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Libertad, o con gloria morir

O caminhar apressado sobre o concreto da 18 de Julio ecoa por entre as ruas vicinais quase vazias. É ruidoso porque não reflete o simples bater do sapato no chão, mas vem acompanhado de cornetas, bumbos e evocações. Um ouvido mais apurado captaria o escorreito chiado do pavilhão oriental balançando ao vento. Restam instantes para o início da partida. Ainda há névoa em Montevidéu quando José Artigas, sobre seu cavalo de bronze, mira o fundo dos olhos de cada um dos milhares de uruguaios reunidos diante de si. Entre o libertador e o povo, uma transmissão desde a longínqua África do Sul oferece a visão de novos heróis.
A intenção dessas ruas que se esvaziam de carros para encherem de espíritos a principal avenida é a mesma dessas sacadas sobre as quais se amontoam torcedores, que é a mesma dessas fachadas de edifícios tapadas por bandeiras, que é a mesma intenção berrada nessas cantorias: “volveremos, volveremos / volveremos otra vez / volveremos ser campeones / como la primera vez”. Ou como a segunda vez, lembrada numa dessas faixas penduradas pelas varandas, ansiosas pela reedição do épico a ponto de abandonar o castelhano – “1950 reloaded”. Os uruguaios acreditam na façanha. Para muitos, é um sentimento jamais sentido antes. E estes que estão enchendo os quadrantes da Independencia são na maioria jovens para os quais todos os feitos nunca saltaram dos livros de história.
Pois a distância e a irrealidade desapareceram. “La Celeste nunca muere”, comemora outro pano, pendurado a dezenas de metros do chão, “y esta es su leyenda”, sussurra o anônimo que olha para ela no segundo em que o uzbeque Ravshan Irmatov manda a pelota ser movida na Cidade do Cabo. Montevidéu e as buzinas. Montevidéu e os rojões. Montevidéu e a fé. “Nos sobra fe”, diz a capa do periódico Ultimas Noticias que um torcedor carrega embaixo do braço; pedaços de papel que logo estarão cruzando os ares no primeiro lance que faça o sangue subir às ventas e exija reações acaloradas dignas de um sul-americano. De todos os sul-americanos, que neste seis de julho o Uruguai é o último pendão do continente no Mundial.
Joga-se pela América e também para vingar o Brasil, dizem os locais ao perceberem que dialogam com um sujeito vindo além da fronteira norte. Daquela terra estranha onde se fala português e que, apesar do enorme potencial para montar bons times, se quedou pelo caminho copeiro após cruzar com a Holanda que hoje se opõe à Celeste. Talvez só não se jogue pela Argentina, da qual tampouco se espera apoio. Os turistas estadunidenses que vagam por Montevidéu sem entender direito o tal do Soccer reclamam terem sido xingados ao tentar se aproximar dos torcedores da casa elogiando o futebol dos vizinhos. A rivalidade fez muitos uruguaios sonharem com uma final, permitida pela tabela, que repetisse a de 1930 – e que acabasse com sete jogadores para cada lado, após peleias infernais. O ascensorista do Edificio de la Ciudadela, aquele atrás do Artigas, torce o nariz ao ser questionado sobre um possível alento vindo depois do Prata. Não crê ter visto luz alguma no outro lado do rio.
Se for verdade que as diferenças intrínsecas à personalidade de cada nação mantiveram os ânimos distanciados na hora do jogo, aos dezoito minutos de partida houve comemorações em Buenos Aires. No Green Point, Giovanni van Bronckhorst acertou um chute do tipo que só se dá uma ou duas vezes na carreira e fez um a zero para a Holanda. Na tarde gris de Montevidéu, as feições mudam e os peitos estufados para os gritos parecem murchar. O torcedor que nunca desejou olhar o jogo, que foi à praça para ficar de costas para o telão e acompanhar o andamento da partida nas reações dos outros, entende rápido. Ainda que breve, o silêncio é gritante. Ensimesmado, o homem puxa um cigarro e se senta na grama com os globos oculares esvaziados em depressão. À jornalista europeia que vê a cena e planeja arrancar umas boas aspas, pede com um gesto de mão que sua soledad en medio de la multitud seja respeitada.
Não são todos, claro, os que têm na cara a derrota antes mesmo de um terço de hora se completar. Boa parte dos uruguaios reunidos na praça segue balançando seus pañuelos e puxa cânticos ao modo que costumava impressionar brasileiros nas Libertadores de trinta ou quarenta anos atrás – a voz sai brutalmente mais forte para dizer que nada se perdeu. Como que para ajudar aqueles cujo pessimismo impediu que fossem tragados pelo novo vagalhão de esperança, o céu cinzento se abriu misteriosamente, poucos minutos depois do gol holandês. As vidraças ao lado de Artigas espelham o sol que não está mais apenas nas bandeiras, e o firmamento volta a se pintar de celeste passando a mensagem de que os deuses não aguentam mais ficar indiferentes.
Conforme o tempo melhora, e o Uruguai cresce em campo, aumenta a demanda para ter a cara pintada. Um punhado de moedas, ou uma só, é o custo para tingir a pátria na pele. O jogo tenso não causa o mesmo efeito comercial em relação à comida. Por alguns minutos, o nervosismo faz com que a única fome do Uruguai seja igual à dos atacantes, que querem se alimentar de gols. Mais por propaganda que por vontade de comer, ao vendedor de panchos só resta consumir a própria mercadoria. Ele aguarda o intervalo do jogo e a relativa tranquilidade de quinze minutos, capaz de botar alguns estômagos para roncar. Mas sabe que o caminho mais fácil para embolsar seus pesos é um pelotaço nas redes laranjas, saciando a todos os famintos da Banda Oriental.
Esta bendita inanição não mata ninguém, mas consome as derradeiras reservas da sanidade que já havia quase desaparecido das mentes uruguaias depois de Gana. No entanto, ainda que se procurasse de Paysandú a Treinta y Tres, de Salto a Las Piedras, de Fray Bentos a Cerro Largo, dos Estados Unidos à Austrália, em nenhum canto onde se escondesse um uruguaio se encontraria algum mais famélico do que Diego Forlán. Que aos quarenta e um minutos fez quase toda a América do Sul vibrar, o Uruguai inteiro urrar, e a Independencia explodir de felicidade como os rojões estourados sob um temporal de papéis picados. No instante em que a bola passou a linha fatal de Stekelenburg, as faces sorridentes regressaram ao horizonte do sul do mundo.
Foi o momento transcendental de uma geração de torcedores que, na realidade, comporta duas ou três gerações de orientais. O épico de sexta-feira não havia sido um delírio isolado nesses dias julianos e os escritos dos livros eram muito mais que fábula. Entre uma garrafa de Patricia emborcada e uma caixinha de vinho bebericada, as frases dos jovens ao intervalo acumulavam termos não ditos para a Celeste havia tempos. O passado visto por poucos ficou definitivamente crível por todos, e o agora se tornava uma continuidade de tudo aquilo. Enquanto Uruguai e Holanda permaneceram recolhidos em seus vestiários sul-africanos, ser campeão do mundo foi sentença pronunciada no tempo futuro em Montevidéu.
Mas na volta ao campo a arbitragem surrupiou os sonhos do país, dando valor à irregularidade do segundo tento holandês. Três minutos mais tarde, aos vinte e oito da etapa complementar, Robben meteu outro. O placar elevado a três bolas na rede contra uma estabeleceu a aura de tristeza sobre os montevideanos. Alguns recolheram seus materiais, tencionando caminhar na direção da 18 de Julio e, de lá, para seus lares. Foram pouquíssimos, porém, os que de fato fizeram isso. Porque, antes de tomar esse rumo determinado por entre os prédios da capital, cada um deles se virava para trás. Via o telão reproduzir os celestes deixando tudo em campo e decidia que não era o momento de abandonar.
Assim, que por mais que os minutos se passassem com a Holanda pressionando e a goleada ganhando ares de iminência, o público na praça não se reduziu. Ainda que se chorasse, acreditavam em algo tão grande quanto toda a história e todo o povo juntos. O Uruguai estava morrendo na Copa do Mundo, mas não o faria se não fosse da única forma que sabe viver: lutando. E se a liberdade para subir até o pedestal da taça e trazê-la para a Banda Oriental não seria conquistada, haveria para sempre a glória de ter estado muito perto disso. Aos quarenta e seis do segundo tempo, a luminosidade que os olhos ganham diante do impossível tomou conta de quem mirava a tela, e se expandiu até deixar o rosto inteiro radiante.
O gol de Maxi Pereira fez valer a permanência até o fim. A fé na História. Quando todos estavam ocupados demais se abraçando e comemorando, General Artigas também deve ter levantado o braço para celebrar o dois a três. Os acréscimos encheram os corações de orgulho ao ver como o Uruguai crescia para cima da Holanda, e só os místicos podem dizer o que teria sido dos milhões de orientais se o empate tivesse vindo num daqueles enlouquecedores ataques finais. Com o último apito do uzbeque, a 18 de Julio não foi ocupada por duzentas mil pessoas festejando a classificação, como se queria antes do jogo, mas os que a percorreram cantavam com o mesmo ânimo de antes da partida.
A massa azulada que regressava para casa cantava e entoava mantras de exaltação ao time. “Soy Celeste” e “¡Uruguay! ¡Uruguay! ¡Uruguay!” eram palavras que subiam no ar, e os carros começaram a reaparecer nas ruas unindo suas buzinas ao movimento. Não se festejava a eliminação, naturalmente, mas a campanha e o renascer das perspectivas. Desde antes do jogo, o jornal El País pedia aos torcedores para que fizessem parte da história, anunciando que colocaria, na Plaza de Cagancha, faixas de cinquenta metros de comprimento para que todos assinassem com mensagens de apoio. A concorrência pelas canetas foi absurdamente maior depois do jogo do que nas horas prévias. Entre os vários textos, uma simples palavra coincidia: “Gracias”.
As muitas crianças que estiveram na Independencia provavelmente não entenderam a real dimensão daquele dia. Crescerão tendo na memória os recuerdos das semanas em que viram na praça sua primeira Copa do Mundo – e, nela, estiveram frente a um grande selecionado. Por presenciarem tão cedo um momento desses, devem crescer mais inconformadas diante dos percalços futuros. Compõem pedaços de um Uruguai que não quer mais ser marcado pelo saudosismo – em todos os setores. Sabem desde logo que é possível ir além do que seus irmãos mais velhos e pais se acostumaram a ver.
Ter noção de que os maiores feitos são realizáveis é parte fundamental do ato de buscá-los. Os montevideanos mais idosos, por exemplo, não traziam em si a mesma satisfação dos jovens após a derrota para a Holanda. Quem tinha idade, em 1950, para compreender o Maracanazo, segue querendo mais. Até pouco tempo atrás, esses anciãos mergulhados na melancolia costumavam assustar os mais novos dizendo que as glórias celestes não tinham como se repetir. Ao fim da terça-feira ainda tentavam disfarçar, mas nem eles conseguiam esconder a felicidade por este time de 2010. Como seria possível chegar tão longe, tanto tempo depois? A resposta eles dão com outra pergunta: “¿Conocés la Garra Charrúa?”
*
Maurício Brum
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  1. Eduardo
    23/07/2010 às 18:07

    Sensacional Mauricio. muito bom texto. Li o texto do Iuri no Impedimento e resolvi passar por aqui prá ver se tinham escrito algo… parabéns.

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