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O silêncio dos quero-queros

Há duas situações específicas que provam, num campo de futebol, de qual matéria é constituído um sujeito. Não se trata do pênalti no último lance do segundo tempo, do olho do atacante vidrado no globo ocular do arqueiro e da perna que não se sustenta rija por saber que dará o golpe decisivo nos rumos do dia. Qualquer drama é grande demais para ser a definição do sabor de uma vida – ninguém tem tantas epopeias ou tragédias que superem as horas absolutamente comuns. A existência é revestida de acontecimentos bem sutis que moldam o indivíduo. Um homem só sabe a qualidade do metal que puseram em sua forja diante de um zagueiro sanguinário que desliza num carrinho antropofágico – ou frente aos ferrões de um quero-quero.
Todo guri que já deu uns pontapés numa bola de futebol em algum quadrilátero de grama aberto sabe como é. Você corre. A ave espreita. Teus passos vêm pesados, afundando os pés na grama fofa dos campinhos mal tratados. O bicho abre as asas. A pelota meio que rola e meio que quica entre os buracos, e se aproxima perigosamente da área protegida pelo ser alado. O quero-quero ergue a cabeça, constata a falta de outras opções para agir e alça voo. Enquanto o menino corre para alcançar a bola vadia, o pássaro observa do ar e mergulha como uma flecha incendiária dos bárbaros de Odoacro. A primeira descida é para alertar. A segunda, para atacar. Mas em geral o jovem metido a futebolista muda o rumo da sua corrida para se afastar ao máximo daquele território perigoso onde um ser emplumado divide a soberania com alguns defensores.
Mesmo no esporte profissional, não são raros os atletas que preferem uma via diferente da que vai desembocar nas cercanias de um ninho. Especialmente no Centro-Sul do Brasil, os gramados dos estádios estão dominados por quero-queros em busca de campinas amplas na imensidão dos quarteirões impermeáveis e pouco verdes das cidades. Há tranquilidade nas canchas na maior parte do tempo, mas semanalmente esta guerra tem nova batalha – vinte e dois sujeitos espadaúdos ou mirrados que não parecem amigos uns dos outros, dois apátridas de bandeiras e um delirante neutro que insiste em apitar aparecem na morada das aves e põem em risco, com seus sapatos de garradeiras, toda a perpetuação da espécie. Contra a destruição e saque de ninhos, a quebradeira injustificada de ovos e as bolas catapultadas por assassinos, há as decolagens kamikazes e a precisão das asas pontiagudas.
Um zagueiro mau, no entanto, dificilmente teme um quero-quero. É notório que os pássaros ficam nos cantos de grama mais pisoteados pela retaguarda de cada time, mas esse convívio forçado não dá uma explicação total para a cumplicidade. Todo zagueiro tem coração de quero-quero. A grande área é o seu ninho. E a ave cortando os ares para defender seu pago e sua linhagem é idêntica, em essência, ao beque erguendo-se do chão para tesourar as pernas de um ofensivo e proteger sua meta. A ignorância é o refúgio final daqueles que não podem fazer diferente. A gambeta é um recurso de quem pode. Pelo triunfo muito mais saboroso que é definir o resultado de uma partida e não simplesmente sustentá-lo, os atacantes velozes fogem. Dos carrinhos. Dos voos rasantes. Tentam se incrustar numa zona que não é a sua, desejando apenas sair rapidamente dali, mas com o objetivo de fazê-lo comemorando o gol.
Na maior parte do tempo, os fazedores de gols não superam o ambiente. Apanham, erram, dependem dum fortuito que cobra sofrimento para vir. Isso é bom. Os antigos calibas, um povo da Ásia Menor conhecido por seus dotes em metalurgia, alertavam que as espadas só se tornavam invencíveis quando feitas de um metal temperado em sangue. Confrontados com o radicalismo analfabeto e animal das últimas linhas inimigas, até mesmo os jogadores constituídos de um latão pouco nobre podem ter suas moléculas reorganizadas de modo a formar um aço resistente. E, de brinde, têm uma experiência válida na formação do seu caráter. Jogadores e torcedores acostumados com cenas de hostilidade compreendem que a vida é feita de momentos dolorosos e necessários. Os brucutus e os quero-queros são indispensáveis para o surgimento de craques. Mas é impossível encontrar quero-queros nos estádios de Natal.
O ABC Futebol Clube, maior colecionador de taças em solo potiguar, é um dos únicos clubes do mundo a ter sido cinquenta vezes campeão de alguma coisa. Ganhou 51 títulos estaduais, incluindo dez em sequência entre 1932 e 1941. Só o Rangers, com 53 ligas escocesas, repetiu em mais ocasiões uma conquista. Em 2010, o alvinegro natalense conquistou novamente a taça local, aparece com a segunda melhor campanha do Campeonato do Nordeste e estreou com vitória na Série C nacional. Contudo, talvez o maior orgulho da maior torcida do Rio Grande do Norte não esteja nos números, na atualidade ou na sala de troféus. Trata-se de uma massa que infla o peito para, com um mapa de Natal em mãos, avisar que, nas cercanias de Ponta Negra, perto dos limites do município, está uma das “Sete Maravilhas” do Estado. E que na entrada dela está bem claro que é propriedade do “Mais Querido”.
Desde 2006, o ABC tem uma casa própria para botar nas súmulas dos seus jogos como mandante: o Frasqueirão. Frasqueira é como chamam a torcida do clube. O nome do estádio homenageia os aficionados e ironiza o passado. Conta-se que, nas primeiras décadas do século XX, os torcedores abastados do rival América sentavam nos setores cobertos do velho Estádio Juvenal Lamartine e se divertiam com a situação dos apoiadores rivais: mais popular, boa parte da torcida do ABC assistia aos jogos em pé, entre o muro das arquibancadas e o alambrado que cercava o campo. Na visão dos americanos, o setor repleto de alvinegros ficava lembrando uma frasqueira, dentro da qual se colocam recipientes na posição vertical. Como é habitual no futebol, o apelido depreciativo foi aceito e adotado. Hoje, a turma da Frasqueira tem um estádio inteiro seu. O América depende do Machadão, público.
No último sábado, enquanto folgava no seu pentagonal da primeira fase da Série C, o ABC chamou o Botafogo paraibano para um amistoso. Os potiguares deram chance a estreantes e reservas que vinham sendo pouco utilizados. Os visitantes tentavam amainar a crise que fez sua torcida trazer faixas viradas a Natal – o Botafogo é lanterna do Campeonato do Nordeste e estaria sendo rebaixado para uma segunda divisão que ainda não existe. Começaram bem, os de João Pessoa. O ABC foi para o intervalo perdendo com um gol de CHAPINHA, que, mesmo fracassando nas vinte e sete tentativas de driblar o goleiro no lance, foi capaz de marcar. Na etapa complementar, mais pressão do Botafogo. O protesto da torcida sumiu discretamente, com a retirada da faixa. Cresceram as vozes descontentes dos locais.
O ABC foi por investidas mais convictas nos minutos derradeiros. Logrou o empate por 1 a 1 no momento final da partida, após um escanteio aos 90+3 minutos: João Paulo Mineiro desviou na primeira trave e Édson completou para as redes. O empate da equipe cheia de reservas devolveu os sorrisos ao Frasqueirão. Estes são tempos otimistas para os alvinegros de Natal, que têm conseguido angariar mais e mais torcedores apenas seus – há por todos os cantos do Nordeste o esforço de quebrar o histórico de aficionados que dividem a paixão local com o interesse por clubes do Sul e Sudeste, priorizando estes. O time deste ano vem bem. O retorno à Série B é plausível. O título do Campeonato do Nordeste, também. Mas, no sábado, a cada tentativa de carrinho dos jogadores, algum torcedor pacifista se fazia ouvir:
*
– É só um amistoso!
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Só que também era o ABC tendo sua casa invadida e precisando lutar para manter a honra imaculada. Seguem faltando quero-queros nos gramados de Natal.
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Maurício Brum
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