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Quatro (mil, anos)

Toríbio Herculano tem um nome bom demais para ser real, ainda mais se ostentar no sobrenome alguma coisa como, digamos, Cachoeiro. Toríbio Herculano Cachoeiro, se existisse, seria torcedor do Grêmio, teria uns dezoito ou dezenove anos e manteria uma carteirinha de sócio do clube. Carteirinha do plano que não há mais, aquele que garantia entradas gratuitas no estádio até o fim dos dias, e para o qual era preciso pagar uma joia – no tempo em que era jóia, com acento. Toríbio viu o valor da mensalidade dobrar desde que entrou nos quadros sociais do clube, ouviu os boatos de que perderá seus direitos na futura Arena, mas, por não possuir responsabilidades muitas e manter algum ânimo de ajudar o Grêmio, continuou firme. Exibia até com algum orgulho a data da matrícula: dezessete de agosto de 2006, um dia depois de o Inter ganhar a Libertadores da América – “não me mixei”.
Toríbio Herculano Cachoeiro, dezoito anos e alguns quebrados, natural de Poço das Antas, sustenta com sua mensalidade que paga antecipada todo janeiro – para pegar o desconto, que ninguém é de ferro e a crise nunca foi marola – os salários de Hugo Henrique Assis do Nascimento, vinte e sete anos, natural do Rio de Janeiro e residente em Porto Alegre, embora não tenha preconceitos e durma em qualquer gramado pelo Brasil afora. Hugo, meio-campista cuja nau parece ter ido a pique enquanto tentava singrar para o lado de lá do Cabo da Boa Esperança do apogeu futebolístico, dedica alguns minutos, duas vezes por semana, à Revolução. Não empunha bandeiras vermelhas, pois não pegaria muito bem na condição de jogador do Grêmio, mas de certa forma está contra o Sistema, essa entidade malévola representada na figura pastoral de Silas.
Ao menos é no que Toríbio quer acreditar. A imagem do boicote ao comandante é a alternativa mais confortável para um povo que ainda não assumiu completamente que seu time possui limitações sérias e prefere crer no rebaixamento como uma situação artificial criada pelas circunstâncias.
O maior passatempo dos gremistas nos dias de hoje é pensar no que fariam ou diriam a Silas e Luiz Onofre Meira caso os encontrassem numa obscura ruela porto-alegrense. O plano mais cruel citado nas imediações do Olímpico inclui uma mordaça, correntes, e uma viagem até o centro de Bagé, onde o sujeito seria abandonado com uma plaquinha suicida no pescoço dizendo “Fronteiriços maricões”. Na falta de perspectivas de realizar esses anseios brutais, algumas facções da torcida tricolor vêm planejando brigar entre si, no que em breve poderá ser o segundo maior passatempo dos gremistas, superando em preferência o ato de dormir na hora das partidas, que atualmente vem sendo a resposta silenciosa à falta de motivação dos jogadores.
Tudo é turvo quando se fala no futebol do Grêmio após a Copa do Mundo. Ele, que antes do Mundial provocara um número de jogos bons contáveis apenas nos dedos de uma mão, agora desapareceu. É como quando se vê o sol se pôr no meio de um denso nevoeiro e não se tem a certeza de que ele voltará no dia seguinte. Foi por isso que Toríbio, ao sair de casa na quarta-feira tempestuosa de Porto Alegre, pensou que seria uma boa noite para seu time. Chovia. Mais do que chovia: a água ocupava tanto espaço que o ar parecia vir em bolhas até as narinas, e não seria surpresa se algum SALMÃO dos córregos vizinhos errasse o caminho e começasse a nadar pelo rio que vinha das nuvens. Tanto líquido espalhado pelo campo só poderia significar que não haveria espaço para futebol no jogo do Grêmio contra o Vasco.
“Excelente”, pensou Toríbio, certo de que este tricolor não exibe futebol, mas algo vagamente parecido com. Os primeiros minutos da partida fizeram o entusiasmo ser revisto. A cada carrinho e dividida que punham o gramado a soltar água para todos os lados como um cusco ao sair do banho, notava-se mais claramente que nem o futebol nem a atividade desempenhada pelo Grêmio nas últimas semanas eram praticáveis ali. Ia-se por uma terceira via. Com o gramado transformado numa autêntica várzea – no sentido puro e não-futebolístico da palavra –, os defensores do Vasco foram os fragmentos de time que melhor compreenderam o que deveria ser feito, e as ESCARRADAS do céu só não foram mais abundantes que os chutões cruzmaltinos. E que os erros de Heber Roberto Lopes, o Calvo, que nunca gostou muito do esporte e, para complicá-lo um pouco mais, mal cogitou interromper a partida por falta de condições climáticas.
Os gols da primeira etapa, um numa falha de Victor após bola parada e outro num chute de incomum felicidade de Jonas, já estavam bem distantes na linha de tempo do jogo quando, em meados do segundo período, a torcida gremista gritava para que se lançassem na área vascaína até as cobranças de falta efetuadas atrás do meio de campo. O Grêmio atendia e acumulava erros miseráveis, enquanto às orilhas do gramado Silas retardava suas próprias substituições recitando longos tratados sobre tática, vida e atualidades para o reserva que esfriava sob a chuva. Talvez questionasse William Magrão sobre os vendavais que rodopiaram por Gramado e Canela, pois no universo alternativo de Silas é bem possível que um jogador aquecendo na alienação de trás do gol esteja sabendo todas as notícias da noite.
Nisso, o telão do Olímpico exibiu o público de pouco mais de quatro mil pagantes, quiçá o menor do Grêmio num jogo de Série A desde que o time voltou para a elite, em 2006. Ah, 2006. No espaço coberto da social, apinhado de torcedores procurando fugir da chuva, Toríbio puxou seu cartão de sócio, lembrou de quatro anos atrás, do dia dezessete de agosto e de tudo o que havia na alma dos gremistas. Era o tempo da reconstrução. O Inter começava a acumular glórias, mas os tricolores voltariam a erguer seu clube e levá-lo longe assim novamente. O quadro social do Grêmio inchou a ponto de certos planos com mais regalias serem abolidos. O presente anunciava um futuro dourado, ainda que distante, e havia noção disso para suportar os vice-campeonatos doídos de 2007 e 2008 – eram jornadas grandiosas que aconteceram cedo demais. O re-estabelecimento verdadeiro ainda viria.
*
Mas o que veio foi 2009.
*
E um jogo sem alma seguido de outro jogo sem alma que trouxe na sequência mais um jogo sem alma levaram o time às semifinais da Libertadores e construíram uma extraordinária invencibilidade em casa, mas já então não ecoava pelas arquibancadas o mesmo sentimento dos anos anteriores. Os gremistas perderam o espírito de defender uma causa parida nos Aflitos, a de que se lutaria até o fim pelo futuro, porque deixaram de ver em campo a própria luta pelo futuro. Do discurso brasa-molhada da direção aos treinadores que sacaram a pegada do time, passou-se pelo desmanche do que se remontava. O time que em 2006 fez a esperançosa melhor média de público do Brasil tem agora quatro mil pessoas cansadas no estádio – sem a chuva, talvez fosse o dobro disso, o que ainda seria pouco. Quatro anos depois dos torcedores que não queriam saber do sucesso do Inter para se associar ao Grêmio e fazer o amanhã, estamos no amanhã com o tricolor de volta à zona de rebaixamento e os colorados à beira de vencer mais uma Libertadores.
Quando a reluzente careca de Heber se esticou para que ele soprasse o apito pela última vez na quarta-feira, o um a um fez os quatro mil e poucos aficionados vaiarem. Toríbio consolou-se comentando para um amigo: “pelo menos o Silas vai cair e a coisa deve melhorar um pouco”. Depois escutou no rádio que nem isso aconteceria. São anos difíceis para os gremistas.
*
Maurício Brum
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  1. 22/07/2010 às 17:07

    meu deus, que texto!

    espetacular!

    se te consola, não levaremos a América, não desta vez. Está tudo dando muito certo.

    • perin1979
      22/07/2010 às 21:11

      To com o LF, acho que é isto que irá acontecer. Não tem como 2006 + 2004 no mesmo ano. Talvez um 2009, ano do quase 3x…

  2. Ricardo Lacerda
    22/07/2010 às 17:27

    Belo texto, velho…
    Entende do preto no branco. E do azul também.

  3. 22/07/2010 às 20:22

    Fantástico o texto.

  4. 22/07/2010 às 20:47

    Bah, que baita texto.
    Uma pena o tema dele. Não há luz no fim do túnel a curto prazo…

  5. Daniel B Strehl
    22/07/2010 às 22:12

    Mas bah… baita texto. Somos alguns milhares de Toríbios afinal.. porém ainda sonho com uma luzinha no fim do tunel. Não acho que consigamos sair do outro lado com o Silas tirando a molecada de campo. Acabando com o futebol de Maylson, Mario e muitos outros. Trocando Mythiue por Leandro. O novo pelo caquético. Agora… contra o Cruzeiro vamos levar um chocolate se ficar assim. Daí… quem sabe daí… o Silas cai. Poderiamos ter um Adilson Batista que se identifica conosco. Ou outros mil que vemos nos times do interior do Rio Grande que podem com orgulho vestir uma malha e um casaco tricolor (nada de terninho estilo Luxemburgo, que é só vitrine). Calção.. abrigo… farda!!!! Menos filura e mais raça.

  6. mdfranceschi
    23/07/2010 às 00:51

    Jogo que parecia de futebol de areia, só que na água. Lamentável ter ocorrido.

  7. arbo
    23/07/2010 às 18:35

    texto muito bom. bá.

  8. Frank
    24/07/2010 às 03:32

    Belo texto…

    Realmente, são anos muito difíceis para os tricolores…

    Agora pelo menos imagino pelo que meu pai passou nos anos 70… devia ser muito desanimador, como está sendo agora para mim…

    Precisamos de um novo André Catimba…

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