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O espírito Gaúcho não morre

“Hoje vai dar Gaúcho”. Torcedores são palpiteiros. Torcedores acertam e clamam aos ares que foram profetas. Torcedores erram e ignoram o que disseram antes de a partida começar. Ou botam a desculpa na má atuação de algum ou outro jogador. Torcedores comuns não têm qualquer poder em suas palavras quando preveem um resultado. Atiram verbetes no vácuo e, bem, torcem. Mas quem dizia aquilo era Daison Pontes.
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Houve um tempo em que nenhum time poderia se julgar merecedor de reinar no Rio Grande do Sul sem sobreviver ao teste de Passo Fundo. Eram os anos sessenta, o estadual havia acabado de trocar o formato das fases regionalizadas por um torneio longo, próximo do que se tem hoje, e o Sport Club Gaúcho passara a ser figura cativa na elite do Estado. Daison fazia dupla com seu irmão, João Pontes, e juntos os dois formaram a mais temida defesa do interior.
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Antes da criação dos cartões de advertência, em 1970, quando um jogador ser excluído da partida era raridade, Daison acumulou doze das suas dezoito expulsões na carreira – somente no insano 1964, foi mandado aos vestiários mais cedo em quatro ocasiões. João, o irmão mais novo, fora convidado a se retirar sete vezes. Daison não admitia desrespeito. Matou um cusco, bateu em criança, e certa vez destruiu com uma joelhada a coluna do argentino Nestor Scotta, do Grêmio, ao vê-lo cuspir na área do Gaúcho.
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O lendário zagueiro chegou a tentar a sorte no Rio, de onde foi mandado embora por bater demais nos atacantes durante os treinos. Construiu sua fama em Passo Fundo. Estimulou a mística varonil da cidade, sendo suspenso do futebol por tudo o que um jogador poderia imaginar. Doping incluído. Em 1974, insultou o árbitro José Luiz Barreto após a marcação de um pênalti contra seu time, e ouviu do apitador que, se os dois se encontrassem fora de Passo Fundo, o cartão vermelho subiria para Pontes. “Se me expulsar, te quebro a cara”, respondeu Daison, que fez mais: prometeu só parar depois de atorar um árbitro.
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Semanas depois, Daison e Barreto se reencontraram em Santa Maria, num jogo do Gaúcho contra o Inter local. O juiz cumpriu a promessa. O beque, também. Foi a última expulsão da carreira de Daison, que, pela agressão, mergulhou numa suspensão de um ano e meio antes de voltar a vestir a camisa verde de seus amores. A mesma camisa verde que sumira dos gramados sulinos depois de 2007, quando o Gaúcho perdeu na Justiça o caldeirão diabólico que era o estádio Wolmar Salton. É por não ter recuperado ainda sua cancha que o Gaúcho está mandando suas partidas na cidade de Marau. É por acreditarem que o clube é grande demais para permanecer inativo que seus dirigentes decidiram retomar o futebol profissional.
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E é por saber que sua palavra permanece sendo lei que Daison Pontes decretou, à beira do campo, antes do duelo de domingo: aquele jogo contra o Esporte Clube Passo Fundo, o Clássico Ga-Pas, só poderia ser do Gaúcho.
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A pequena Marau dista de Passo Fundo pouco mais de trinta e cinco quilômetros e não tinha qualquer perspectiva de observar no seu estádio algo de futebol profissional. A própria arquitetura do campo, duas arquibancadas nos cantos da relva com um PRÉDIO para a imprensa atrapalhando toda a visão no centro, evidencia o pouco costume do projetista em frequentar estádios de futebol. Pouco tempo atrás, a escassa chance de Marau contar com jogos envolvendo esportistas pagos equivalia às reduzidas perspectivas passo-fundenses de ver suas equipes de volta à ativa.
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Há um ano, nem Passo Fundo e nem Gaúcho tinham equipes montadas. O Passo Fundo foi o primeiro a se mobilizar. Tido pelo conhecimento popular e exaltado nas faixas da torcida como o sucessor do velho alvirrubro citadino, o 14 de Julho, o clube na verdade surgiu como uma fusão destes com o próprio Gaúcho, em 1986. Os alviverdes desistiram daquilo um ano depois, e o Esporte Clube Passo Fundo, que se iniciara tricolor – verde, vermelho e branco -, passou a se assumir como o novo 14, usando apenas o rubro e o alvo. Em 2009, o clube imaginava estar voltando sozinho para a atual temporada, e apresentou um fardamento novamente tricolor.
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Mas o Gaúcho, meses depois, disse que não estava extinto como se pensava. Trazia no coração, bem vivas, umas línguas de fogo de rivalidade, que queimavam o ar pelas palavras de seus comandantes. Preferiam Marau, diziam eles, porque mandar jogos no estádio do rival, o Vermelhão da Serra, atormentaria seus pensamentos até o último suspiro de suas existências. Em Marau, o Gaúcho vende ingressos não em bilheterias, mas nas vias de acesso ao campo. A estrada conduz ao Estádio Carlos Renato Bebber, que assim se chama para homenagear um jovem morto eletrocutado naquela zona – talvez por não terem pego o espírito da coisa, no domingo alguns sujeitos podiam ser flagrados empinando pipas nas cercanias da cancha, perto da rede elétrica.
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A torcida do Passo Fundo, com seus trapos bradando “14 de Julho” e “Felipe – é gol”, foi colocada do lado DE FORA do estádio, atrás de uma das goleiras, pagando ingresso para mirar o duelo através do alambrado. Na Segundona Gaúcha, o estatuto do torcedor tem o mesmo valor das bobinas que as torcidas utilizam – pode ser atirado no campo e esquecido. Os aficionados tricolores se encaminharam até um dos dois lances de arquibancada do Carlos Renato Bebber e reclamaram que, no Vermelhão, não haviam deixado ninguém assistindo ao combate sobre coxilhas de terra vermelha. No setor já estavam postados alguns torcedores do Gaúcho, mas a entrada dos apoiadores do Passo Fundo foi permitida. Não se registraram incidentes mais graves que insultos às mães alheias.
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Em campo, o duelo já contava quase todos os quarenta e cinco minutos iniciais e pouco, muito pouco, merecera análises aprofundadas dos comentaristas das rádios passo-fundenses. O Clássico Ga-Pas de número CATORZE (só), o primeiro disputado fora de Passo Fundo, teve sua metade de abertura com muitos carrinhos, outro tanto de passes errados, e dois goleiros exercendo funções semelhantes às de quem estava nas arquibancadas: olhar o resto do time correr e gritar para empurrar. A partida se resumia ao espaço entre as duas intermediárias. Luciano, o goleiro do Passo Fundo que só fora ameaçado uma vez até o intervalo, declarava com enfaro ao sair de campo: “que jogo bem ruim, não acontece naaaaaaada” – com a profusão de vogais notável.
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O técnico Bebeto Rosa preferiu manter os tricolores no clima da cancha. Levou sua lousa para a frente da casamata e, com os jogadores sentados no banco de reservas, dedicou-se a fazer as correções que julgava necessárias e a discorrer sobre as entradas violentas, os passes certeiros, os amores, e todas essas coisas que transformam homens comuns em campeões. Tendo suas frases entrecortadas pela batucada da torcida do Gaúcho no teto da casamata, Bebeto viu como seus comandados pareceram entender a ordem. O Passo Fundo teve seus melhores momentos nos primeiros minutos depois do apito de reinício do árbitro, castigando a trave do Periquito aos 65 minutos, através de Fabiano Diniz.
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O segundo tempo estava definitivamente mais movimentado. Paulo Roberto, tricolor, bateu cabeça com o adversário Didi, caiu no chão tendo convulsões de dor e sangrou litros. Em algum canto do estádio, o saudosismo de Daison Pontes deve ter aumentado um pouco mais. A ambulância amassou a relva para levar Paulo Roberto até o hospital mais próximo, e os torcedores do Passo Fundo seguiam ocupados demais ovacionando seu gladiador caído para perceber que, depois da paralisação, o jogo foi mais e mais do Gaúcho.

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Naquela equipe de verde havia um zagueiro que em toda a tarde não conheceu o erro. E um capitão capaz de vibrar pela menor vitória simbólica obtida em campo. Baggio e Paulinho. O Ga-Pas começou a inverter sua tendência por causa deles. Baggio e Paulinho, sob influência das palavras infalíveis de Daison, derrubaram a parede de seus limites para colocar o Gaúcho um pouco mais sonhador, um pouco mais pegador, e totalmente vencedor. E aos 82 minutos, num cruzamento à área, foi o baixo Guinho quem se esticou para cabecear e caiu se enroscando nas redes para fazer o 1 a 0 do Periquito, mas foram Baggio e Paulinho os que mais vibraram.
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A partida se estendeu até os 90+8 minutos, em função da ambulância e das paradas para beber água. Mas o Passo Fundo não conseguiu recobrar seu rumo. No quinto minuto de acréscimo, quase lamentou o segundo gol contrário, numa esfera que se esmagou no travessão. O Gaúcho venceu o clássico. O Gaúcho, que por três temporadas permaneceu fechado, enterrado, e dado como morto, garantiu a classificação com os pontos ganhos sobre o maior rival. “O Gaúcho não vai morrer nunca”, declarou um eufórico dirigente, com a satisfação que só conhece quem já perdeu uma paixão e a reconquistou.
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Aos poucos os torcedores iam tomando a estrada, deixando as dependências do estádio e engarrafando as vias que abandonam Marau. Na onda de otimismo, com o mesmo olhar feroz que tantos ossos trincou e um porte físico digno de fardar e entrar em campo apesar dos setenta invernos que pesam sobre as costas, Daison Pontes chegou a afirmar que não tem dúvidas de que o Gaúcho ainda vai recuperar seu estádio em Passo Fundo. E se Daison diz…
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Maurício Brum
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  1. Wagner
    30/03/2010 às 04:22

    Muito bom o texto, melhor que os jornais daqui.
    Parabéns!

  2. Marco Antonio Damian
    02/04/2010 às 10:55

    Meus parabéns elo texto e pelo conhecimento que tens da história. Certa feita escrevi no livro O Mais Querido da Cidade, a seguinte frase: “Enquanto existir futebol, existira o Gaúcho”. O nosso alviverde renasceu das cinzas.
    um abraço

  3. Sancho
    05/04/2010 às 20:10

    O Passo Fundo não havia abandonado o verde?!

  4. chico
    12/04/2010 às 01:22

    Parabéns, ótimo texto.

    Saudades de ver o Felipe metendo gol no vermelhão.

    Saudações

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