Início > Recuerdos > “A Seleção Espanhola foi um ponto de união de todo o país”

“A Seleção Espanhola foi um ponto de união de todo o país”

Desde domingo, os espanhóis tocam o céu. Mas só se interessam por uma estrela: a que simboliza o título mundial. Por conta das defesas de Iker Casillas, da artilharia de David Villa, do gol do agora imortal Andrés Iniesta, da maestria de Xavi Hernández no centro, da segurança de Carles Puyol na defesa… ou das profecias do “pulpo” Paul no Aquário de Oberhausen. Não importa a que exatamente se deveu a vitória, como tampouco importam os clichês tão repetidos pela imprensa brasileira de que o título espanhol representou o triunfo do futebol bonito e etcétera. O momento em que a taça foi erguida o mais alto possível para que todos pudessem ver que a frase tão sonhada – “A Espanha é campeã do mundo” – era enfim real transcende o futebol: a crise econômica e o desemprego foram esquecidos por alguns dias, e até o povo das regiões separatistas esteve ao lado da Seleção como nunca antes. Por todo o país, 86% dos televisores estiveram ligados na transmissão do jogo contra a Holanda e, após o apito final, mais de 25 milhões de espanhóis tomaram as ruas em celebração. A realidade volta a se impor conforme os dias mundialistas vão se quedando no passado, mas na Espanha ainda se flutua entre as nuvens. Com o suporte de Iuri Müller e Yuri Medeiros, conversei na sexta-feira com Roberto Palomar, redator-chefe do Diário Marca de Madrid, o maior periódico esportivo da Espanha. A entrevista que se segue é um relato desde o paraíso proporcionado pelo título mundial.  (Todas as imagens que ilustram a postagem são reproduções das páginas do Marca de segunda-feira, 12 de julho de 2010, dia seguinte à conquista do planeta)
*
*
*
P: O Marca fala muito da Idade de Ouro do esporte espanhol. O que é a Idade de Ouro e como o título Mundial da Seleção Espanhola entra neste ciclo?
R: A Idade de Ouro do esporte espanhol compreende os grandes êxitos dos esportistas espanhóis nesta década. Estamos com Rafa Nadal, que é o número um no tênis; com os dois títulos mundiais de Fernando Alonso; com o campeonato mundial de basquete e os dois anéis de Pau Gasol na NBA, pelo Los Angeles Lakers; com os dois Tour que Alberto Contador ganhou na França, e aqui na Espanha o ciclismo é um esporte muito seguido… Com tudo isso, faltava que a Seleção Espanhola de futebol se incorporasse a esses êxitos. No futebol espanhol, é verdade que em se tratando de clubes há potências importantes como o Real Madrid e o Barcelona, mas faltava o sucesso da Seleção Espanhola. Então, a vitória de domingo contra a Holanda serve um pouco para fechar o círculo mágico: nos grandes esportes do mundo, a Espanha é uma potência e, felizmente, o futebol se incorporou a essas vitórias.
*
P: E como o povo recebeu a conquista, principalmente nas regiões separatistas, como o País Basco e a Catalunha?
R: Contrariamente ao que se poderia pensar, as audiências de televisão na Catalunha e no País Basco demonstravam que o seguimento da Seleção Espanhola era importante. Inclusive, quando se jogou a final, houve telões na rua e nos lugares públicos, onde o povo pôde se concentrar. Muita gente foi para as ruas com bandeiras espanholas, tanto no País Basco quanto na Catalunha. É algo que aconteceu já na Eurocopa de 2008 e que é muito estranho de ver, porque é certo que existe um pouco esse clima de autogoverno que querem ter a Catalunha e o País Basco. No entanto, a Seleção foi um ponto de união de todo o país, e foi um êxito absoluto, com o povo na rua e as bandeiras nas janelas das casas. Eu estou convencido de que, se ao invés de ter aterrissado em Madrid, a Seleção tivesse pousado em Barcelona, teria havido uma recepção similar.
*
P: Pergunto isso também porque o Diário Sport de Barcelona colocou na capa, durante a Copa do Mundo, sempre notícias do Barça em destaque, e não da Seleção. É possível dizer que há um movimento contra a Seleção, mas que não seria tão forte?
R: Não há movimento contra a Seleção. O que acontece é que o Diario Sport tem um mercado na Catalunha, e isso é indubitável, e para eles é mais interessante vender os êxitos dos jogadores do Barcelona, nas suas seleções e na equipe espanhola. Não creio que isso possa ser interpretado como um movimento contra a Seleção. O que acontece na Catalunha e em Barcelona é que eles dizem que o jogo da Seleção é muito parecido com o do Barcelona. Precisamente porque há no time sete jogadores do Barça. Oito, agora com o Villa. Então se diz que a Espanha vive às custas do Barcelona. Mas isto, no resto da Espanha, se aceita: é verdade que a Seleção Espanhola se nutre de jogadores do Barcelona. Disso ninguém pode esquecer, nem de que o jogo é parecido. Mas estamos muito contentes que a Espanha jogue como o Barcelona, porque o Barcelona é o time que melhor joga no mundo.
P: Durante a Copa do Mundo, Casillas comentou que o futebol fez o povo esquecer um pouco da crise pela qual passa a Espanha. O título pode inspirar o país de alguma maneira fora do esporte?
R: É verdade que durante todo esse mês as partidas da Seleção foram vividas de forma muito intensa na Espanha, e o povo pôde esquecer um pouco da crise. Principalmente para o governo, eu creio que eles devem ter gostado de que se falasse de futebol e não de crise. O que ocorre é que agora, nesta próxima semana, vamos voltar à crua realidade: os impostos subirão, subirá o petróleo e todas essas coisas, e isso não é segredo para ninguém. É certo que houve um pequeno incremento no Produto Interno Bruto, que subiu 0,7% durante a Copa do Mundo. Isso porque o povo consumiu mais: foram vendidas muitas bandeiras, muitos jogos foram vistos em locais comerciais e em bares – as pessoas saíam para tomar cerveja, tomar café, enquanto viam as partidas. Houve então uma pequena incidência, muito pequena, na economia espanhola, e isso é importante. Toda a vida foi assim, não? Quando há êxitos esportivos, a questão política fica um pouco de lado – neste caso, a crise. Na Espanha foi assim. Foi uma loucura. Durante este mês, aqui só se falava de futebol, não de crise.
*
P: Voltando então ao futebol. Não soa absurdo que a Espanha não tenha nenhum jogador entre os três melhores da Copa, segundo da eleição da FIFA?
R: Sim, soa absurdo. Mas também soava absurdo durante os jogos, quando chegava a escolha do melhor jogador da partida. Não falo só dos jogos da Espanha, falo em geral, em todos os encontros: raramente coincidia o melhor jogador de verdade com aquele que a FIFA dizia. Eu não sei muito bem como é feita esta eleição e ela é um pouco estranha, porque não pode ser que a Seleção campeã, a equipe que supostamente jogou o melhor futebol – ou que está entre as três ou quatro que melhor jogaram – , não tenha tido mais jogadores indicados ao prêmio, ou que a Bola de Ouro não tenha sido vencida por um jogador espanhol. O que sucede é que aqui na Espanha nos damos por satisfeitos com a Copa. Para nós é indiferente que não haja nenhum jogador nosso entre os premiados ou que não tenham se lembrado de mais algum deles. Nós estamos com a taça e pronto. Mas é raro o sistema de eleição da FIFA, eu realmente não o entendo muito bem.
*
P: Aqui no Brasil em 2002 se comentou muito que Ronaldo não ganhou a Bola de Ouro da Copa, e sim Oliver Kahn…
R: É incrível. É incrível que Oliver Kahn tenha sido o melhor jogador daquele torneio, quando precisamente na final quem ganhou aquela partida foi Ronaldo sobre o próprio Oliver Kahn. Mas enfim, a Copa de 2002 está na Confederação Brasileira, e é isso que importa. Kahn tem o troféu individual na sua casa, mas não lhe vale de nada.
P: E para o senhor, o melhor de 2010 teria sido Xavi, como muitos espanhóis comentaram?
R: Possivelmente o Xavi, sim. Ou o Iniesta, quiçá, pela transcendência que teve seu gol e porque fez uma boa final e um bom torneio. A eleição poderia estar entre os dois jogadores. Xavi começou a Copa um pouco fraco – foi de menos a mais. Iniesta manteve uma boa linha e, além disso, fez gols. Qualquer um dos dois poderia ter sido o Bola de Ouro.
*
P: Seu texto no Marca de segunda-feira, dia 12, falava sobre a humildade de Iniesta, um jogador eficiente em campo, mas discreto dentro e fora dos gramados. O senhor crê que se fez justiça para esse estilo com Iniesta marcando o gol histórico da final?
R: Sim, pois ele é um jogador que, estranhamente, embora tenha muita qualidade, não é midiático. Não sai muito na imprensa, nem faz muito ruído, nem se destaca por nada. É um jogador muito humilde, que foge completamente da figura de jogador de futebol a que estamos acostumados: com tatuagens, arozinho na orelha, pulseiras e faixa no cabelo. Iniesta não tem nada disso. É um tipo normal, que se pode encontrar na rua e não dirias que é futebolista. O gol dele é o triunfo da normalidade, e isso me parece certo. Me agrada que uma pessoa tão humilde e tão normal tenha recebido o prêmio inolvidável do gol e, com ele, entrado na história do esporte espanhol.
*
P: Agora toca pensar no futuro, também. De que maneira a Espanha pode se tornar uma equipe como a Alemanha, que chega sempre forte aos Mundiais, e não uma França, que depende de raras gerações boas?
R: Esse é o grande desafio que temos agora. Para isso, ajuda muito termos vencido já ao menos dois torneios importantes, como a Eurocopa e o Mundial. Eu creio que ganhar te faz entrar numa outra dimensão, na qual estão países como o Brasil ou como a Itália, que ano após ano apresentam equipes competitivas – embora desta vez a Itália tenha ido mal. O primeiro passo para se manter forte é ter jogadores de qualidade. Sem qualidade não há nada, por mais tradição que se tenha. A Espanha agora tem qualidade e juventude. Ademais, creio que os jogadores que vêm de baixo, que estão na Seleção Sub-19 que agora vai disputar o Europeu, vão ter um bom nível. Isso é muito importante. Se a essa qualidade tu unes a mentalidade de campeões que agora temos, com a experiência de ter ganho um Mundial, eu acredito que isso pode garantir pelo menos uma equipe competitiva para a próxima Eurocopa e para o Mundial do Brasil. Seria muito triste, com os anos que passamos tentando ganhar a Copa, que nos acontecesse como a França, que viu sua equipe desaparecer em quatro, seis anos. A Espanha tem a obrigação de se manter na primeira linha e tentar ganhar outro Mundial.
*
P: Para 2014 não haverá o polvo Paul… já se encontrou um substituto pra esse ícone da Copa de 2010?
R: Pois teremos que buscar um tubarão, uma baleia, ou qualquer outro tipo de animal que nos dê um empurrão e nos ajude a ganhar aí no Brasil. (risos) A verdade é que aqui, no começo, não se dizia nada do polvo Paul, mas conforme se ia acompanhando os resultados, de repente ele ganhou uma transcendência enorme. Eu recordo a sexta-feira, que foi quando ele deu os resultados da final, que todo mundo na Espanha estava pendente de um polvo. É inacreditável. Inclusive uma cadeia nacional de televisão transmitiu ao vivo como o polvo ia na direção da bandeira da Espanha. Mas em 2014 não estará o polvo, e teríamos que buscar um… um touro. Para nós um touro cairia bem, pois é um símbolo nosso.
P: E o polvo vai para Madrid mesmo? Como está a negociação?
R: Parece que há um zoológico em Madrid que tinha a intenção de comprar o polvo, mas no fim não chegou a um acordo com o zoológico da Alemanha. Isso é como os jogadores. O Real Madrid quer comprar um jogador alemão e o clube alemão não entra num acordo. (risos) No momento parece que o polvo vai ficar na Alemanha, mas para nós ele já fez um bom trabalho.
*
P: Ainda sobre 2014. A imprensa europeia, especialmente no início da Copa, fez algumas críticas à segurança na África do Sul. Existe um temor que o Brasil não consiga garantir a tranquilidade dos visitantes durante o Mundial?
R: Na África do Sul, no começo, houve problemas. Mas eles logo foram corrigidos e, no fim das contas, foi um bom Mundial e todos estão satisfeitos. Não creio que tenha havido muitos problemas mais que na Europa. Estou convencido que na Europa, nos Mundiais que aconteceram aqui, na Alemanha ou em qualquer outro, também houve roubos e também houve dificuldades. Creio que no fim tudo isso é controlado e que se fala demais de questões não tão grandes. A África do Sul esteve muito bem no Mundial e o Brasil, que já tem experiência em outros eventos, também não deve ter maiores problemas. Eu não acredito que haja dificuldades insuperáveis. O futebol ajuda mais a unir que a causar problemas.
*
P: Para a próxima temporada da Liga Espanhola, o Madrid quer contratar mais jogadores estrangeiros para recuperar o título, mas agora a maior parte dos campeões do mundo pela Espanha estão no Barça. O que pode fazer o Real Madrid contra esse Barcelona?
R: O Real Madrid contratou Mourinho, um treinador que foi uma grande estrela desta temporada, mas Mourinho tem um problema que se chama Barcelona. O Barcelona está muito forte. E contratou David Villa antes do Mundial, uma transferência que agora teria custado muitíssimo mais dinheiro. É uma equipe que está montada, que tem juventude, e que está motivada e com fome para seguir ganhando. O Barcelona ainda é o grande favorito da Liga Espanhola. O Real Madrid fez uma equipe competitiva e agora está contratando jogadores de um perfil menor do que noutros anos. Este ano não houve um Cristiano Ronaldo, um Kaká, ou qualquer jogador deste porte nas especulações. São jogadores de menos destaque, como o argentino Di María, e agora o espanhol Pedro León, que nem mesmo joga pela Seleção, mas que é um bom jogador. No Bernabéu estão tentando armar uma nova equipe, mas o grande favorito segue sendo o Barcelona.
P: E o Atlético de Madrid, consegue manter Forlán, agora que o uruguaio é o Bola de Ouro do Mundial?
R: Já parece que começam a haver ofertas por Forlán. Aqui na Europa se fala que a Juventus de Turim pode oferecer 20 milhões de euros por ele. O problema dele é a idade. Forlán vai completar 32 anos e é difícil que saia por uma cifra grande. O Atlético se defende com a cláusula de rescisão, que é de 36 milhões de euros, uma quantia importante. Se o Atlético de Madrid conseguir manter o Kun Agüero e Forlán, e eu creio que conseguirá, já terá um êxito, e a partir daí pode tentar crescer. Já teve jogadores jovens que fizeram uma boa temporada: o goleiro De Gea, o central Domínguez, e com eles pode seguir crescendo. Mas seria muito importante que o Atleti conseguisse manter Forlán e Agüero.
*
P: Para encerrar a entrevista do modo como começamos, falando das vitórias da Espanha em diferentes esportes: por que a Espanha ganha tanto? Há um investimento significativo no esporte espanhol? O Brasil vai sediar os Jogos Olímpicos em 2016 e seria válido saber como triunfar em modalidades que não sejam as de sempre…
R: Não há um grande investimento em esporte na Espanha. A partir dos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992 houve mais ajuda para os esportistas, e é possível dizer que aquilo foi um pouco a base do que hoje chamamos de Idade de Ouro do esporte espanhol. Eu creio que as vitórias se devem mais ao fato de que a Espanha se modernizou a partir dos anos 80. Tínhamos um atraso de vinte ou trinta anos em relação à Europa, por conta da ditadura de Franco. Nos anos 80 isso mudou, nos igualamos à Europa, e a partir daí as novas gerações tiveram talento. Eu não saberia dizer uma fórmula para justificar por que os espanhóis estão ganhando… é uma mescla de talento, de competitividade, do fato de que gostamos muito de esporte neste país. Porque, se prestar atenção nos Jogos Olímpicos, não somos um país que ganhe muitas medalhas. Temos assegurada a medalha de Nadal, alguma coisa no atletismo, a medalha do basquete… e pouco mais. Ou seja: não somos um país muito medalheiro. Somos mais de momentos: ganhar Roland Garros, o Tour de France, o Mundial de Automobilismo com Fernando Alonso, e agora a Seleção Espanhola de futebol. Bom, aqui há talento, gostamos de esporte, o povo é competitivo e o país cresceu nos últimos anos. O que nos falta agora é jogar contra o Brasil, para sabermos quem manda de verdade no futebol. Falta ao mundo um jogo entre Brasil e Espanha.
*
* * *
*
Extras (reportagens veiculadas no rádio, produzidas em conjunto com Iuri Müller e Yuri Medeiros):
*
*
Maurício Brum
Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: