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Na borda sul do Rio Grande… (há um clássico)

… o verde ressequido das campinas que jazem sobre Bagé é pisoteado com fúria pelos representantes de dois clubes de grandeza singular. Juntos, Guarany Futebol Clube e Grêmio Esportivo Bagé formam o clássico interiorano com mais títulos estaduais de todo o pampa. Somam três taças da elite gaúcha, oito vice-campeonatos e cinco títulos da mui leal (?) e valorosa Segundona Gaúcha. Foram, ainda, os melhores times interioranos do Campeonato Gaúcho em doze ocasiões. Desde ontem, a rivalidade Ba-Gua ostenta uma nova marca: é das poucas no MUNDO a ter chegado aos 400 clássicos realizados.
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É no momento em que o relógio marca onze horas e seis minutos da MANHÃ e os três setores do estádio se encontram completamente tomados de torcedores que o sujeito pode se sentar na arquibancada, sorver tranquilito seu mate e dimensionar o quanto significa aquele jogo. O Ba-Gua é mais do que o clássico cujo nome faz broma com a tradição fronteiriça e remete aos baguais. É mais do que a mulher que, em meio à torcida do Bagé, se levanta para gritar ao marido, torcedor do rival localizado na extremidade oposta da cancha, que naquela noite ele não dorme em casa – se o time dela perder. É mais, também, do que a virilidade que goteja dos poros de cada atleta, fazendo até o fotógrafo sem CACOETE de retratar carrinhos capturar em suas lentes uma dúzia de lances violentos.
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O clássico Ba-Gua remete a coisas muito mais antigas do que a mulher, o marido, o fotógrafo, a denominação que recebe, eu ou tu. À alma de cada um dos delírios de noventa minutos que são esses jogos, está atrelada um pouco da memória coletiva, do passado que a maioria não viveu, das saudades por aquilo que nem se sabe bem o que é. Amar ou deixar o Guarany é uma opção. Clamar para que o ferrão da abelha, mascote do Bagé, saque a vida dos inimigos, é outra. E eleger um lado para estar é tão necessário para levar a vida em frente quanto inspirar oxigênio e expirar gás carbônico. Agora repetido 400 vezes na História da Humanidade, o Ba-Gua é a metáfora da ascensão, do zênite e do declínio de cada uma das hoje agonizantes e desérticas cidades que PONTILHAM os horizontes de coxilhas deste sul.
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Hoje, os dois clubes estão na Segundona. No último domingo, duelavam pela oitava rodada da segunda fase do certame. Salvo uma ou outra expedição de curtos anos pela elite, tem sido assim há décadas. Não era. Nos tempos idos, os tempos do charque, do dinheiro, da abundância que fazia de Bagé uma das mais ricas cidades interioranas ao lado de Rio Grande e Pelotas, os esquadrões dali se fortificavam pelos patacões dos estancieiros e sequestravam bons nomes das ligas platinas para defender suas cores. O profissionalismo não existia oficialmente, mas no intervalo das temporadas da Argentina e (principalmente) do Uruguai, era fatal: sempre se havia com o que SEDUZIR craques portenhos e orientais para que fossem a Bagé enquanto seus clubes de origem estavam parados.
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Lá adiante a fronteira. Cruzada por chibeiros e contrabandistas de toda ordem, e dominadas pelos patrões com terras nos dois lados da LINHA. As ligações bajeenses com o outro lado são VISCERAIS. A primeira camisa envergada pelo alvirrubro Guarany, quando da fundação em 1907, foi um fardamento alternativo do Nacional de Montevidéu. As cores do Grêmio Esportivo Bagé, o amarelo e o preto, são herdadas dos clubes que se fundiram para que ele nascesse em 1920, e ainda lembram o Sport Club Bagé – decano da cidade, já extinto àquela altura –, mas há quem diga que o aurinegro fincado na essência do time também possui pontadas da rivalidade eterna – seriam uma homenagem ao Peñarol.
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Os Campeonatos Citadinos invariavelmente decididos em batalha forjaram um estilo futebolístico que potencializa tudo o que se espera tradicionalmente de equipes gaúchas. Mantido até os nossos dias – o último Ba-Gua antes do disputado ontem havia terminado em briga. “E aqui, quando brigamos, é com facão e revólver”, comentam nas arquibancadas. Talvez não com facão e revólver, mas certamente brigando, o Guarany se tornou o único time além da dupla Gre-Nal a vencer mais de um Gauchão. Empunhou o CETRO em 1920, num triangular em Pelotas, contra o Grêmio de Porto Alegre e o Uruguaiana, e em 1938, após QUATRO encardidas finais diante do Rio-Grandense de Rio Grande. A taça do Bagé foi erguida em 1925, batendo o Grêmio do lendário arqueiro Eurico Lara em pleno Estádio da Baixada, na capital.
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Mas o Bagé não joga o Gauchão desde 1994. E o Guarany, embora tenha disputado a elite com FUGACIDADE entre 2007 e 2008, antes disso não o fazia havia um quarto de século. E as temporadas na Segundona têm sido especialmente cruéis com os PORTENTOS bajeenses, porque as tabelas regionalizadas dão as piores das ilusões. Nas fases iniciais, Bagé cruza com equipes da fronteira e do sul, times de Pelotas, de Rio Grande, de Livramento. Quadros com taças no armário e história, mas empobrecidos e fracos na atualidade. Pelo CURRÍCULO dos adversários, ir bem contra eles seria indício dos buenos, prometendo acesso. Pelos dias que correm, não. E o Bagé e o Guarany têm se especializado em planejar grandiosidades ao vencer as fases regionais e rasgar tudo no primeiro jogo mais duro contra um time de outro canto do Estado.
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A Segundona de 2010 possibilita um alento, estende os duelos regionais até a segunda fase e, quando ela passa, restam apenas oito equipes. O acesso é plausível. E vencer os Ba-Guas vale em dobro, pois dá três pontos às tuas cores e mata outros três na contabilidade do vizinho. Às vezes, empatar serve. No jogo de ontem, o Guarany sabia que o empate lhe daria tudo o que a torcida precisava. Líder da chave, via o rival em penúltimo lugar. Dizer “penúltimo” é deixar a situação pior do que realmente era: um triunfo poderia até colocar o Bagé na terceira posição, brigando por vaga, já na mesma rodada – mas, pela escassez de jogos no PORVENIR, a falta dessa vitória praticamente o mataria. O grupo está embolado e, ainda que a pontuação seja próxima, há no meio do caminho um Guarany de Camaquã, um Rio Grande e um São Paulo.
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O Ba-Gua 400 foi marcado para as onze da manhã para fugir do Gre-Nal 381, que, às quatro da tarde, decidiria o Campeonato Gaúcho. Isso não impediu o estádio de lotar. A Pedra Moura, cancha do Bagé, o mandante desesperado pelo trio de pontos que o manteriam RESPIRANDO, é daqueles estádios deliciosos que os subúrbios de Montevidéu e Buenos Aires veem BROTAR em seus quarteirões. O campo é ESTREITO, o espaço entre o povo e as linhas de fundo e laterais não existe. As arquibancadas se enchem como um alfajor é preenchido de doce de leite (???), e os alambrados são tão próximos do terreno de jogo que parecem querer engolir a grama e, no embalo, devorar junto uns pedaços das pernas dos atletas. Só há uma rota de fuga, que não é das mais recomendáveis: atrás do gol à esquerda do pavilhão, o mato e o muro são a única divisória entre a partida e um DESFILADEIRO de inclinação moderada.
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Vermelhos e brancos completaram seu espaço, amarelos e negros rechearam o seu, os dois times ingressaram na cancha e a peleja começou quando a manhã ainda morria. O Bagé deu os primeiros golpes, mas antes do décimo minuto o Guarany tomaria as rédeas da partida. O sol da metade do dia, ainda que enfraquecido pelo outono desses dias de maio, esquentava porongos e cabeças. “Esse sol é nosso, nós trabalhamos com ele todos os dias”, disse alguém da comissão técnica alvirrubra antes da partida. E se o principal astro do nosso sistema estelar era do Guarany, não seria o pobre goleiro Fernando, do Bagé, a alma capaz de parar o lançamento que, no minuto 15, deixou toda a zaga perdida – e era uma zaga comandada por ALÁDIO – e o atacante Dudu livre para marcar o 0 a 1.
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“Porra Dudu! Porra, cara! Passa essa bola!”, gritaria minutos depois Leandro Kivel, o camisa 9 do Guarany, irritado com o preciosismo do companheiro ofensivo. Os visitantes permaneceram superiores após abrirem a vantagem, atacavam com ferocidade e em meia dezena de vezes levaram desespero real aos defensores jalde-negros. O uruguaio Gary Castillo e o veterano Luciano Ritta, na parte de ataque do Bagé, eram puro LACONISMO nas poucas vezes que tinham a bola para dar seu verbo. “Então vai tomar no teu cu”, berrou o mais falante Leandro Kivel para o mesmo Dudu, alguns minutos além da primeira reprimenda, desistindo da HIPÓTESE de receber a bola algum dia, ao ver o homem que havia feito o gol desperdiçar mais um lance.
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Nos degraus, alguns torcedores do time local concordavam uns com os outros de que se haveria que convir que seu time não era bom, mesmo. Mas, no último lance do primeiro tempo, aos 45+4 minutos, quando as dificuldades não se haviam findado mas o Bagé tentava crescer un poquito más, Michel levou o segundo cartão amarelo e deixou o Guarany com dez homens em campo. Passados doze minutos do meio-dia, com o ar trazendo o aroma de algum churrasco cercano e os aficionados enganando a fome com pipocas e amendoins, o árbitro deu início a um segundo tempo em que os olhos luziam por expectativas muito diferentes daquelas ostentadas até o cartão rubro subir.
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A pedra-moura, uma rocha enegrecida encontrada nos leitos dos arroios, é conhecida pela sua resistência acima do comum. O Bagé honra o nome do estádio que tem, justamente a Pedra Moura, e também se prova difícil de ser quebrado quando ali joga. A segunda metade da partida foi sua. Héberson, o alto camisa 4 que investia com raiva pela banda direita jalde-negra, começou a reeditar lances de perigo na meta do Guarany, defendida por Goico. Aládio passou a distribuir carrinhos cada vez mais próximos do meio de campo, provando que os visitantes se encolhiam definitivamente. O técnico BADICO, do Bagé, orientava os seus para que seguissem daquele jeito.
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Aos 54 minutos de enfrentamento, depois de um pênalti claro para o Bagé negado pela arbitragem e de um gol certo jalde-negro salvo sobre a linha por Leandro Magrão, o empate nasceu. O escanteio cobrado da direita teve desvio de Castillo no primeiro pau, e arremate de cabeça de Luciano Ritta no segundo, sem chances para o voo de Goico. Ao 1 a 1 seguiram-se ataques e ataques e ataques de um Bagé de quem os minutos fugiam. O Guarany mantendo-se líder. Os aurinegros seguindo em quinto lugar. As arquibancadas tingidas de vermelho e branco fazendo ecoar os gritos de “e-li-mi-na-do”.
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Antes do último apito, Héberson deu a segunda expulsão ao Ba-Gua 400 e, nos acréscimos, deixou o Bagé também com dez. Eram já os minutos em que o time da casa parecia estar resignado com a sua sorte de não poder prosseguir, e atacar era novamente uma realidade para o Guarany. Na partida que terminou antes da uma da tarde, vozes saudavam os alvirrubros quase classificados. E previam o que a matemática ainda não confirmou: o Bagé fora do certame. Mas não havia decepção nos comentários jalde-negros. Um clássico, mesmo que decisivo num contexto, se justifica sozinho. E a primeira regra dos clássicos é lutar. A segunda, não perder para o rival. O Bagé cumpriu.
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Maurício Brum (sem tempo, mas vivo)
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  1. Eduard
    05/05/2010 às 20:27

    E hoje o Guarany bageense veio jogar com o bugre camaquense.

    E perdeu, 1-0, gol de Fábio, em condições muito parecidas com a do Estádio Pedra Moura: campo pequeno, alambrado bem próximo do campo.

    Boa partida do goleiro Goico, em uma cabeçada fez uma defesa a lá Victor-contra-o-Vitória, salvou uma cara a cara com o atacante do Guarany e até saiu jogando entre os atacantes do Guarany-CMQ (!) e foi até o meio campo levando a bola, demonstrando certa habilidade, até fazer uma boa metida de bola.

    Com essa derrota, embolou um pouco, e o estreante Guarany vai fazendo muito além do esperado por nós, camaquenses.

  2. 08/05/2010 às 04:10

    Sensacional texto e fotos! Parabéns mesmo!
    Uma matéria que jamais verei nos ditos “grandes veículos”, uma porque NUNCA dedicariam este espaço para clubes como Bagé e Guarany e outra porque – tenho absoluta certeza – não possuem competência para fazê-lo. É muito comum a gente que é da cidade (apesar de agora eu morar no “estrangeiro”) ler matérias e textos sobre as coisas da cidade, feitas por gente de fora, e achar longe da realidade que conhecemos…neste verdadeira e apurada reportagem, nem este pequeno pecado (o de certo desconhecimento da realidade local influenciar o que foi escrito) foi cometido.
    Simplesmente perfeito! Puríssimo Futebol!
    Parabéns ao Maurício Brum e ao blog!

    Saudações exaltadas!!!

    George.

  3. Renato
    21/07/2010 às 00:24

    Jalde-NegroOoOoOO

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