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Labaredas do porão

Cerca de três horas dentro de um ônibus separam Natal de Campina Grande, no agreste paraibano. Duzentos e tantos quilômetros são quase nada para afastar a torcida do Campinense, que tem compromisso na capital potiguar pela segunda rodada da Série C. Garoa no fim da tarde dominical. Pelas frestas do Machadão, despontam muitas camisas listradas em vermelho e negro. Os verdes do Alecrim, time da casa, também se fazem notar. Aficionados locais e visitantes cruzam os pórticos indistintamente. Lá dentro, nada separa campinenses e alecrinenses. A divisão é meramente convencional: apesar de não haver isolamento, os visitantes se apinham à direita das cabines de imprensa. “Nos jogos em que conhecemos a torcida, não é preciso fazer separação”, afirma um policial.
Os gritos por Alecrim e Campinense, juntos, não superam a marca de três mil gargantas na jornada da terceira divisão. O efetivo de segurança para o jogo fica em torno de noventa homens, mesmo número destacado para partidas comuns de Grêmio e Internacional pela Série A em Porto Alegre – em rodadas com mais público. Não faltam policiais. E eles garantem: o procedimento padrão é telefonar durante a semana para os responsáveis pela torcida visitante e se certificar quanto a “quem” está vindo ocupar os lances de arquibancada do Machadão. A seguir, pedem-se confirmações de que não há pendengas que façam algo acontecer. A ousadia de abrir todos os setores para ambas as torcidas, comentam, acontece quase sempre. Uma das raras exceções é o clássico entre ABC e América. Nas vezes em que os dois principais quadros de Natal se cruzam, o total da guarda sobe para seiscentas cabeças, alvinegros e alvirrubros têm seus setores bem demarcados e até mesmo passam por revista antes de entrar na cancha.
No domingo, as duas torcidas podiam ingressar no estádio sem a experiência de serem apalpadas à procura de alguma arma em potencial. As cores distintas polarizadas voluntariamente em dois cantos do cimento começavam agora a fazer subir no ar seus versos, aquecendo-se para um jogo com passado em torneios nacionais: Alecrim e Campinense cruzaram caminhos na primeira fase eliminatória das Taças Brasil de 1964 e 1965 – os paraibanos triunfaram em ambas. Colocados lado a lado neste primeiro confronto entre si em 2010, os espectadores não reconheceram inimigos dentro das camisas opostas. Contentavam-se em ficar indiferentes. Ou agir com civilidade. Campinenses subiam os degraus sem medo e, em caso de dúvida, procuravam o primeiro tipo com jeito de ser da casa para tentar esclarecer a geografia do estádio. Em geral, tencionavam descobrir meios de acessar o anel superior do Machadão, onde se concentravam as bandeiras, estrelas e faixas rubro-negras. A polícia apenas via como os diálogos transcorriam sem problemas.
Com um balaio de laranjas a tiracolo, seu Jutaveira dos Santos é um dos muitos comerciantes que tiram proveito do ambiente pacífico para lucrar. Não falha nas tardes e noites de partidas no Machadão, passeando por entre os torcedores a anunciar seu produto. Seu Jutaveira prepara cem frutas a cada jogo, e se habituou a não ter mais nenhuma quando o juiz encerra o duelo. Cuidadosamente descascadas de modo a lembrar uma pelota de futebol, as laranjas só são abertas diante do comprador, permanecendo suculentas como uma bola que vagueia sobre a linha do gol. Os bagaços que sobram não são transformados em projéteis teleguiados com o rumo do campo – até porque o fosso e a distância exigiriam um braço de arremessador olímpico de martelo.
Assim como não passa pela cabeça dos torcedores atingir a cabeça dos treinadores, jogadores ou repórteres, tampouco se lê nas muretas das canchas as costumeiras mensagens suplicando ao público para que não atire nada no gramado, sob pena de perdas de mando de campo. Os donos dos bares do Machadão poupam segundos preciosos por não precisar encher copos sedentos durante a partida – simplesmente entregam latas e garrafas plásticas aos torcedores, que circulam livremente com elas nas mãos. “Para nós, não é uma arma”, confirma a policial, citando a falta de antecedentes de violência exercida com vasilhames. Quem trabalha nos bares do estádio não tem interesse em saber o que será feito do produto saído de seus refrigeradores, e está certamente mais preocupado com seu próprio futuro – ainda desconhecem o que a sorte e os planos reservam para eles após a demolição da cancha, este passo indispensável para prosseguir com a megalomania que os papéis chamam de Arena das Dunas e prometem erguer para receber o Mundial 2014..
O Alecrim, um time de bairro – e Alecrim é mesmo o nome de seu bairro, situado na Zona Leste de Natal –, congrega sua torcida com feijoadas antes dos jogos, às vezes seguindo dali para o estádio em carreata. Tem um perfil que se encaixa no clima de camaradagem que toma conta do Machadão. Terceiro maior campeão potiguar com sete títulos, o clube não vê a taça nem chega a finais desde 1986 e se sustenta com um número considerável de torcedores mais antigos. Boa parte deles está acima da faixa dos cinquenta anos. O sucesso na Série D do ano passado, cumprida com uma quarta posição que valeu a subida de nível, lançou uma renovação de ânimo para uma equipe enredada apenas no folclore. O Periquito de Natal lembra com carinho o dia em que um Mané Garrincha de joelhos já destruídos vestiu suas cores para um amistoso, perdido por 0 a 1 para o Sport de Recife, em fevereiro de 1968. Além disso, o Alecrim é o único clube do país que teve um Presidente da República em suas linhas – o natalense Café Filho, máximo mandatário do Brasil por 442 dias entre 1954 e 1955, defendeu o arco alviverde de 1918 a 1919, antes de completar vinte anos.
Na inauguração da sua passagem pela Série C 2010 os alecrinenses tiveram a primeira baixa. O empate por 2 a 2 fora de casa diante do Salgueiro, de Pernambuco, custou ao volante Carioca todas as partidas do porvenir. Ele rompeu o tendão de Aquiles e não volta nesta temporada. Carioca era o capitão do time, o líder para alcançar o devaneio de intrometer o dito terceiro clube de Natal na segunda divisão brasileira do ano que vem. A faixa carregada pelos companheiros prenunciou a falta que ele faria. E na primeira metade do jogo o Campinense esteve superior, chegando a esmagar uma bola na trave do goleiro alecrinense Jair. Helinho, Somália e André Cassaco, o ataque de três homens do Alecrim, não iam conseguindo fazer com que o foguetório ouvido na entrada do Periquito em campo parecesse capaz de se repetir ao término do confronto.
Descendo ao anel inferior para encharcar as entranhas nas copas do Machadão, os do Campinense tinham rostos mais esperançosos no intervalo do zero a zero. Escorados no balcão estendendo notas de dois ou cinco reais, ficavam ombro a ombro com os mais preocupados alecrinenses. Conviviam, mas não comentavam uns com os outros o que achavam da partida. A parte verde do estádio, nas conversas internas, persistia com a ideia de que uma boa volta ao terreno de jogo determinaria o destino dos pontos. O Alecrim regressou como eles imaginavam. O jogo se pôs ainda mais aberto que antes, e a franqueza revelou sequências de oportunidades claras para o time de Natal. Aos 57 minutos, Odair, o substituto de Carioca, tentou um cruzamento, avistou a bola desviando num defensor e empatou o número de redondas nos postes quando ela se estrelou no travessão.
O Alecrim se agigantava em proporções semelhantes à subida do estresse da torcida visitante. Unhas começavam a ser devoradas pelos rubro-negros, temendo o fim do saudável empate por placar nulo. O minuteiro se movimentou menos de dez vezes desde que os alecrinenses estapearam o poste, e então o interesse no jogo evaporou. Subitamente, torcedores do Campinense começaram a correr pelas arquibancadas, subindo até as aberturas do Machadão. Logo, pessoas por todo o estádio imitaram o gesto. A certa altura, havia mais espectadores de costas para o campo do que mirando o duelo. Os repórteres também esqueceram a partida, que seguia, e foram até as margens do fosso estendendo seus microfones para entender o que se passava. Na reserva do clube paraibano, Tazinho se aproximou dos aficionados perguntando o motivo das correrias caóticas. Ouviram a mesma frase que desencadeara a loucura: “o ônibus está pegando fogo”.
A calmaria com tensão somente pela partida deu lugar à perplexidade. Um dos ônibus contratados para trazer a torcida do Campinense a Natal estava sendo rapidamente destruído pelas chamas. Estacionado a uma distância de menos de cem metros do estádio, era consumido por um calor que podia ser sentido do topo do Machadão. A fumaça negra tomava os ares da noite e se fazia mais visível diante da iluminação do parque de diversões ali ao lado. Alguns solitários extintores começaram a aparecer, já ineficientes para conter qualquer labareda. A polícia, que nada viu, agora tinha alguns homens próximos ao carro. Davam tiros nas janelas, aumentando as inquietações dos rubro-negros com a possibilidade de alguém estar preso no incêndio. “É uma covardia”, balbuciava um catatônico senhor paraibano. Os alecrinenses se mostravam solidários.
Parte da guarda que ficou dentro do estádio era cercada por alguns visitantes exaltados. “Vocês têm que fazer algo! Têm que botar na cadeia quem fez isso!”, clamavam, já prevendo o que depois se confirmou: nenhum responsável pela segurança prestou atenção no estacionamento e não se identificaram as causas (e causadores) reais do fogo. Pelo anel inferior, um homem empurrava um carrinho de supermercados e recolhia cada extintor que encontrasse pelo caminho. Percorria lentamente, resignado com a inutilidade da sua empreitada. Os bombeiros chegaram a tempo apenas de matar as chamas e revelar o metal enegrecido que o calor retorceu. O motorista declarou ter sentido o odor característico da gasolina muito forte antes de ver o laranja do fogo ganhando da escuridão.
No auge do caos, um alecrinense distraído que decidiu voltar a olhar o jogo pôde pegar fios soltos da trama que originou sua vitória. O chute cruzado de André Cassaco não foi interrompido pelo goleiro Diogo, e Somália surgiu de trás, empurrando a esfera na direção das redes. O um a zero que elevou o Alecrim à liderança da chave nasceu aos 71 minutos. O ônibus ainda ardia. As chamas foram vencidas, a estupidez não. A perícia confirmará ou não a suspeita de vinte e oito entre dez pessoas que estavam no Machadão: o incêndio foi criminoso. Os torcedores do Campinense, porém, não cogitaram culpar o povo do Alecrim.
As razões acreditadas para o acontecido são tão surreais quanto o próprio ônibus incinerado numa jornada pacífica de Série C. Confirmada a hipótese de vandalismo, os principais suspeitos seriam membros de torcidas organizadas do América ou do ABC, que nada tinham a ver com a rodada mas mantêm relações amistosas com os representantes do Santa Cruz pernambucano, que por sua vez tiveram, recentemente, confrontos mais brutais com torcedores do próprio Campinense. No fim das contas, porém, pela falta de segurança causada muito mais pelo excesso de confiança das normas do policiamento que por culpa sua, o Alecrim e seus torcedores poderiam vir a ser punidos pelo ocorrido.
*
Na volta, os torcedores rubro-negros que vieram no carro carbonizado tiveram que se espremer dentro de um dos veículos sobreviventes. Não havia razões para inimizades no Machadão, domingo – mesmo depois do ocorrido, rubro-negros e alviverdes permaneceram convivendo sem atritos nas imediações do estádio. Mas há facções de arquibancada, alianças obtusas e interesses de uns poucos que frequentam os estádios para alimentar suas psicoses. E eles são incrivelmente capazes de se aproveitar da menor brecha dada por policiais que muitas vezes são criticados por excesso de truculência. O ônibus superlotado que cruza a estrada para Campina Grande após a derrota é uma reverberação dos ganidos saídos das profundezas do futebol brasileiro. Uma lembrança de que elas nunca estiveram sob controle.
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Maurício Brum
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