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O concreto chora

¿Ha entrado usted, alguna vez, a un estadio vacío? Haga la prueba. Párese en medio de la cancha y escuche. No hay nada menos vacío que un estadio vacío. No hay nada menos mudo que las gradas sin nadie.
(Eduardo Galeano)
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O Esportivo de Bento Gonçalves separou-se definitivamente da sua cidade quando construiu sua nova cancha. A velha Montanha, fincada num chão rodeado de recuerdos e casas, foi substituída pela moderna Montanha dos Vinhedos há seis anos. Apartado do povo pelos ladrilhos de estradas íngremes como a rota que conduz à noite dos tempos, o campo isolou o Esportivo num OUTEIRO de melancolia e solidão.
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Quando Bonaldi, um dos zagueiros mais firmes que o futebol gaúcho viu neste início de século, foi confirmado na equipe de Bento, eu e o Iuri comentamos que não haveria lugar melhor para o capitão em todo o Rio Grande. Os defensores, os melhores, dão sentido às suas vidas lutando para que seu pedaço de grama permaneça vazio. No EREMITÉRIO do Esportivo dos Altos da Serra, qualquer zagueiro de respeito tem o encontro definitivo consigo mesmo.
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Rodeado por parreirais e vinícolas, curtindo seu couro na ventania interminável que castiga aquele estádio, sobrevivendo ao frio que em Bento Gonçalves surge mesmo nas noites de janeiro, enxergando entre a palidez da neblina e a difusão das gotas derrubadas pelas garoas repletas de fúria, Bonaldi se fez ídolo uma vez mais. Compensou as dificuldades excessivas deste Esportivo de 2010 com muita garra, entrou em campo apesar de dolorosas lesões que consumiam seu futebol e sua sanidade, e teve seu nome gritado pela torcida noite após noite.
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Na jornada em que sofreu 0 a 3 para o Veranópolis diante dos olhos avermelhados e raivosos dos seus PATRÍCIOS, o Esportivo começou a partida sem Bonaldi. Após o terceiro gol, alguns torcedores se dirigiram para as saídas – que conduzem a escadarias cujo fim parece não existir – da Montanha dos Vinhedos. Outros pediram pelo zagueiro. Agarrados ao alambrado, ameaçando derrubá-lo, clamavam por Bonaldi. Ele entrou, e todos permaneceram no estádio até o apito final. O VEC não criou mais chances.
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Sim, Bonaldi também cometeu o pênalti (inevitável) que, dois jogos atrás, representou ao Juventude um empate contra o Esportivo no último minuto da partida em Bento Gonçalves. Mas não, a situação desesperadora da equipe serrana não se devia ao seu principal zagueiro – estava claro havia várias rodadas. Sediado numa das zonas mais ricas do Rio Grande do Sul, o quadro azul e branco vem tremendo há alguns anos com a falta de sustentação financeira. Em 2007, quase desistiu da Série C nacional em meio à competição, pela inexistência de apoios.
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Mas a explicação para as dez derrotas em treze partidas que o Esportivo conta a duas rodadas do fim do Gauchão pode vir por outro viés. Proporcionalmente, o número de almas que sobem as escarpas para se postar nas arquibancadas da Montanha dos Vinhedos talvez seja menor que a lista de rendimentos financeiros do clube. Durante este longo 2010 de resultados DILACERANTES, que incluiu oito rodadas seguidas apenas de derrotas, os públicos presentes no estádio se firmaram numa poeirenta média de setecentos e tantos CRÂNIOS.
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O rebaixamento tornou-se uma situação real. Mesmo o Porto Alegre – que, se estivesse preocupado em fazer futebol (e não apenas dinheiro), veria Assis vender os dois pulmões para ter essa média de setecentas pessoas no Lami – logrou superar o Esportivo em pontos. E o Avenida, único time que segue atrás dos bento-gonçalvenses, teve sua única vitória em todo este Gauchão dentro da Montanha dos Vinhedos – por CRIPTOGRAFADOS 2 a 4, em 8 de março. Penúltimo na classificação geral, o Esportivo se acocorou diante da tabela e chorou.
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Apesar de vencer pela primeira vez depois de dois meses no sábado passado, roubando três pontos imprescindíveis do concorrente Porto Alegre fora de casa, o time seguiu atrás dos capitalinos. E, restando então três rodadas para a concretização ou o fim das esperanças de Bento, havia que se vencer de qualquer maneira o Internacional de Santa Maria dentro de casa, ontem – porque depois os confrontos seriam contra os líderes Grêmio e Novo Hamburgo (campeão e vice do primeiro turno, respectivamente).
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Enquanto os hotéis de Bento Gonçalves se preenchiam por MERCADORES de MOBÍLIAS interessados na Movelsul, o Inter-SM precisava se concentrar em Teutônia e o próprio Esportivo acabava se REFUGIANDO em Nova Prata, o presidente do clube Oscar Cobalchini dizia esperar cinco mil vozes cantando pela equipe da casa. Poderia ser a derradeira noite com chances reais de salvar o clube do descenso. Dez reais garantindo acesso a arquibancadas onde o preço costuma ser 50% maior e mulheres entrando de graça eram as promessas feitas à guisa de promoção para atrair toda a gente.
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Isso ninguém disse, mas evitar a queda do Esportivo é também manter uma das sequências mais longas de um time interiorano na elite do Estado. Desde 1982, nenhuma temporada do Gauchão esteve sem os azuis e brancos de Bento Gonçalves – o time foi rebaixado em 1999, mas ganhou a Segundona no mesmo ano e em 2000 seguia na elite. Na verdade, a estatística do Esportivo vai além: desde que estreou na primeira divisão gaúcha, em 1970, o clube participou quarenta vezes do campeonato, ausentando-se apenas na edição de 1981. Era por esse histórico, principalmente, que se jogaria. E sem Bonaldi.
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Bonaldi, que há dias vinha exigindo dos músculos esforços além das amuradas do SALUTAR, teve uma ruptura no adutor da coxa direita na rodada anterior. Ouviu dos doutores um diagnóstico odioso, segundo o qual não atuaria pelo resto do campeonato. Recusou-se a aceitar. Mesmo incapaz de correr, apareceu na Montanha dos Vinhedos ontem e provocou ALVOROÇO entre torcedores e repórteres locais, que passaram a destrinchar hipóteses de o homem ser mesmo indestrutível e aparecer como opção no banco.
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Era apenas a aparição de um líder que não abandonaria o resto do time num jogo decisivo. Bonaldi não foi relacionado. Mas, aos ex-companheiros de Riograndense que ontem vestiam as jaquetas do Inter-SM, confidenciou que daria um jeito de se recuperar a tempo de atuar contra o Grêmio, no Olímpico. As consequências físicas da realização deste sonho antigo seriam preocupação para depois. Mas o jogo contra o Grêmio, daqueles que todo time interiorano marca como derrota ou empate festejável desde antes de o campeonato se iniciar, revestiu-se de uma necessidade de vitória tenebrosa após os noventa minutos de ontem.
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O Internacional santa-mariense superou a corrida-sobre-brasas dos locais e jogou explorando seus erros. Depois de se igualar sem gols no primeiro tempo, foi à carga nos três quartos de hora finais. Venceu por 1 a 3, facilmente. Nas arquibancadas, os cinco mil torcedores do presidente Cobalchini foram apenas 676 – sendo que menos de metade deles pagaram ingressos. Ao saírem de campo, os onze homens de Bento Gonçalves, seus reservas e técnicos, foram hostilizados, vaiados, xingados, cuspidos e só não apedrejados pela falta de rochas por perto.
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Pelas curvas da Montanha dos Vinhedos, agora despida até dos poucos aficionados que a recheavam, o vento uivante soprou a certeza do rebaixamento que se negava. Ao fim da noite fria de quarta-feira, quiçá o frio do outono das participações do Esportivo na elite, ninguém imaginava possibilidades de o time pontuar nas partidas restantes. O estádio, que nunca recebeu Segundona, secou-se das pessoas, encheu-se de apreensão. Conforme a madrugada ia OBNUBILANDO seus degraus, a lamúria das arquibancadas vazias se fez ouvir.
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Maurício Brum
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  1. Sancho
    05/04/2010 às 21:00

    O problema da localização não é tão grave. O fato do antigo ser um alçapão e, no novo, o torcedor ter que assitir a partida com um binóculo é muito mais grave…

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