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Dos ladrilhos de Rivera

Saio de Livramento, desço a Sarandí e, enquanto o sul brasileiro se transforma em norte uruguaio, no firmamento o sol é tapado por outro sol – este, acompanhado por faixas celestes e brancas. Os pavilhões uruguaios se reproduzem nas esquinas. No dia em que o país deles joga pela Copa do Mundo, é contra o meu. Meu português curtido por anos e o castelhano de tão poucos recursos quanto o maior craque do Fiji disfarçam, mas um olhar sobre a minha naturalidade na carteira de identidade me faria ser caçado pelas ruas: “França”.
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Nasci numa madrugada gelada de Montpellier, no sul da velha Gália, quando o novembro outonal já deixara as árvores peladas e a neve intermitente começava a se divertir engolindo carros nos estacionamentos. Montpellier é uma cidade que tem mais tipos de imigrantes do que a França tem de variedades de queijo – e a França mal sabe catalogar os seus queijos –, de modo que a minha ascendência formada por uma mescla libertina de índios-italianos-portugueses-africanos prevaleceu sobre os hábitos típicos gauleses. Ainda mais tendo vindo, muito jovem, ao Brasil. Mas certos costumes da terra natal ficam. Acompanhar os Bleus, por exemplo.
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Como depois de quase duas décadas de uma vida iniciada na França eu arrisquei encerrá-la logo na fronteira do Uruguai é uma história longa demais, envolve uma série de escolhas pouco sãs, e o que interessa é que, se escrevi este relato, minha camuflagem funcionou. Aos 11 dias de junho de 2010, estou em Rivera. Pelo que se vê em campo na Cidade do Cabo, poderia ser oito anos antes. Assim como no último confronto mundialista entre charruas e gauleses, os gols faltam. Sobra o medo, especialmente nos uruguaios, cujos dedos parecem ser devorados a cada pequena investida dos nossos. O duelo avança com a mesma tensão do zero a zero de 2002.
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A peregrinação pelas calles riverenses encontra caminhos vazios, bandeiras tremulando ao sabor da brisa, copos de cerveja dourados sobre as mesas dos bares, olhos apreensivos, dentes cerrados e mãos inquietas que cortam os ares em gestos confusos. Em cada rosto, todo um poema. Faltava desvendá-lo. No intervalo da partida, zero a zero sustentado, a loja de regalos com seus ladrilhos mensageiros oferece algumas ideias para definir o momento. “Lo que puede el sentimiento / No lo ha podido el saber / Ni el más ancho pensamiento”, deseja urrar a tinta que escreve as palavras da chilena Violeta Parra.
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O sentimento destes torcedores da Banda Oriental, um povo que mal chega aos três milhões e meio de almas, é grande o bastante para fazer sua seleção pelear na Copa do Mundo até que não restem forças. Diego Forlán faísca como um raio entre a zaga dos Galos. Erra o passe. Maldiz todas as gerações dos idealizadores da Jabulani. Segue marcando. A França pressiona, vai e vem, cheia de si depois de ouvir de muitos que tem mais qualidade. Terá mesmo? Estamos no segundo tempo da partida da Celeste com essa França de pouco brilho que é a França sem Zidane, uma França cambaleante como todas as Franças entre Platini e Zinedine – e o Uruguai já cresceu.
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Talvez não tanto quanto o Loco Abreu crescerá para interromper uma cobrança de falta com o maior pulo do último centênio, apoiando-se nos companheiros, mas o bastante para comprovar que a realidade francesa mudou. Há um Henry e um Ribéry, mas também há o comum GOVOU com a camisa dez e um DIABY sem qualquer motivo para estar ali pintando de surpresa na equipe titular. Falta, principalmente, Zidane – e a história recente do selecionado francês é a de um time dependente do seu maior nome. Sem ele, o vice-campeonato de 2006 é, em 2010, tão distante quanto o título de 1998 fora em 2002.
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“Yo quisiera contar com usted / Es tan lindo saber que usted existe / Uno se siente vivo”. Os versos apaixonados assinados no ladrilho por Mario Benedetti caberiam aos franceses alijados de seu herói. E se é real que a FIFA não deixará a África do Sul ser eliminada em casa na primeira fase, sendo capaz de surrupiar até as vesículas dos adversários para permitir sua classificação, só um time entre francos e orientais poderá sair vivo do quadrangular – ou, repetindo 2002, morrerão juntos. O tempo passa. O zero a zero consome os minutos, as unhas, os resquícios de consciência.
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Uruguai vivo. França viva. Uruguai morto. França morta. Os segundos que aproximam o esperado chivito da sua mesa no bar de Rivera são os mesmos que vão sem ajudar a vislumbrar o futuro de cada time. Nos mares da Cidade do Cabo, o espelho de águas já se incendiara havia algumas horas conforme o disco do sol mergulhava nele devagar, passando depois a refletir o céu cada vez mais obscuro da noite. No Uruguai, alguns fusos horários antes, ainda é dia. Mas, a despeito do céu limpo, o cinza tinge as ideias dos orientais quando Lodeiro leva o cartão vermelho.
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“¡Qué sufrimiento, por Dios!”, geme o narrador na televisão. O jogo se inverte uma vez mais. O crescente Uruguai agora arrefece, volta, tem em cada camisa celeste um escudo a resistir pacientemente ao assédio francês. Os gauleses de Asterix só temiam que o céu despencasse sobre suas cabeças. Estes tremem pelo apito final do árbitro. Ouvi-lo é o único desejo dos uruguaios que, com apenas uma vitória em mundiais nos últimos quarenta anos, preferem adiar a melhor estatística. Em Rivera, os punhos batem impacientes nas mesas e as mãos só se abrem quando se direcionam às cabeças. Enfim o japonês do apito sopra seu instrumento, consentindo que elas se espalmem para bater uma na outra.
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Aplausos, ainda que moderados, irrompem com o fim da partida – entre os amigos reunidos no bolicho da esquina, em meio à aglomeração que assistiu ao embate diante da vitrine repleta de tevês, ou pelas palmas dos sujeitos que viram a estreia no diminuto quadrilátero de metal da banca de jornais. Menos euforia que saudação pela resistência. Como todos empataram na chave, perdeu-se uma rodada. Há a desvantagem do número de gols marcados, em relação aos mexicanos e sul-africanos que saíram de campo com 1 a 1 entre si, mas é quase como se a Copa não tivesse começado para o Grupo A. Para todos, uma nova chance de iniciá-la – para o Uruguai, vitimado pela primeira expulsão do mundial, um renascer mais saboroso.
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Diz outro ladrilho, agora sem autoria definida, que “la vida es hecha de sucesivos comienzos”. Ao contrário dos orientais, contudo, que na maioria não viram as glórias da Celeste, eu pude observar a França sendo campeã do mundo. E não é de começos assim que nascem as ilusões.
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Maurício Brum (fotos minhas; com exceção da última, que é de Iuri Müller)
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