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Archive for agosto \12\UTC 2011

Corvos contra pinguins

Não teve grande repercussão, mas merecia, a notícia do jogador de futebol espanhol que decidiu encerrar a carreira nesta semana para fazer algo mais útil para a sociedade. Javier Poves tem apenas 24 anos. Era zagueiro do Sporting de Gijón, time da primeira divisão, mas raramente entrava em campo. Quis descobrir as filosofias do mundo. Nas viagens com o time, lia autores tão antagônicos como Karl Marx e Adolf Hitler (sim). Concluiu: não há amor no futebol. Apenas dinheiro. E não queria mais viver “prostituído” enquanto tantos espanhóis sofrem com o desemprego pela crise.

Poves vai estudar História. Verdade, ele era apenas o reserva do reserva. É possível que sua rebeldia enfática tenha vindo apenas como a melhor desculpa já dada para abandonar uma carreira pouco promissora. Alguém como o argentino Lionel Messi, o melhor e mais bem pago jogador de futebol do mundo, metido no melhor time do mundo, jamais deixaria de lado os milhões, a fama, os gols e as consequências de tudo isso, por causa de alguma ideologia. Mas digamos que deixasse.

Numa manhã deste verão europeu, com o cheiro das alcachofras (?) recém-florescidas entrando pela janela do seu quarto na concentração de pré-temporada, o craque argênteo acorda com os pensamentos vazios. Dedicado ao futebol desde o início da vida, subitamente se olha no espelho frustrado. Só soube jogar bola esse tempo todo. Leu pouco. Viajou apenas para participar de campeonatos. Nem mesmo sabe direito como é a vida na sua Argentina natal, de onde partiu aos doze anos. Em vez de botar a camiseta de treino do Barcelona, estende a mão até o espelho tentando estrangular o próprio reflexo. Pergunta-se: “¿qué carajo hago yo aquí?”.

Messi caminha pelos corredores do hotel e vai bater à porta do treinador. Comunica a decisão. Sim, sabe o que está dizendo. Não quer mais fazer aquilo. Quer conhecer pessoas. E o mundo. Claro que vai pagar a multa rescisória dos contratos com o clube e com os patrocinadores. Mesmo empobreça. Se sobrar algo, pretende comprar livros e uma passagem para algum ponto da África. Pensa em virar missionário. Ou fazer um retiro espiritual no Tibet. Encontrar o Grande Lionel adormecido que se esconde sob seus eflúvios internos.

O Barcelona diz que as portas ficam abertas. Mas Leo está convicto. Aspirantes a futebolista de todo o mundo cogitam seguir a moda e fogem de casa sem maiores explicações. Os jornais falam em jogada de marketing. No entanto, não se leem notícias de Messi por quinze anos. Um dia o descobrem na Terra do Fogo, o pedaço gelado do extremo sul da Argentina. Fracassou na missão intimista, diz. De fato, só sabia jogar bola. Percebeu isso velho demais para recuperar a forma. Quis retornar ao país natal, mas o mais longe possível das grandes cidades. Seu time agora se chama Cuervitos del Fin del Mundo, e o Lionel Messi de quarenta anos passa as tardes driblando pinguins.

(Texto publicado na minha coluna do Jornal da Manhã de Ijuí, na sexta-feira 12 de agosto de 2011. As colunas são assim: limitadas a 3 mil caracteres, curtas demais para impedimentar, e muitas têm finais abruptos, pois, quando vi, não tinha mais letras para avançar – não é o caso desta, que é só curta. Colocar minhas colunas na internet é um projeto antigo, mas sigo RETICENTE. Esta veio para cá a pedido. O Ilusionando segue desativado, só era o lugar que havia para publicar)