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Os metafísicos da camisa um

“Tens muito tempo para pensar, sozinho, no meio da multidão. Ou te tornas filósofo, ou és pego pela loucura. Às vezes, as duas coisas.”
(Lev Yashin)
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Guri que nasce pra goleiro não pode ser outra coisa na vida. “O importante é ter saúde” não foi dito pela primeira vez por uma parteira ao ver um bebê feio, mas por alguém que trouxe ao mundo um menino condenado a padecer diante das redes e embaixo do arco. A sina do goleiro é ser um diferente. Seria bonito dizer que o goleiro não é melhor nem pior do que os demais, é simplesmente diferente. Mas seria também mentiroso. O goleiro pode ser, sim, superior ou inferior ao resto do time, capaz de ganhar ou perder um jogo sozinho.
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O arqueiro está no início e no fim da escalação. A base e a cabeça de toda a estratégia. Um humano comum tem dificuldades para entender a IDIOSSINCRASIA do ser goleiro. Ali está alguém que veio ao mundo para fazer do próprio corpo um escudo e cortar os ares na tentativa de ser mais veloz que o projétil atirado pelo adversário. Trata-se de uma pessoa com problemas o bastante para aceitar a vida dúbia que é permanecer solitário, muitas vezes como o último sujeito em pé na sua metade do campo, e mesmo assim seguir sendo o centro das atenções.
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Para um goleiro basta um lance. Mais do que para o craque. Porque o craque pode se apagar a tarde inteira e, mesmo sem fazer aquele driblezinho que salva o dia, sempre terá o próximo instante, o próximo lance, o próximo jogo. Para um craque, a esperança resiste até o último momento. Para o goleiro ela acaba no primeiro grau inesperado de curva que o chute do ataque inimigo tenha. A falha do arqueiro não pode ser redimida, não por ele mesmo.
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Ele é, afinal, um sujeito rodeado de regalias. Veste uma roupa única, com as cores diferentes do resto do time e, cada vez mais, personalizada – mesmo em clubes da menor divisão da menor ilha do menor meio de mato do interior do Brasil. O arqueiro é o único do time em que o nome que vai atrás da camisa (metaforicamente, já que camisas com nome são RARAS por aqui), que é o seu, é mais importante do que o nome da frente, o do clube. Ademais, ele pode se ENFEITAR com acessórios não cogitados por qualquer outro.
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As luvas, por exemplo. Goleiro que usa luvas não poderia jamais se queixar de paradinhas em pênalti ou bolas tecnológicas que potencializam as chances de gol. O engodo de que as luvas servem apenas para proteção esconde a verdade de que elas são uma extensão da capacidade humana, um artifício para aumentar a aderência, burlar a natureza e agarrar mais firme. Há toda uma glória ANTROPOLÓGICA naquela vitória de Portugal sobre a Inglaterra no pênaltis, durante a Eurocopa de 2004 – quando o goleiro Ricardo defendeu as penalidades sem luvas, a pedido de Eusébio, e ainda foi cobrar o tiro que classificou os de Felipão.
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No entanto, esses atos de humanidade são isolados, raros. É natural. O goleiro não está acostumado a isso. Passa longas horas de seus dias mirando o que acontece na metade oposta do campo, perto de um transe, com as pálpebras se atraindo, os ossos oxidados e as articulações rangendo no próximo salto. O ócio tira a concentração de um goleiro. Mais do que probabilidade matemática, a máxima do “quem não faz, leva” também tem a ver com esse STAND-BY no qual mergulham os camisas um nos períodos de calmaria.
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Neste ponto, a mente fica combalida. O homem solitário debaixo das traves se põe a observar os três quartos de estádio que a vista permite, a sentir às costas a pressão do único pedaço que não pode ver – seja um muro ou três anéis de arquibancadas – e o cérebro passa a maquinar respostas para as mais intrigantes questões do Universo. Talvez não externe isso nas entrevistas e continue parecendo um nulo, mas dentro daquela cabeça estão sendo formuladas teses a respeito de tudo, geralmente com a genialidade dos que vivem à frente de sua época e ficam incompreendidos.
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É quando a tênue linha entre a metafísica e a insanidade pode ser rompida. E o filósofo que satiriza os demais pode já estar engolido por uma loucura contra a qual não logra mais lutar. Não há qualquer sentido naquela cena clássica dos goleiros que, diante de uma bola fácil de se agarrar, deixam-na no chão e provocam a corrida do atacante para só então agarrá-la com as mãos. A cera rende um tempo mínimo. A única explicação válida é a do pseudointelecutal que, sabendo-se superior, provoca um debate inócuo sobre algo com um leigo, pelo puro prazer de vê-lo perdido e acariciar o próprio ego.
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Os goleiros e pretensos intelectuais são como um Edmundo Budiño, o magnata de Mario Benedetti em Gracias por el fuego. Um poderoso crápula que, mesmo sem argumentos, parecia dominar as discussões. E que, na busca pelo “fundo” ético de seu país, foi se enfurnando cada vez mais na imoralidade e constatando, perplexo, que ali não havia fundo algum. Pode ser que os arqueiros também procurem um fundo para as suas calhordices. Que cada vez que embromam os atacantes na tentativa estúpida de ganhar dois segundos, não estejam na verdade querendo aqueles dois segundos, mas esperando o dia em que alguém se emputeça e lhes dê um tiro – como de fato queria Edmundo Budiño.
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Só que, para se matar um sujeito, é preciso acordar corno ou ter colhões ou estar bêbado, já diria o personagem de Benedetti, concluindo: “e vocês tomam coca-cola”. São poucos os atacantes capazes de abdicar de tudo e arriscar uma expulsão para romper a autoconfiança de um arqueiro e arrancar-lhe definitivamente qualquer resquício de superioridade. E são raríssimos aqueles dotados de um tipo de classe ainda maior: os que, sem apelar para a violência, impõem aos camisas um a vergonha eterna de derrotá-los em sua provocação e goleá-los.
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Luciano, goleiro do Passo Fundo, tinha atrás de si um amontoado de torcedores que aceitaram ficar diante do sol para apertar o arqueiro contra seus próprios medos. Tinha no cronômetro uns poucos minutos antes do apito do juiz para o intervalo e, até aquele ponto do jogo de domingo contra o Riograndense, nos Eucaliptos, sustentava um placar de 0 a 0. Não era o momento mais cruel de um goleiro, e ali sim a cera era aceitável. Mas o Universo é como um árbitro que nem sempre pune pela violência do lance, e sim pela sequência de infrações, e escolheu aquele átimo definitivo para usar Luciano como um exemplo aos tantos goleiros que fazem o mesmo.
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Quarenta minutos do primeiro tempo. Bola rápida na área do Passo Fundo. Bola fácil para Luciano. Que aguarda. E aguarda. E aguarda, para impaciência dos torcedores passo-fundenses que ouviam pelo rádio e dos repórteres de lá que, sentados à beira do campo, mesclavam as falas ao microfone com tragadas em seus cigarros. Tudo deve ter durado uns poucos segundos, mas depois que deu errado pareceram horas. Juninho, do Riograndense, roubou a bola que Luciano esperou demais para agarrar. Roubou como não costumam roubar os atacantes. E vislumbrou um gol aberto. Cléber surgiu como um bisão, derrubou o atacante e foi expulso. Onze passo-fundenses cercaram o juiz, o goleiro reclamou ter tido as mãos chutadas, mas nada mudou o pênalti assinalado.
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Dez minutos depois, o Riograndense cobrou e fez 1 a 0. Dobrou a vantagem com cinquenta segundos da etapa complementar. Nunca foi tão veloz a destruição de um ego.
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Maurício Brum
(Maior cobertura fotográfica de um pênalti na história da Segundona [?]. Fotos 1, 5 e 7 por  Iuri Müller; fotos 2, 3, 4 e 6 minhas)
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  1. Paul
    13/04/2010 às 22:56

    Baita texto, só prá variar.
    Alguém me dá um link prá algum vídeo desse lance, POR FAVOR!

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