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Vestindo a bandeira dos deuses

O azul do céu de Montevidéu sumiu e nenhum raio de sol ousa trespassar as nuvens que acinzentam o horizonte da capital do Uruguai. É a manhã do dia seis de julho de dois mil e dez. As ruas estão frias, as árvores nuas, e o inverno põe um vento gelado a soprar entre os edifícios de topos empalidecidos pela névoa matinal. O sol está exclusivamente na bandeira. O celeste, apenas nas camisas. E o calor de hoje aparece somente nas esperanças de cada torcedor da Banda Oriental. Não é preciso mais. Na Plaza de La Independencia, Artigas contempla a montagem do tradicional telão diante da 18 de Julio, que em breve verá os carros substituídos por milhares de almas. Todas motivadas pelo sentimento de convocação que se repete no luminoso sobre a entrada da galeria do jornal El País: “sé parte de la historia”.
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Pouco a pouco, as bandeiras que tremulam nos varais dos vendedores ambulantes começam a ser empunhadas pelos transeuntes. Os periódicos falam em espremer laranjas, jogar a vida e saudar a grandeza de ser uruguaio. “Somos o Uruguai e devemos fazer com que o mundo saiba disso”, disse Fucile, antes da batalha contra Gana. O mundo havia esquecido. Os pôsteres que agora se exibem nas bancas de jornais montevideanas, pôsteres de Forlán em chamas com seu gol de falta, de Loco Abreu celebrando após o “penal picado” da classificação, de Muslera catando uma das cobranças ganesas e, acima de tudo, de Luis Suárez mantendo com as mãos os sonhos de várias gerações – esses pôsteres recordam o dia em que o mundo voltou a respeitar o Uruguai.
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A antologia de sexta-feira no Soccer City soprou as décadas de poeira depositadas sobre as façanhas uruguaias. De súbito, no instante em que a pelota de Gyan se esmagou no travessão e a mão de Suárez representou a Salvação, as glórias do passado ganharam novas luzes. A história de glórias uruguaias se repetiu na jornada de Johannesburgo e, ao contrário do que Karl Marx escreveu certa feita, não foi como farsa. O Uruguai buscou sua própria identidade para não ser mais um grito de outros tempos. E, desde as quartas-de-final, o Uruguai é hoje. O futebol reflete o ânimo renovado que se apodera deste povo tido tantas vezes como velho e melancólico. Mesmo com todas as limitações de um país com três milhões e meio de habitantes e escassa industrialização, os índices socioeconômicos têm melhorado nos últimos tempos. Mesmo com as inúmeras dificuldades de se montar uma seleção de alto nível num país tão pequeno, a Celeste atingiu as semifinais do Mundial – ou, como se prefere dizer por aqui, é uma das quatro melhores equipes do mundo.
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Mas a esperança é a ilusão do presente projetando a felicidade futura. Como não fazia há décadas, o Uruguai que se vê grande hoje acredita em surgir ainda maior amanhã. Não há uma esquina em que não se veja algum pedaço da cor azul que estava no céu, esta bandeira dos deuses, e os orientais roubaram. E em qualquer lugar que se vá, a seleção aparece. Seja numa foto, numa flâmula, num comentário. Ontem, em Rivera, alguns senhores com idade para ter festejado o Maracanazo discutiam sobre as semifinais da Copa. Concordaram que a Alemanha e a Espanha, que se enfrentam numa das pontas, eram seleções de estilos bastante distintos. Sobre o Uruguai, não queriam discutir com a razão. Quando um fez uma previsão mais pessimista, questionando a opinião dos demais sobre o favorito numa eventual final entre germânicos e holandeses, ouviu imediatamente: “Holanda y Alemania sólo en el partido por el tercer puesto. No olvides que Holanda juega con nosotros”.
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Nas ruas de Montevidéu, versões platinas da vuvuzela sul-africana já se fazem ouvir a quatro horas do início da partida. Os jornaleiros empilham as publicações que anunciam o confronto, os livreiros vestem suas bufandas, e os donos de bares próximos à Independencia oferecem como atrativo de seu estabelecimento a chance de ver o jogo num telão – o da praça. Isso porque o gris do firmamento, as gotículas de água que formam a bruma e gelam os ossos e o vento que leva os gorros mas não as aspirações são elementos que talvez impeçam a 18 de Julio de se ocupar inteiramente de aficionados durante a partida. Garoas intermitentes buscam complicar um pouco mais o momento. Não se pode torcer pela Celeste sem passar pelo sofrimento que precede a consagração. Ainda que se refugiem diante da tevê em casa, os cidadãos de Montevidéu, de Melo, de Rivera, de Tacuarembó, de Paso de los Toros e de todos os outros cantos do país passarão alguns dos momentos mais difíceis de suas existências. Desejando poder sair do lar, depois, para festejar – sob qualquer intempérie.
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Há o peso de uma vida inteira sem ter visto a bandeira uruguaia chegando tão longe nas tabelas mundialistas. Ainda se roem unhas freneticamente e se arrancam os cabelos em desespero quando o adversário ronda a área. Em muitas famílias, até mesmo os abuelos podem não ter a memória dos dias em que viveram momentos maiores que este. E quem viu as semis de 1970 não costuma compará-las às atuais: a grandeza de agora é dada como superior àquilo e, no sonho, capaz de se igualar à de 1950. É seis de julho de dois mil e dez em Montevidéu. Onze horas e meia da manhã. Um dia em que a natureza apagou a si própria para dizer que, hoje, só o povo pode brilhar. Ou então pode ser que o cinza esteja porque este povo, depois de tocar o céu na sexta, tenha decidido puxá-lo para si e torná-lo algo só seu.
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Vestem-no. Estamos a duzentos e quarenta minutos da maior guerra futebolística do Uruguai nos últimos sessenta anos e as camisas celestes se multiplicam nas ruas.
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Maurício Brum
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