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Tristes versos de Natal

O Estádio Machadão, em Natal, é um iluminado disco de concreto que parece ter saído das páginas de um álbum de ufologia para pousar no meio da capital dos potiguares. A definição é certamente menos interessante que a escolhida em 1972 pelo então governador do Rio Grande do Norte, José Cortêz Pereira, quando da inauguração da cancha: um “Poema de Concreto”. Mas, numa sexta-feira em que o América confronta o Bragantino por uma esquecida rodada da Série B, os gigantescos degraus vazios soam muito mais alienígenas que poéticos na noite do Nordeste.
Zanzando pelas arquibancadas com uma câmera no pescoço, eu também não tinha jeito de ser do mesmo planeta que os torcedores americanos ali presentes. “Where are you from?”, escuto, ao intervalo da partida. No típico inglês de quem está acostumado a tratar com turistas de todos os cantos. Respondo: “do outro Rio Grande, o do Sul” – e quase aponto para uma flâmula do Grêmio pendurada numa copa próxima, ao lado de bandeirolas de clubes paulistas e cariocas. O torcedor pergunta, agora em voz baixa, para si mesmo: “mas veio até aqui pra ver… esse América?”. Ele se afasta, talvez pensando que naturalmente sou louco, mas pelo menos não um pedófilo europeu fazendo turismo sexual por ali, que só entrou no Machadão por engano, já que o estádio fica ao lado dum parque de diversões.
Diz aquilo porque sabe que o América não costuma ser dos clubes capazes de atrair viajantes de outras partes interessados no seu futebol. Ainda mais num ano desses, em que nem mesmo os torcedores estão desejando ver seu time. Havia 1.451 pagantes no estádio, sexta-feira. Reflexos de uma temporada deprimente. Apesar de ter entrado em 2010 como único clube do Estado numa divisão tão alta em nível nacional, o América seguiu com o seu mais largo jejum de títulos estaduais desde os anos 1960 – já emenda sete temporadas seguidas sem taça; neste ano, viu o rival ABC ganhar seu 51º campeonato e ampliar a diferença de conquistas para dezenove em relação ao Diabo, um dos muitos apelidos do América. No recriado Campeonato do Nordeste, o mefistofélico Mecão ocupa um frustrante meio de tabela e, na Série B, completa sua tríade: antes de sexta, havia vencido um jogo em nove.
Pequenas aglomerações de torcedores se formam em alguns cantos antes do jogo, e olhos destreinados preveem um bom público dentro do disco voador aterrado. São, na verdade, grupos pontuais, próximos a carrinhos que vendem comidas e bebidas para todos os gostos – dentro e fora do estádio. Em Natal, não é hábito atirar os produtos dos ambulantes dentro de campo. Talvez pelo fato de o adversário da noite ser o Bragantino, que simplesmente não tem nem traz torcida para esta banda, o numeroso policiamento se contenta em observar. Não faz revista nos aficionados que entram e, ao contrário dos seus correspondentes em outras regiões, passa a noite sem considerar garrafas plásticas como armas letais. Permitem que sejam vendidas e deixadas nas mãos dos torcedores com a mesma despreocupação direcionada às embalagens de pipocas nas quais está impresso o escudo do América.
Os jogadores do Mecão bem mereceriam algumas garrafadas por atuarem tão mal, mas a torcida se contém. Depois de começar levando alguns sustos, o quadro natalense vê como o Bragantino se apequena aos vinte minutos, quando tem um homem expulso. Toda a tendência da partida se inverte – dali em diante, o América tem o controle pleno do confronto direto contra o descenso. Como os alvirrubros, o Bragantino só venceu uma vez no certame, mas tem mais pontos em empates. O América, contudo, passa tempo demais tocando a bola à procura de um momento perfeito, um toque final e um espaço que se abra magicamente. Como se o corredor até o gol fosse uma terra prometida pelos avós e a troca de passes representasse a espera prevista em alguma profecia. Mas o América de Allan Delon confiou demais numa lenda que o Bragantino de Léo Jaime esteve disposto a rasgar durante todos os noventa minutos.
A brecha jamais surgiu. O tempo avançou sem que o time da casa conseguisse uma única oportunidade de invadir a área paulista em condições de bater a gol. A melhor chance da partida veio num chute de muito longe, aos 76 minutos, quando Fábio Neves acertou o travessão. O tamanho do lance ilude, pois no resto do tempo houve o tédio. Ainda assim, não era uma opção deixar de aguardar que chegasse o momento do América. Ao filho pequeno que pediu para ser levado ao banheiro na metade do segundo tempo, a mãe disse “faz aí”, apontou um canto da arquibancada, e seguiu vendo as investidas pífias do seu time. O menino, com a indiferença ao futebol que costumam ter os meninos nesta idade, abriu o zíper da calça e criou um córrego no concreto, na altura do meio de campo.
As críticas gritadas, as vaias, os clamores desesperados para que a equipe abdicasse do irritante e malfadado jogo pelo meio – “esse time não sabe jogar pelas beiradas”, repetia-se –, as vozes somadas dos poucos americanos que se dignaram a pisar no Machadão na sexta-feira não mudaram o zero a zero. Raras vezes um time sai de campo tendo ouvido mais impropérios que o árbitro e mais raras ainda quando é o quadro mandante. Após setenta dos noventa minutos em superioridade numérica, os onze homens do América conseguiram a proeza por não conseguir um gol. Diz a tabela que o Mecão está ameaçado de rebaixamento. A atuação urra com mais ênfase que os números: seguindo desta forma, o time está perdido. Se a Segunda Divisão é mesmo o Inferno dito por muitos clubes grandes, não é o Diabo de Natal que manda alguma coisa nele.
Como o ABC vem realizando partidas no Frasqueirão, seu estádio próprio, essas derrotas do América na B e mais alguns jogos do Alecrim, o terceiro clube de Natal em importância, na C, podem ser as despedidas do Machadão. Escolhida como sede da Copa de 2014, a capital do Rio Grande do Norte deve pôr no chão até o fim deste ano o estádio inaugurado em 1972. Em seu lugar, começará a ganhar contornos a futura Arena das Dunas – até agora, o mais caro, confuso e atrasado projeto para o Mundial. Se Natal cumprir os prazos para a Arena, o Poema de Concreto de Côrtez Pereira chegará aos seus últimos versos. Para o América, um final com ares de elegia, não de ode.
*
Maurício Brum (de Natal)
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