipe desde o ano passado, mesmo sem grandes resultados, exerce tantas funções quanto pode. Quando não está guardando as esferas do clube, atua de conselheiro, por vezes se prestando a motivador, psicólogo, irmão ou pai. Sempre é treinador. E nas horas vagas talvez se dedique à quiromancia.
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“Japonês, tu vai pegar um contra-ataque e ganhar o jogo. Tu vai fazer um gol agora”, disse Valduíno aos 76 minutos da partida de domingo, contra o Riograndense de Santa Maria. O Japa, que prefere mesmo ser chamado de Japonês, só vestia a camisa 19 do Milan por uma questão de superstição – a 13 costuma sobrar. Estava em campo há menos de dez minutos, substituindo o lateral Vaguinho. Os santa-marienses tinham então um escanteio e, com o time inteiro na área inimiga, deixavam apenas dois homens contendo o contra-ataque. Da parte do Milan, Japonês restava como solitário homem a pegar o rebote e avançar em desabalada carreira até o lado oposto do campo.
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Valduíno deve ser melhor treinador que vidente, e o contra-ataque goleador de Japa nunca existiu. O jogo era dos mais duros. Levemente inflado em suas vitórias a ponto de brigar por classificação, muito por ter pego (e vencido) o Atlético de Carazinho em duas rodadas seguidas há poucos dias, o Milan precisava vingar a derrota por 3 a 0 sofrida diante do Riograndense em Santa Maria, no primeiro turno. Em quinto lugar, empatada na pontuação com o Juventus de Santa Rosa e o Santo Ângelo, e apenas três unidades acima de Gaúcho e Passo Fundo – ambos com uma partida a menos –, a esquadra milanista poderia deixar a zona de classificação (o G-6) com uma derrota.
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E o Riograndense, que há um ano foi finalista da Segundona e se quedou às portas da elite por falta de fôlego, segue apoderado entre os seus semelhantes. Aos ferroviários não lhes basta ganhar jogos contra os times pequenos, conseguir algum ponto contra os maiores e evitar eliminações muito precoces, como serve ao Milan – o Riograndense, que promete a vinda iminente de Tiago Duarte e do mesmo Josiel que um dia foi artilheiro do Campeonato Brasileiro, quer o acesso. Enfileirou resultados excelentes, encontrou mais dificuldades do que esperava contra o reaparecido Gaúcho, mas vencendo em Júlio poderia assumir a liderança.
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Muitos santa-marienses deixaram seus lares, subiram a serra e percorreram os poucos quilômetros que os separam de Júlio de Castilhos para assistir ao embate. Jogos fora de casa, especialmente no equilibrado futebol do interior, costumam ser pedregosos. Empates no feudo rival valem sempre, pois tudo se decide como local. Mas o Milan é daquele tipo de clube que ainda não atingiu os píncaros do respeito por parte das torcidas oponentes. Ainda mais em se tratando de condições tão distintas da tabela. O Riograndense, pese estar sob os cinamomos do Miguel Waihrich Filho, era favorito como se atuasse à sombra dos seus Eucaliptos.
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Não justificou isso em momento algum. O Milan esteve superior do primeiro ao último instante do jogo deste domingo. Na metade inicial, entortou um dos postes do goleiro Jair com um pelotaço certeiro. Os contragolpes esporádicos eram a melhor opção do Riograndense, que nas primeiras voltas do ponteiro na etapa final até pareceu crescer – para depois ser outra vez digerido pelos sucos do faminto estômago castilhense, tão raramente preenchido pela possibilidade de triunfos. Os milanistas, com sua escalação fértil em desconhecidos, retomaram o domínio no segundo tempo através de um nome lembrado em Santa Maria.
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Airton começou o ano no próprio Riograndense e saiu sob circunstâncias que causaram algum constrangimento à época. Colocado em campo faltando vinte e tantos minutos para o fim, poderia ter imposto ao Periquito um revés cruel na tarde dominical. Aos 82, cobrando uma falta frontal, ele estabeleceu que o canto direito de Jair seria o alvo do seu projétil. Este tento Valduíno não previu. Um assistente sim – “se for o Airton, é bucha”. Eles abriam os beiços para soltar um grito de gol ao ver a bola contornar a barreira e passar pelo goleiro. O vento suave que percorria a cancha já fazia as redes tremularem por antecipação. As respirações se suspenderam prevendo o berro de júbilo.
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Que virou “uuuuuuuhh”. Pela segunda vez na tarde, uma barra de metal surrava as ilusões castilhenses. A pelota bateu no pé da trave. O mesmo Airton, que a julgar pelas suas entrevistas parece entender de Milan como se estivesse ali desde o princípio dos tempos, quis mostrar que compreendia até as minúcias das duas principais tradições deste clube. Uma delas, meter gols salvadores no fim. Aos 90+1, Airton escafedeu-se pelas costas da marcação, adentrou na área pela banda esquerda do ataque e, na saída de Jair, fuzilou. O desvio quase imperceptível do arqueiro santa-mariense permitiu que a sua torcida continuasse batucando para celebrar o valorizado ponto do 0 a 0.
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Se a mística do gol no crepúsculo do embate não se fez desta vez, a das expulsões permanece intacta. O Milan teve nove expulsos em catorze partidas na Segundona do ano passado. Consagrou-se como um dos quadros mais viris e indisciplinados do Rio Grande do Sul. Em quatro jogos que TESTEMUNHEI em Júlio de Castilhos antes de domingo, nunca havia saído frustrado: o cartão vermelho subira em cada um deles. No único jogo em que os jogadores não saíram expulsos, o treinador Valduíno sustentou o histórico e foi convidado a se retirar. Curiosamente, nessa partida em que terminou com onze o Milan sofreu a única derrota que presenciei.
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Neste fim de semana, vinte minutos foram suficientes para o passado se manter. Como que atraídos por forças magnéticas vindas do manto milanista, os cartões são puxados com fúria pelos árbitros – mesmo que sem motivos aparentes. No desentendimento ocorrido na lateral do campo, que expulsou Claiton, do Riograndense, sobrou também uma expulsão para o camisa 10 do Milan, Renato, que estava a algumas SESMARIAS de distância da confusão. Muitos torcedores reclamaram, a maioria dizia não entender. Sarcásticos, os gandulas formulavam teses sobre o motivo do vermelho ter subido.
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Quem já se impregnou de Milan entendeu bem. Mesmo injustamente, é assim que funciona a vida em Júlio de Castilhos. Trata-se de um clube jovem, com pouco dinheiro, jogadores de menor qualidade e uma torcida reticente entre apoiá-lo e permanecer com suas paixões amadoras. Mas os cartões vermelhos recebidos já poderiam se empilhar em morretes nas cercanias do estádio. Forma-se uma tradição. E das boas. O Milan é menos Milan quando tem onze em campo.
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Maurício Brum
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  1. Paulo
    16/03/2010 às 14:14

    Cara, muito legal tuas “resenhas” dos jogos. To no aguardo de algum jogo de Panambi, quem sabe Panambi x Riograndense valendo a liderança da chabe?

    Abraço.

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