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Si yo me llamara Paco Garracuay

Naquela noite e por todas as outras que vieram no espaço de uma semana, sonhou com ela. Abria os olhos míopes e cravava a vista no embaçado teto cor de creme, imerso no misto de confusão e raiva que têm os despertos de sobressalto. No criado-mudo, o ciclópico rádio-relógio perturbava o escuro madrugador com um avermelhado três dois pontos zero zero horas.
*
Havia uns segundos, pudera sentir até mesmo a língua dela em sua boca, num beijo ao mesmo tempo doce e frenético. Agora estava ali, com a cabeça mergulhada na poça de baba do travesseiro. O rosto meio úmido e os olhos coçando. Não a conhecia. No fundo, acreditava que sim. A verdade, assumia, é que a vira poucas vezes. Ou tivera a impressão de vê-la. Nas calçadas envilecidas à meia-luz, ondulantes sacadas de manhãs poeirentas ou além das vitrines em cujos vidros se salientava o brilho dos faróis dos carros.
*
Momentos rápidos como as boas ideias que se escapam por falta de um papel para anotá-las. Depois, ela não apareceu mais. Só no subconsciente, sem que pedisse, em átimos inesperados nos quais a imagem dela irrompia como uma cordilheira no horizonte dos seus pensamentos lisos. Então queria voltar ao sonho, mas apontava os dedos no ar e não encontrava as bolhas sopradas pela mente noutras madrugadas.
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Dormia quase enforcado nos lençóis, em súplica e sacrifício. Os esboços dela não se punham facilmente no meio das projeções de cada sono. E tudo começara bem depois de vê-la pela última vez. Quando acordara na primeira noite, além de confuso e enraivecido, também estava surpreso consigo mesmo. Havia logrado recuperar uma memória distante e tão fugazmente registrada. E talvez estivesse enriquecendo o recordo com texturas nunca tocadas, sabores jamais provados e sons não ouvidos em tempo algum.
*
Às dez para as dez, no pretume de uma semana depois, puxou os cobertores. Estava já adaptado às visões que se repetiam sem justificativa. Deitou e dormiu. Rapidamente, pelo cansaço. Pesadamente, pelo álcool. Serenamente, pelo conformismo com o próprio destino. Caiu no colchão muito mais cedo do que vinha fazendo desde sabia lá quantas mil noites antes. Por trás das pálpebras cerradas, e também das impenetráveis persianas brancas, algo devia estar alumiando o céu da quarta-feira.
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Não lhe dizia respeito, repetira a si mesmo, entre soluços, momentos antes. Ainda que, por baixo da pele, seus ossos virassem farinha. A antecipação de uma sentença mortal. Afundou-se no sono porque nem a tortura mudou a frequência com que o tambor do peito ribombava – estranhamente, a mesma das tardes de tédio absoluto. Rolou na cama, meio degolado no edredom. Desta vez, ela não despontou: desapontou. Sentira mais agulhadas nisto do que naqueles sonhos repetidos, em que acordava vazio depois de possuí-la.
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Quando abriu os olhos, a lua era uma explosão do outro lado da janela. O calor fundia o passado e o presente. Arrebentava o futuro. A primeira coisa foi ligar a tevê. A segunda, ver um sujeito vestido de pirata correr ensandecido com as roupas ensanguentadas. A terceira, perceber como o fio da guilhotina despencava para separar seu crânio do resto do corpo. Dor não havia, anestesiado que estava pelos tempos e pelos líquidos fermentados.
*
Tinha lucidez o bastante para notar que ela já não era sua. Que ela não queria ser. E resmungou qualquer coisa sobre sonhadores que não sabem viver pelo mesmo motivo que os cronistas esportivos são pernas-de-pau e os poetas românticos são brochas. Amaldiçoou as noites perdidas com visões edulcoradas. Desejou apenas ter nascido um dia num paupérrimo vilarejo do interior dos altiplanos e se dedicado à criação de lhamas, alijado das ambições, dores e amores que não são.
*
No negror enfraquecido pelos fogos, as calçadas ganhavam voz e gritavam mais uma vez. Três a um. “Vai dormir, gremista nojento”, estrilou uma janela vizinha, enquanto a segunda bomba de hidrogênio caía sobre a parte azul de Porto Alegre.
*
Maurício Brum
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  1. 06/09/2010 às 19:23

    Muito boa historia! Gostei muito

    Segue escrevendo deste jeito.

    Abraço desde o Café Futbol

    Ariel

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